Notícia

Gazeta Mercantil

Todo o poder da criatura

Publicado em 12 janeiro 2007

O escritor baiano Jorge Amado costumava comentar com sua mulher, Zélia Gatai, que algumas personagens de seus romances ganhavam vontade própria durante a escrita do livro, só fazendo na história aquilo que bem entendiam. Essa personalidade "determinada" de algumas pessoas nascidas na ficção pode ser observada, por exemplo, em "Dom Casmurro", de Machado de Assis. Embora muitos literatos brasileiros tenham atravessado o século XX discutindo ferozmente se Capitu havia ou não cometido adultério, o fato é que se questionado sobre o assunto, talvez nem mesmo o próprio Bruxo do Cosme Velho pudesse responder com certeza a pergunta. "Mais Estranho que a Ficção", do diretor Marc Forster, filme que estréia hoje no Brasil, trazendo no elenco Will Ferrell, Maggie Gyllenhaal, Emma Thompson (ver entrevista abaixo) e Dustin Hoffman, trata exatamente sobre essa "vontade própria" das personagens detectadas por Jorge Amado. O filme começa apresentando ao espectador o fiscal da receita federal americano Harold Crick (Ferrell). Com uma vida absolutamente comum e sem graça, o rapaz é um solitário que tem na matemática um dos seus hobbies favoritos para preencher o vazio que é sua vida. Enquanto Crick contabiliza tudo, seu relógio de pulso, eterno companheiro, vai lhe tirando as horas e os dias, provando mais uma vez pela ficção, a máxima machadiana de que "matamos o tempo e o tempo nos enterra". Tudo vai bem (na medida do possível, é claro, para uma vida tão entediante) até que o fiscal, numa manhã, escuta uma voz que narra não somente suas ações, mas também seus pensamentos mais íntimos. Crick pensa estar enlouquecendo e decide procurar uma terapeuta. Como não acredita no diagnóstico de que está sofrendo de esquizofrenia, resolve seguir o segundo conselho da médica: procurar um especialista em Literatura. É o professor Jules Hilbert - impecavelmente interpretado por Hoffman, que quando jovem era um mau aluno confesso - que dará ao fiscal uma explicação "mais satisfatória" para seu drama: provavelmente há uma autora - já que a voz que Crick escuta é feminina - escrevendo um romance sobre sua vida. A escritora em questão e dona da voz que atormenta o rapaz a ponto de lhe "adiantar" que sua morte é "iminente" é Kay Eiffel (Emma Thompson), conhecida por matar todos os protagonistas de seu livro. Com um bloqueio criativo, ela não consegue terminar sua nova obra. Para cumprir seus prazos, sua editora envia-lhe uma assistente (Queen Latifah) que tenta garantir à personagem de Emma um mínimo de bom senso. Trava-se então o velho embate entre criador e criatura, que na ficção ocidental desde a Civilização Grega, remete à questão da luta entre deuses e homens. De um lado, Miss Eiffel precisa matar Crick para concluir o "melhor livro de sua carreira". Do outro, o fiscal quer transformar aquilo que tem todos os indícios de ser uma tragédia - segundo o professor Hilbert - em uma comédia, pois se apaixonou pela "descolada" patissière Ana Pascal (Maggie Gyllenhaal) ao auditar sua padaria. Embora à primeira vista o roteiro de Zach Helm possa remeter ao texto de Luigi Pirandello "Seis Personagens em Busca de um Autor", no caso de Crick, o fiscal não está almejando encontrar um autor para concluir sua história, mas, ao contrário, tenta encontrar Kay para "adiar" seu final. O mérito desta película de Forster - que dirigiu anteriormente "Em Busca da Terra do Nunca" - está em conduzir o espectador até o final sem saber quem de fato vencerá o embate: o criador ou a criatura. Nesta luta, do "criador" todo poderoso que parece ser dono incondicional do destino da personagem com a criatura que se rebela contra os rumos que a trama de sua vida está tomando (Jorge Amado teria adorado tudo isso), quem ganha é o espectador que tem em "Mais Estranho que a Ficção" um dos melhores filmes que Hollywood produziu nos últimos anos. Não por acaso, muitos estúdios disputaram a distribuição do filme quando ele era apenas um roteiro. Nesta seara de histórias com desfecho previsível que virou Hollywood, onde a maioria dos autores insistem em seguir à risca as regras ditadas por manuais como o escrito por Syd Field, o novo filme da dupla Forster e Helm tem elementos tão surpreendentes como o inusitado "Adaptação" (2002), com roteiro do irreverente Charlie Kaufman, outro libelo da criação que discute os limites do poder do criador sobre os destinos de suas criaturas. Sensível e inteligente, como um bom filme de arte tem de ser, "Mais Estranho que a Ficção" traz duas grandes vantagens sobre seus pares: sabe tratar de temas complexos sem ser pedante e, mais importante, sabe como fazer o espectador rir.

