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SRZD - Sidney Rezende

Toxina da cascavel pode ser poderoso tônico muscular

Publicado em 03 maio 2008

Uma toxina do veneno da cascavel está se tornando alvo de interesse médico. Novos estudos indicam que a crotamina, que já foi apontada como um potente analgésico, inibidora na formação de tumores e transportadora de medicamentos ao interior das células, pode ser também um poderoso tônico muscular.

A descoberta partiu do trabalho de pós-doutorado da toxinologista Saraguaci Hernandez Oliveira, que conta com o apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Sob a supervisão da farmacologista Léa Rodrigues Simioni, do Departamento de Farmacologia da Unicamp, Saraguaci realizou experimentos com ratos em laboratório e constatou que a substância aumentou a força muscular esquelética dos animais. O mesmo efeito foi verificado em músculos esqueléticos isolados de camundongos. A crotamina mostrou-se tão poderosa que foi capaz até mesmo de reverter a paralisia causada por um potente relaxante muscular, a tubocurarina.

Saraguaci revela que teve que avaliar também a toxidade da substância, já que o excesso de crotamina pode ser danoso às células musculares. Ela realizou experimentos com diversas doses, que permitiram verificar que a quantidade utilizada que aumentou a força nos ratos foi muito menor do que aquela em que a toxina foi letal para os animais. No entanto, Saraguaci ainda está investigando a relação entre a dose tóxica e a dose terapêutica.

 

Por enquanto, a pesquisadora só testou o efeito da crotamina em ratos normais. O seu próximo passo será testar o efeito da subtância em animais com miastenia gravis, doença que causa fraqueza muscular. Para isso, ela produziu em laboratório ratos miastênicos.

Isso só foi possível porque a miastenia gravis é uma doença auto-imune, ou seja, o próprio organismo produz anticorpos que atacam e danificam certas proteínas do corpo, os receptores nicotínicos, elementos essenciais na comunicação entre o nervo e o músculo. Sem essas proteínas, ocorre fraqueza e paralisa muscular. Saraguaci então injetou pequenas quantidades desses receptores nos animais, fazendo com que seus organismos desenvolvessem anticorpos contra eles. Depois de algum tempo, os anticorpos reconheceram e atacaram também os receptores previamente existentes no corpo dos ratos, imitando, assim, a miastenia gravis em humanos.

Saraguaci pretende avaliar também se a crotamina melhora o desempenho dos ratos miastênicos enquanto eles se exercitam em esteiras. Esse tipo de teste é fundamental, já que os portadores da doença costumam apresentar fraqueza muscular quando submetidos a exercícios físicos.

Se com os resultados dos testes a crotamina mostrar-se capaz de aumentar a força dos ratos miastênicos, ela poderá tornar-se base para a fabricação de medicamentos alternativos para combater os sintomas da doença. Os medicamentos até agora existentes para tratar a miastenia gravis produzem diversos efeitos colaterais nos pacientes.