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Galileu

"Todos têm talentos, só não têm a oportunidade"

Publicado em 01 fevereiro 2019

Em 2014, Joana D'Arc Félix foi considerada a pesquisadora do ano na cerimônia do Prêmio Kurt Politizer de Tecnologia, organizado pela Associação Brasileira de Indústria Química (Abiquim). A honraria se somou aos mais de 80 prêmios que a pesquisadora de 55 anos já recebeu ao longo de sua carreira. Uma história que poderia ter um final bem diferente caso as oportunidades não tivessem vindo ao encontro de seu talento e curiosidade. Seu pai trabalhava em um curtume - oficina que processa couro cru - e sua mãe era uma empregada doméstica que precisava fazer jornada dupla como lavadeira e passadeira.

Apesar das dificuldades financeiras, Félix sempre foi curiosa e aprendeu a ler aos 3 anos, grifando diariamente as palavras do jornal. Impressionada com essa façanha, a patroa da casa em que sua mãe trabalhava a convidou para acompanhar as aulas na escola onde era diretora. Deu certo - e, aos 4 anos de ida,de, a garota ingressou na primeira série do Ensino Fundamental.

A jornada de superação ainda esbarria em muitos preconceitos. "Quando estava na terceira série do Ensino Fundamental, precisei mudar de colégio, porque era mais perto de casa. Lá, os alunos eram separados por turmas de acordo com os níveis sociais de cada um. Fui para a terceira série E, onde só havia pessoas bem pobres como eu, e foi nessa escola que comecei a ter consciência da minha vida'; relembra Félix. Resistindo diariamente ao racismo praticado pelos colegas, ela prosseguiu com os estudos e, movida por sua paixão pela Química, ingressou na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) com apenas 14 anos.

Após concluir o Mestrado e o Doutorado na instituição paulista, Félix realizou um pós-doutorado na Universidade Harvard, nos Estados Unidos. Hoje, é professora na Escola Técnica Estadual (Etec) de Franca, cidade no interior de São Paulo e sua terra natal. Por lá, a cientista desenvolve projetos com estudantes que se encontram em situação de vulnerabilidade social. "Esses alunos já se sentem excluidos e acreditam que jamais serão escolhidos para algum projeto relevante. Minha tarefa é correr atrás deles, explicar como funciona a iniciação científica", conta. "No final, é muito prazeroso: todos têm talentos, só não têm a oportunidade de expressá-los:• Palestrante da Campus Party, maior fe~tival de inovação e ciência realizado no Brasil, que ocorrerá entre 12 e 17 de fevereiro, Félix compartilha sua história na entrevista a seguir.

QUANDO VOCE SE INTERESSOU PELA QUIMICA?

Desde os 3 ou 4 anos de idade. E no terceiro ano do Ensino Médio, urna professora comentou em sala de aula que se alguém quisesse estudar para o vestibular, ela tinha algumas apostilas para ajudar. Eu pedi e ela me entregou. Eu estudava na escola no período da manhã, chegava em casa e me concentrava nas apostilas das 13 horas às 20 horas.

E COMO FOI A ÉPOCA DA ESCOLA?

Estudei em uma "escola de preconceitos'~ Quando estava na terceira série do Ensino Fundamental, precisei mudar de colégio, porque era mais perto de casa. Era urna escola estadual, mas muitos filhos de empresários estudavam lá. Os alunos eram separados por turmas de acordo com os níveis sociais de cada um. Fui para a terceira série E, onde só havia pessoas bem pobres como eu, e foi nessa escola que comecei a ter consciência da minha vida das piores formas. Um fato que me marcou bastante aconteceu quando eu tinha 6 anos. Lá em casa, a gente comprava sapato só urna vez por ano, na época em que meu pai recebia o 13º salário: chegava dezembro e a gente já estava com o sapato desgastado e furado. Para proteger nossos pés, minha mãe colocava papelão dentro dos sapatos e, quando chovia, ela adicionava um reforço com urna sacolinha plástica para que a gente não se molhasse. Certa vez, no recreio, eu sentei e cruzei as pernas, mas não tinha percebido que um pedaço da sacolinha plástica estava aparecendo fora do meu sapato. As outras crianças, então, viram aquela cena e um dos meninos da turma gritou: "Está nascendo sacolinha no pé da negrinha do curtume!'~ Esse era o apelido que as crianças haviam dado a mim e aos meus irmãos. Depois disso, fizeram uma roda em volta de mim para chutar meu pé e dar risada daquela situação. Ninguém da escola veio me ajudar. Foram uns 30 minutos de chacota.

