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Toxina de caramujo gera analgésico mais forte que a morfina

Publicado em 23 julho 2011

A indústria farmacêutica descobriu na toxina do caramujo marinho Conus magnum um analgésico mais potente que a morfina e alguns de seus derivados utilizados para aliviar dores crônicas. O peptídeo sofreu algumas modificações estruturais em laboratório.

Aprovado em 2004 pela agência regulatória de alimentos e fármacos dos Estados Unidos, a Food and Drug Administration (FDA), a versão sintética do princípio ativo do molusco é encarada como um exemplo de como a biodiversidade continua sendo uma fonte inesgotável de novas arquiteturas moleculares para o desenvolvimento de novas drogas, produtos cosméticos e agroquímicos.

"A maioria das novas entidades moleculares existentes hoje é derivada ou inspirada completamente em produtos naturais. Os ambientes terrestre e marinho continuam sendo fontes inesgotáveis de estruturas químicas", salientou à Agência Fapesp Vanderlan da Silva Bolzani, professora do Instituto de Química de Araraquara da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro da coordenação do programa BIOTA-FAPESP.

Segundo Vanderlan, nos últimos 15 anos houve especulações de que os produtos naturais deixariam de interessar à indústria farmacêutica, pois este setor dispõe de várias técnicas para o desenvolvimento de novas drogas. Porém, os produtos naturais continuam despontando como fontes de ideias, já que forneceram modelos inéditos de estruturas químicas para o desenvolvimento de novas substâncias bioativas.

Levantamento internacional

De acordo com um recente levantamento internacional, dos 847 fármacos de baixo peso molecular (micromoléculas) lançados no mercado entre 1981 e 2006, 43 eram produtos naturais, 232 produzidos por hemissíntese (parte de sua estrutura é derivada da natureza e a outra parte desenvolvida em laboratório) e 572 obtidos por síntese total, dos quais 262 eram inspirados em produtos naturais ou poderiam ser considerados análogos de produtos naturais.

Lançado em 2002 sob a marca Orfadin, a nitisinona (composto ativo descoberto por farmacêuticos suíços da planta Callistemon citrinus L. Myrtaceae) é um exemplo de produto micromolecular. O medicamento auxilia no tratamento de um raro distúrbio metabólico chamado Tirosinemia Hereditária Tipo 1.

"Com a quantidade de mirtáceas que nós temos na nossa biodiversidade seria possível desenvolver muitos medicamentos como esse no Brasil. Nós teríamos uma riqueza enorme se tivéssemos no país um ambiente favorável não só à pesquisa básica, como para o desenvolvimento e melhores marcos regulatórios¿, apontou Vanderlan ao se referir a nitisinona.

Morfina

Descoberta a aproximadamente 200 anos atrás, a morfina é uma substância narcótica e sintética (produzida em laboratório), derivada do ópio retirado do leite da papoula. A descoberta foi isolada pela primeira vez em 1804 pelo farmacêutico alemão Friedrich Wilhelm Adam Serturner, da Papaver Somniferum.

O medicamento é considerado de grande utilidade na medicina, pois é usado como analgésico em casos extremos (traumas, partos, dores pós-operativas e graves queimaduras). A morfina é introduzida por via oral, subcutânea, intramuscular ou intravenosa, sendo que a superdosagem pode resultar em danos graves ao paciente.