Notícia

Eletricidade Moderna

Tintas influenciam no consumo de energia elétrica

Publicado em 01 janeiro 2008

Recente pesquisa desenvolvida no departamento de engenharia civil da Ufscar - Universidade Federal de São Carlos, SP, mostrou que as tintas utilizadas nas edificações exercem forte influência no volume de energia elétrica consumida. Denominado influência das tintas imobiliárias sobre o desempenho térmico e energético das edificações. o estudo, elaborado por Kelen Domelles. doutoranda da Unicamp - Universidade Estadual de Campinas, sob orientação do professor da Ufscar Mauricio Roriz, teve como principal objetivo chamar a atenção de arquitetos, engenheiros e consumi dores finais para a importância da escolha das tintas, tendo em vista a questão da eficiência energética e do conforto térmico de edificações. "Pro curamos apontar as diferenças de absorção do calor de diversos tipos de tintas. Com isso, é possível determinar os materiais mais indicados para cada situação. tanto em lugares frios, que necessitam de tintas que absorvam mais calor solar, como em regiões tropicais. onde acontece o contrário". comenta Roriz.

De acordo com o professor da Ufscar, o principal motivo da realização da pesquisa foi a busca de conhecimento confiável e objetivo sobre urna propriedade física de extrema importância para o comportamento térmico de edificações, além do desenvolvimento de métodos alternativos para a identificação da absortância de superfícies opacas Tanto no Brasil como em outros países, pesquisadores já estudaram o assunto, mas, devido à sua complexidade, ainda restaram muitas perguntas sem resposta."

Roriz explica que absortância é a capacidade de absorção de radiação solar apresentada por corpos opacos. No caso de edificações de países tropicais, altas absortâncias elevam a temperatura interna dos ambientes, o que estimula o uso de sistemas de refrigeração, aumentando assim o consumo de energia elétrica. Já em países mais frios, baixas absortâncias fazem crescer a demanda energética devido à utilização de equipamentos de calefação. "A absortância depende das propriedades químicas da camada superficial de cada corpo. Portanto, em superfícies pintadas, substâncias utilizadas na fabricação da tinta é que definirão sua capacidade de absorção de calor."

Segundo Roriz, grande parte da literatura especializada apresenta tabelas relacionando absortância e cor, fazendo supor que cores claras correspondem a baixos níveis de absorção. "Entretanto, mais da metade da radiação é emitida em infravermelho, invisível ao olho humano. Assim, pode haver uma superfície clara que absorva mais calor que outra mais escura."

A primeira etapa da pesquisa realizada na Ufscar consistiu na análise de ampla bibliografia internacional sobre os diversos fenômenos físicos que interferem na propriedade estudada. Em seguida, na fase experimental do estudo, as absortâncias de dezenas de tintas foram identificadas em espectro- fotômetro, para cada comprimento de onda do espectro solar. "No estudo, analisei 78 diferentes cores e tipos de tintas aplicadas em fachadas de edifícios no Brasil (acrílica fosca e semi-brilho e PVA fosca). Observamos que, em geral, as tintas claras absorvem menos calor que as escuras. Os resulta dos também mostraram que o tipo de acabamento da tinta utilizada interfere na quantidade de calor absorvida pelas superfícies pintadas", afirma Kelen Dornelles.

Os resultados obtidos levaram à constatação de que é possível identificar as absortâncias de qualquer material opaco, com precisão satisfatória e por meio de procedimentos relativa mente simples. Além disso, pôde-se observar que a absortância pode ser mais importante para o conforto e pa ra a economia de energia do que as resistências térmicas dos sistemas construtivos, principalmente em regiões tropicais, onde são pouco acentua das as diferenças entre as temperaturas externa e interna.

Segundo Roriz, o potencial de economia energética de um edifício depende do efeito conjugado entre diversos fatores, entre os quais a tinta utilizada. Entretanto, estudos realizados pelo mesmo grupo de pesquisas, com foco na eficiência energética de prédios de escritórios, revelaram que o consumo de energia no último pavimento de um prédio pode ser até seis vezes menor apenas reduzindo a taxa absortância do telhado de 80% pa ra 20%.

Para a maior parte do território brasileiro, adotar tintas que absorvam menos calor significa uma economia muito importante no uso de ar-condicionado e. conseqüentemente. no consumo de energia. "Segundo dados oficiais (BEN — Balanço Energético Anual 2007), os edifícios são responsáveis por cerca de 44% de toda a energia consumida no Brasil. Grande parte desse consumo é destinada à iluminação e refrigeração. Assim, se reduzirmos a necessidade dessa energia com a utilização de tintas adequadas, estaremos contribuindo fortemente para o consumo energético racional", explica o professor da Ufscar.

De acordo com Roriz. a divulgação dos resultados das pesquisas não é importante apenas para a comunidade científica, mas também para as empresas e a população em geral. "Deveriam existir meios que obrigassem a divulgação dessas informações para os consumidores. Se as absortâncias fossem informadas nos rótulos das tintas, por exemplo, mesmo os consumidores finais poderiam escolher o produto mais adequado."

Para Kelen Dornelles. a divulgação dos resultados da pesquisa é importante para que haja uma mudança no comportamento e na visão das pessoas em relação às questões energéticas. A maioria da população não tem idéia de que um projeto adequado do edifício pode resolver a maior parte dos problemas de desconforto por frio ou calor dentro de seus ambientes."

Desenvolvido ao longo dos últimos três anos, com financiamento da Fapesp - Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, o estudo foi apresentado no 10° Congresso Internacional de Tintas, que aconteceu recentemente, em São Paulo, bem como em centros de pesquisa nacionais e internacionais e diversos congressos realizados em Portugal, Suíça. França. Espanha e Cingapura.