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Agência C&T (MCTI)

Trabalho da Cooperlix é tema de tese em PP

Publicado em 11 dezembro 2007

Mesmo coletando resíduos na cidade, ao se tornarem cooperados - através do apoio que obtém de entidades e do poder público municipal -, os catadores podem ter auto-estima, dignidade e motivação para o trabalho, ao contrário do que acontecia quando atuavam no lixão. Esta foi a conclusão da tese de doutorado, na área de psicologia, que teve como tema "Cooperativismo e redes sociais: a organização do trabalho na Cooperlix de Presidente Prudente", defendida ontem pelo professor de Psicologia da Universidade do Oeste Paulista (Unoeste), Jerson Joaquim da Silva, 59 anos.

A defesa foi apresentada no anfiteatro II da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Prudente e durou cerca de cinco horas, até que saísse o resultado de aprovação. Cerca de 30 pessoas assistiram a defesa.

Conforme Silva, foram quatro anos de pesquisa, dividida entre questionários, observação e entrevistas com os próprios cooperados da Cooperativa de Trabalhadores de Produtos Recicláveis Cooperlix, além de visitas em outras cidades, como Sorocaba, Álvares Machado, Santos e Santo André, que também atuam com a coleta seletiva.

Entre as diferenças detectadas, ele cita o apoio das universidades de Prudente - Unesp e Unoeste -, e outras entidades, que deram no início para o funcionamento da cooperativa. "Ela nasceu com um projeto de políticas públicas que, financiado pelo Fundação de Amparo às Pesquisas do Estado de São Paulo [Fapesp], puderam ser comprados todos os equipamentos, como a esteira e a prensa", conta.

"Outras entidades como a igreja católica e o Rotary Clube doaram um caminhão cada e a Caixa Econômica Federal liberou outra verba para a divulgação da coleta. Outros municípios não contam com estes apoiadores, extremamente importantes", acrescenta.

Mesmo com os atos assistidos pelos parceiros, o psicólogo ressalta que a Cooperlix se insere como uma cooperativa. "Pelo fato de terem uma identidade de grupo, mesmo com conflitos emergentes, se caracterizam como cooperativa pela prática do trabalho solidário, atendendo a maioria dos princípios cooperativistas", destaca.

O que falta, segundo ele, pelo fato da maioria dos cooperados terem atuado antes no lixão, é experiência em gestão e em trabalho em equipe. "Neste sentido, as faculdades dão treinamento e palestras esporadicamente, conforme a necessidade dos catadores e a disponibilidade dos professores", comenta. Sobre o papel desempenhado pela Cooperlix, Silva completa dizendo que "é uma cooperativa que presta trabalho de utilidade pública para a cidade, aparentemente de responsabilidade do poder público municipal".

Dados Conforme expôs o psicólogo na defesa, a Cooperlix conta atualmente com 35 associados, separando, prensando e comercializando, mensalmente, cerca de 70 toneladas de materiais, entre plásticos (embalagem e garrafa pet), papéis (caixa, papelão, jornal e revista), vidros (garrafa e afins) e metais (lata, alumínio, ferro, cobre e zinco). Três caminhões são responsáveis pela coleta, que acontece de segunda a sexta-feira, em bairros e horários determinados.

Com a pesquisa, ele detectou que 47% dos que atuam na cooperativa são mulheres, 60% deles tem entre 21 e 40 anos e 4% são analfabetos. Com relação ao tempo como cooperados, 52% estão desde o início (2003). Entre os principais problemas enfrentados, 32% atribuem ao relacionamento interpessoal do trabalho.

Sobre a situação sócio-econômica dos trabalhadores, Silva ressalta que enquanto faturavam no máximo R$ 300,00 por mês, com o trabalho, atualmente retiram R$ 663,00 (mais que o dobro) com a coleta e a comercialização dos materiais. "Isto se deve ao aumento da coleta, que pode ainda ser ainda ampliado, se conseguirem outro caminhão, já pleiteado com um banco", fala.

"Levando em conta que mais da metade deles está desde o início na cooperativa, observa-se que o trabalho no local representa no imaginário dos cooperados grandes índices de satisfação e expectativa", completa.

Fizeram parte da Banca Examinadora: doutor Antonio Cezar Leal (orientador), do Departamento de Geografia da FCT/Unesp de Prudente; doutor Luis Antonio Barone e doutora Marilia Coelho, do Departamento de Planejamento, Urbanismo e Ambiente da FCT/Unesp; doutora Alba Regina Azevedo Arana, da Unoeste; e doutor Marcelino de Andrade Gonçalves da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS).