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Agora São Paulo

Trabalho de mulheres cientistas ganha destaque na pandemia

Publicado em 08 março 2021

Por Mariana Freire

Do mapeamento do genoma do vírus até o desenvolvimento de vacinas contra a Covid-19, passando pela elaboração de testes para detectar a infecção e a comunicação sobre o tema, o trabalho feminino tem se destacado na pandemia.

O desempenho das jovens estudantes na escola unido a outros fatores como as tantas mulheres no meio científico, especialmente num tema de destaque como a pandemia, pode culminar no crescimento relevante do número de pesquisadoras, diz Ana Almeida, professora da Faculdade de Educação da Unicamp e coordenadora adjunta de ciências humanas e sociais da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de SP).'' Se as meninas são bem sucedidas na escola, haverá número maior de mulheres na universidade, na pós-graduação e na pesquisa. Já é uma realidade incontornável ”

Chegarão à academia mulheres bem preparadas e ambiciosas, diz a professora. Há, contudo, um desafio: garantir que as instituições não ofereçam obstáculos ao avanço de mulheres na carreira científica.

Diretora do IMT (Instituto de Medicina Tropical) da USP (Universidade de São Paulo), Maria Cássia Mendes Corrêa lidera uma equipe com presença de destaque de mulheres.

" A força feminina na pesquisa na pandemia é expressiva ”, diz. Mas ela afirma que ainda falta representação política em comitês, secretariados e ministérios. “ É preciso ter impacto em várias linhas de pesquisa.

Foi no IMT, há um ano, que uma dupla de pesquisadoras, Ester Sabino, então diretora, e Jaqueline Goes de Jesus, pós-doutoranda, sequenciaram o genoma do coronavirus após primeiro caso no país.

Já é possivel observar uma igualdade numérica entre homens e mulheres na graduação e na pós, segundo Soraya Smaili. Ela é a primeira reitora mulher da Unifesp (Universidade Federal de SP), uma instituição que já tem quase 90 anos.

A maior questão, ela diz, é ampliar a presença das mulheres em postos de gestão, desde a coordenação de laboratórios até as reitorias. “ Precisamos ocupar mais lugares nos comitês de decisão, mas, ressalto, não basta só ser mulher ”, diz.

Objetivo é eliminar gargalos entre generos, diz professora

O monitoramento de indicadores é uma importante ferramenta para promover a equidade de gênero na pesquisa, de acordo com Ana Almeida, professora da Faculdade de Educação da Unicamp e coordenadora adjunta de Ciências Humanas e Sociais da Fapesp.

Entre 2010 e 2019, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo apoiou 61.999 projetos de pesquisa, e apenas 43% deles estavam sob responsabilidade de pesquisadoras mulheres. “ Essa diferença tem que ser objeto de estudo para sabermos por que ela acontece ” Uma possibilidade, ela afirma, é a representação desproporcional em áreas específicas.

Um fator importante a ser observado na tentativa de medir a equidade de gênero, de acordo com Ana, é a taxa de sucesso das solicitações. Entre os projetos submetidos por mulheres, 52% deles foram aceitos. Para homens, o número é 54%. Esse indicador, segundo ela, é estável nos últimos 10 anos, mesmo com o aumento do número de solicitações de mulheres.

Entre as ações da instituição para diminuir a desigualdade entre os gêneros estão a prorrogação de bolsas para pesquisadoras quando há o nascimento de uma criança, a flexibilização de datas de entrega para mulheres que sejam mães ou cuidem de familiares e o debate institucional com outras agências de fomento sobre o tema.

Conciliar a maternidade se torna mais um desafio

Conciliar a maternidade se torna um desafio a mais para as mulheres envolvidas em um momento tão importante para a ciência, como o combate à pandemia.

Mãe de quatro filhos, Cristiane Guzzo, professora do departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, afirma que falta contextualização das condições dessas mulheres em relação a outros pesquisadores.

“ O que esperam de você, mulher e mãe, é equivalente ao que esperam de um homem que não passa por isso. Eu trabalhei em todas as minhas licenças maternidades ”, afirma Cristiane.

Natalia Pasternak, microbiologista e presidente do Instituto Questão de Ciência, afirma que sua trajetória na ciência foi influenciada pela maternidade. Quando a filha nasceu, há 12 anos, decidiu que essa seria sua nova dedicação. E esse tipo de pausa, Natalia diz, tem forte influência no mercado de trabalho.

“ Há 2 anos ainda não era tão óbvio que a chegada de uma criança deveria afetar a vida do casal e que os dois deveriam fazer concessões.'

' A mudança, Natalia sugere, tem que ser em duas vias. “ Esse tipo de arranjo [a cobrança por produtividade] precisa ser mais flexivel até que a maternidade seja uma responsabilidade cada vez mais dividida entre os casais ” afirma.

(MF)

Falta reconhecimento, diz biomédica

Apesar dos avanços dos últimos anos, ainda falta reconhecimento da pesquisa da mulher, afirma a biomédica Ticiane Henriques Santa Rita, do núcleo de Pesquisa e Desenvolvimento do Grupo Sabin.

“ Quanto mais mulheres forem reconhecidas, mais outras serão atraídas para a ciência ”, diz Ticiane.

Não é incomum, diz a biomédica, que os resultados de homem tenham melhor visibilidade que os de mulheres. Equidade salarial e fim de situações de assédio são outras questões a serem mudadas.

A microbiologista Natalia Pasternak, que simplificou a forma de falar sobre o coronavirus na TV, percebe que a presença feminina na pesquisa sobre a Covid-19 e na mídia já tem servido de inspiração às futuras cientistas. “ Quando o jovem se vê representado, ele entende que tem espaço naquela profissão. E muito importante que meninas vejam mulheres nesse espaço para verem que elas também podem ocupar esse espaço

Além da questão de justi a social, promover a diversidade na pesquisa cientifica traz benefícios aos resultados, diz Ana Almeida, da Unicamp e da Fapesp. “ São necessários olhares diferentes sobre a mesma questão. Acumular outras visões, colocar as pessoas em contato e permitir que interajam entre si é condição para que um assunto seja melhor estudado ” afirma.