Notícia

Jornal da USP

Trabalho na temperatura certa

Publicado em 02 agosto 2001

Tente imaginar um escritório sem ar condicionado. No clima tropical do Brasil, isso parece uma distante realidade. Mesmo em tempos de inverno, nosso clima está sempre sujeito a variações que pedem um sistema de ar condicionado para proporcionar maior comodidade aos usuários. Mas, em tempos de racionamento, como fazer para economizar energia e ao mesmo tempo manter esse conforto térmico? A solução pode estar numa pequena cabine, que simula um escritório-padrão, com estações de trabalho equipadas com mesa, computador, impressora, com 35 metros quadrados por 2,7 metros de altura. O detalhe é o tipo de sistema de ar condicionado: em vez de dutos de ar presos ao teto, o ar vem de difusores instalados no piso. Essa cabine é, na verdade, o Laboratório de Conforto Térmico e Conservação de Energia, inaugurado no último dia 26 no Departamento de Engenharia Mecânica da Escola Politécnica da USP. Idealizado pela engenheira Brenda Chaves Coelho Leite (recém-contratada pelo Departamento de Engenharia Civil da Poli), o projeto faz parte de seu doutorado, sob orientação do professor Arlindo Tribess, da Engenharia Mecânica. A idéia é estudar sensações térmicas nesse ambiente, tais como temperatura, umidade, velocidade do ar, até chegar, possivelmente, às condições ideais. Isso será feito em três etapas. Na primeira, serão colocados simuladores de carga térmica, que ocuparão o lugar de pessoas. São cilindros pretos, ocos, com três lâmpadas de 40 watts, da altura de uma pessoa sentada. Nessa situação, que deve começar já na primeira semana de julho, Brenda vai fazer medições quantitativas das variáveis (temperatura, velocidade do ar, umidade), em seis alturas diferentes a partir do chão. Depois, aproximadamente em outubro, os simuladores darão lugar a pessoas de carne e osso, que descreverão a sensação térmica com o ar condicionado vindo do chão, dando seus pareceres subjetivos. Na última etapa, as pessoas vão poder controlar seu "micro-clima", através de difusores reguláveis móveis instalados sobre as mesas do escritório. Deles, sai um ar que possibilita ainda maior controle sobre a temperatura e a direção do fluxo de ar. Além desse último artefato, o laboratório conta com um painel de lâmpadas que simula a radiação solar em uma parede de vidro transparente de três milímetros de espessura. As lâmpadas também têm a potência regulável, podendo projetar luzes e calor do Sol de qualquer hora do dia, em qualquer estação do ano. Como se vê, as condições normais de um escritório foram minuciosamente reproduzidas. Até o fim do ano, Brenda deve terminar todas as medições - quantitativas e qualitativas - e depois terá dados para dizer se a sensação térmica das pessoas com o novo tipo de ar condicionado é satisfatória. VANTAGENS ECONÔMICAS No entanto, já há motivos para pensar que, pelo menos economicamente, o insuflamento de ar pelo piso é interessante. "O ar frio, quando você insufla por cima, resfria todo o ar' do ambiente. Pelo piso, vai resfriar apenas o volume necessário, até a altura da cabeça. Isso já é uma economia. E, como pelo piso ele entra em contato, mais rápido com a pessoa, pode ser insuflado numa temperatura mais alta, gastando menos energia", enumera Brenda. "Esse contato mais rápido com as pessoas possibilita que elas respirem um ar mais novo. Isso dá um incremento na qualidade do ar", completa a engenheira. "Com essa história de racionamento, o pessoal põe um, dois graus a mais, diminui o gasto, mas diminui o conforto. O nosso objetivo é ter as mesmas condições de conforto com, menor consumo de energia", afirma Tribess. O professor explica ainda que o conceito de conforto térmico teve um grande avanço a partir da Segunda Guerra Mundial, quando começaram a ser construídos muitos edifícios de escritório, sobretudo a partir da década de 70, com os estudos de Fanger, pesquisador da Universidade da Dinamarca considerado o "papa do conforto". O uso de ar condicionado com insuflamento pelo piso, entretanto, é mais recente. Há cerca de dez anos, começou a ser usado principalmente na Europa e nos Estados Unidos. "Hoje, nesses países e no Japão, quase não se fala em ar condicionado para escritório pelo teto, já se supõe que é pelo piso", diz Brenda. Há ainda mais uma vantagem do sistema de ar condicionado pelo piso, segundo a engenheira: "As empresas que ocupam escritório exigem um nível de flexibilidade muito grande, porque elas mudam a toda hora, são dinâmicas. O sistema de ar condicionado pelo teto não permite mudanças, porque os dutos são fixos. O único sistema que permite essa flexibilidade é o insuflamento pelo piso, porque as placas do piso são removíveis". Em relação ao custo, apesar de não haver estudos, a tendência é que o novo sistema seja mais barato, pois dispensa a instalação de dutos, aumentando o pé-direito do local. Quanto ao custo com o piso elevado, o professor argumenta: "As empresas já estão adotando o piso elevado, para cabeamento de dados, eletricidade e telefone. Parece lógico usar também para ar condicionado". INTERCÂMBIO COM ICB O laboratório, além de servir às pesquisas para o doutorado de Brenda, já está aberto a pesquisas de outros ramos da ciência. Simone Citadine Alevato, aluna de mestrado pelo ICB (Instituto de Ciências Biomédicas da USP), vai aproveitar as instalações para estudar a proliferação de fungos nesse sistema. "Essa pesquisa é importante porque não existe esse tipo de estudo no Brasil", ressalta Simone. Ela explica que a legislação brasileira quanto ao limite de fungos em ar condicionado é baseada no padrão do Canadá. Ciríaco Gonçalez Mendes Júnior, aluno do terceiro ano da Poli, também vai aproveitar o laboratório para fazer pesquisas da sua bolsa de iniciação científica pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Brenda prevê que outras áreas, como a engenharia civil e a arquitetura, também possam aproveitar o laboratório. "É um embrião que a gente pretende que cresça e se multiplique, para poder fazer trabalhos multidisciplinares", afirma. Além do escritório, o laboratório conta com máquinas responsáveis pelo resfriamento do ar e da água. Os recursos foram conseguidos junto à Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), que cedeu cerca de 140 mil reais, e com doações de equipamentos por empresas. O doutorado de Brenda deve ser defendido em meados do ano que vem.