Uma criadora engajada

Certa manhã, o funcionário público Harold Crick começa a ouvir uma voz feminina narrando todos os seus pensamentos, sentimentos e ações, com precisão surpreendente. A vida pacata de Harold é então transformada por essa narração que só ele pode ouvir: este é o enredo do filme "Mais Estranho que a Ficção", que tem estréia prometida para hoje no País. Ficção e realidade chocam-se quando o personagem Harold, interpretado pelo comediante Will Ferrell, escuta o que a narradora tem em mente e percebe que tem de mudar o final pretendido pela autora (que é o dele próprio). A voz na cabeça de Harold revela ser de Karen Eiffel, ótima atuação de Emma Thompson, uma artista obsessiva e autodestrutiva, que procura desesperadamente encontrar o final de um livro que escreve há dez anos. A inglesa Emma Thompson, contudo, nada tem de autodestrutiva. Estrelou no cinema em "The Winslow Boy", de 1988. Mas foi ao escrever o roteiro e protagonizar "Razão e Sensibilidade" (1995), adaptação do romance de Jane Austen para as telas, que alcançou defintivamente o sucesso. O filme ganhou o Oscar de Melhor Roteiro Adaptado em 1996 e alçou a bela cidadã londrina de cabeleira e olhos claros ao hall das estrelas hollywoodianas de primeira grandeza. De lá para cá, Emma participou desde blockbusters americanos como "Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban" até a polêmica série de TV "Angels in America" que expõe todo o preconceito que envolve os portadores do vírus da AIDS nos Estados Unidos. Aos 47 anos, a atriz tem entre suas "pendências" a conclusão de um roteiro em parceria com Nick Hornby, autor de "Alta Fidelidade". Mas não parece se importar se o trabalho não está dentro do prazo. Enquanto continua sua jornada pelo cinema, Emma também peregrina pelo mundo político se engajando em questões sociais como revela a este jornal na entrevista a seguir, concedida no lançamento de "Mais Estranho que a Ficção", em Londres: Gazeta Mercantil - Além de atriz, você é também roteirista. Isto a torna mais crítica ao ler roteiros, como este do novato Zach Helm em "Mais Estranho que a Ficção"? Emma Thompson - Eu li a primeira página do roteiro e fiquei em pânico - "Eu deveria dar para outra pessoa fazê-lo". Mas continuei lendo e o achei muito bom. Certamente ser uma roteirista me torna mais crítica. Há tantos roteiros que apenas seguem fórmulas e apresentam narrativas esvaziadas. Penso quantos problemas há nos diálogos, quanto problema há nas partes descritivas. Quando escrevo roteiros, eu pronuncio cada palavra que escrevo. É ótimo criar algo verdadeiro: existe o processo de insight, mas, pelo fato de eu ser atriz, imagino exatamente como aquele diálogo poderia ser dito - e procuro não escrever coisas impronunciáveis... Gazeta Mercantil - Como é escrever uma comédia com o experiente roteirista Nick Hornby, que criou entre outros filmes "Alta Fidelidade"? E.T. - A comédia se chama "Fast Forward" e estamos escrevendo há bastante tempo. Paramos e começamos novamente, mas ainda não finalizamos... falta planejamento... mas isto é o que me faz sentir viva, entende? Achar aquela pequena sentença, quando o diálogo funciona. Gazeta Mercantil - O que te agradou em sua personagem em "Mais Estranho que a Ficção"? E.T. - Há tantas coisas neste filme que eu gosto de pensar. Karen Eiffel chega a um limite de sua tendência depressiva e suicida - e esta tendência é incorporada e expressa em seu trabalho. Mas este mecanismo se transforma, e ela opta pela vida. A única maneira de efetivar esta mudança é estar frente a frente com ela mesma. Ela vê o personagem Harold Crick (interpretado por Will Ferrell) e, por meio dele, consegue ver a si própria. Gazeta Mercantil - Você é muito ativa politicamente, faz uma série de campanhas. Por quê? E.T. - Trabalho para duas diferentes organizações que são politicamente engajadas: a "ActionAid" é uma organização não Governamental fantástica, formada por pessoas com uma clara noção de direitos humanos. Eu não confiava neste tipo de ação da sociedade civil, mas ou assumimos a responsabilidade de transformação social ou dizemos: "Me importo apenas comigo". Eu também trabalho com a britânica Helen Bamber, que criou uma fundação na área de saúde há 25 anos, a única fundação na Europa que trabalha com vítimas da tortura. Mas claro, estas questões tem a ver com nossa capacidade de aceitar e integrar os excluídos. Gazeta Mercantil - Mas isto não é papel das instituições políticas? E.T. - Os políticos não são treinados e não têm tempo para entender como estas pessoas necessitam de ajuda e tratamento e, ao mesmo tempo, parece que os direitos humanos estão lentamente submergindo... Não sei como é a legislação em seu país, mas não vivemos um bom momento na Europa. Sinto que, politicamente, este é um período muito, muito importante para nos envolvermos. Gazeta Mercantil - Qual sua ligação com o Partido Trabalhista inglês? E.T. - Nunca trabalhei para ele, mas sempre fui filiada ao partido. Para ser bem honesta, fui contra a guerra no Iraque, mas não sei como lidar com isto em relação à minha filiação partidária. (Alessandra Meleiro - Pesquisadora do Media and Film Studies Department da University of London e autora do livro "O Novo Cinema Iraniano" (Escrituras/Fapesp).