MESMO COM TODO O PRECONCEITO, SEUS PAIS AINDA ASSIM A INCENTIVAVAM A IR PARA A ESCOLA?

Sim. Muitas vezes eu chegava em casa e praticamente implorava a meu pai para que me tirasse da escola. Mas ele dizia que eu deveria estudar e ser a primeira aluna da classe. A estrutura familiar independe de situação financeira. Eles poderiam simplesmente ter me tirado da escola, mas não o fizeram.

VOCÊ ENTROU NA FACULDADE COM APENAS 14 ANOS. COMO FOI A EXPERIÊNCIA UNIVERSITÁRIA?

Meu pai sabia que eu queria cursar Química e que era urna menina estudiosa, então ele disse que me ajudaria a me manter - mas só se eu passasse em uma universidade estadual ou federal. Passei na USP, Unicamp e Unesp. Os resultados saíram no jornal. Meu pai ficou todo orgulhoso de ver meu nome lá. Escolhi a Unicamp. Quando fui fazer a matrícula, já procuramos o pensionato mais barato da região para eu morar. As refeições não es tavam inclusas, naturalmente. Então, no início do ano letivo, eu comia no bandejão. Ali eles dispunham também de alguns minipãezinhos- eu sempre pegava um para comer no jantar. Às vezes, minhas refeições noturnas eram uma laranja ou uma maçã. Só a partir do segundo semestre as coisas começaram a melhorar. Foi quando me empenhei na iniciação científica.

Com o valor da bolsa da Fapesp [Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo], dava para pagar o pensionato e mandar um dinheirinho para minha mãe. Lembro que, quando recebi uma bolsa de iníciação científica pela primeira vez, fui direto ao supermercado para comprar aquilo que via as meninas comendo no pensionato e que muitas vezes não tinha: danone e doces da padaria.

O OUE MOTIVOU VOCE A VOLTAR PARA O BRASIL ENOUANTO ESTAVA NA UNIVERSIDADE HARVARO?

Quando eu estava nos últimos seis meses de pós-doutorado, minha mãe ficou muito doente. Ela estava sozinha aqui no Brasil. As minhas tias e o meu pai haviam falecido alguns meses antes. Eu tinha o desejo de terminar meus estudos em Harvard e trabalhar nos Estados Unidos. Porém, com a doença dela, precisei voltar. Foi um baque na época, mas hoje tenho certeza de que foi a melhor decisão que tomei na minha vida.

HOJE VOCE LECIONA NA ETEC DE FRANCA, NA SUA CIDADE NATAL COMO É SEU TRABALHO POR LA?

Um mês depois de voltar para o Brasil, vi que haveria um concurso para ministrar o curso técnico de curtimento [nome dado às técnicas de processamento do couro] na Etec. Passei na prova e comecei a lecionar. O maior choque foi o ambiente da escola: muitas vezes, o aluno está envolvido com tráfico de drogas e prostituição e não tem interesse nas aulas. Além disso, mal havia laboratórios para trabalhar. Diante disso, resolvi atuar de uma forma diferente. Primeiro, quis trazer a iniciação científica para o ensino médio técnico. Normalmente, quando o professor tem bolsas de estudo para oferecer aos alunos, ele faz uma seleção com base no histórico escolar. Mas pensei: "Como vamos equilibrar o Brasil trabalhando só com os melhores?". Por isso, decidi oferecer a bolsa de iniciação científica aos alunos entre 14 e 18 anos que se encontravam em situações vulneráveis. Esses alunos já se sentem excluidos e acreditam que jamais serão escolhidos para algum projeto relevante. Minha tarefa é correr atrás deles, explicar como funciona a iniciação científica. No final, é muito prazeroso: todos têm talentos, só não têm a oportunidade de expressá-los.

E COMO ESTÃO OS PROJETOS COM ESSES ALUNOS?

Nós já temos 15 patentes internacionais. Nossa matéria-prima são os resíduos gerados pelo setor coureiro de Franca, o que também é um grande problema ambiental da cidade. Com esse reaproveitamento, conseguimos desenvolver diversos produtos. Um deles é para a área da saúde: a pele humana artificial. Estudamos qual pele animal mais se aproxima da pele humana e descobrimos que a suína era a mais indicada. Pesquisamos, então, como deixar essa pele 100% compatível com a humana. Essa transformação é feita em duas etapas. Pegamos a pele suína no frigorífico, eliminamos a gordura e as células do sistema imunológico. Mas como os poros do porco são bem maiores do que os da pele humana, fazemos um tratamento com colágeno. Chegamos a um resultado de 99,9% de compatibilidade.