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UNICAMP - Universidade Estadual de Campinas

Testes para determinar grupos sanguíneos podem apresentar discrepâncias

Publicado em 17 setembro 2019

Por Manel Alves Filho | Jornal da Unicamp

Os testes sorológicos e moleculares usados para determinar grupos sanguíneos podem apresentar discrepâncias em seus resultados, situação que reduz a segurança das transfusões de hemocomponentes. A constatação faz parte da dissertação de mestrado da biomédica Sheila de Fátima Perecin Menegati, defendida recentemente na Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp, sob a orientação da professora Lilian Maria de Castilho. De acordo com o estudo, para aumentar a segurança transfusional, as metodologias devem ser consideradas complementares, dado que uma supre a eventual deficiência da outra, dependendo do caso analisado.

A autora da dissertação explica que embora os testes sorológicos e moleculares sejam eficientes, não é recomendável confiar 100% neles, dado que ambos têm limitações e podem proporcionar resultados discrepantes. Em sua pesquisa, Sheila avaliou 734 amostras de sangue coletadas no período de dois anos. As análises foram realizadas no Laboratório de Biologia Molecular de Grupos Sanguíneos do Hemocentro. Destes, 325 apresentaram discrepâncias. “Ficamos surpresas com essa quantidade”, revela a professora Lilian. Tais divergências, continua a docente, ocorrem por diferentes razões.

No caso do teste sorológico, que foi considerado “padrão ouro” ao longo de todo o Século 20, um dos fatores está relacionado aos pacientes que recebem transfusões frequentes, como os portadores de anemia falciforme, doença hereditária caracterizada pela alteração dos glóbulos vermelhos. “Esse paciente, após transfusões recentes, também tem a presença do sangue do doador na sua circulação. Quando vamos fazer a fenotipagem, pode acontecer de o teste ser realizado com uma fração do sangue do doador e não do receptor. Nessa situação, tudo leva a crer que a transfusão é compatível, de acordo com o fenótipo apurado, mas pode não ser”, esclarece Sheila.

Esse tipo de problema começou a ser percebido pelos especialistas quando eles identificaram que alguns pacientes desenvolviam anticorpos em relação ao sangue transfundido, que a princípio era tido como compatível. Nesses casos, passou-se a adotar o teste molecular para determinar o grupo sanguíneo. Como a técnica faz a análise a partir do material genético do paciente (DNA), não há o risco de ocorrer a interferência do sangue do doador. “Assim, o teste sorológico continuou a ser considerado padrão ouro, mas para situações específicas existe a recomendação do uso do teste molecular. O importante a ser salientado é que esses procedimentos não são excludentes. Ao contrário, devem ser considerados complementares”, pontua a professora Lilian.

A relevância dessa complementariedade é reforçada pelo fato de o teste molecular também não ser 100% preciso. Nesse tipo de procedimento, somente uma parte do gene é analisada. Ou seja, se o gene tiver alguma alteração que impeça que o antígeno seja expresso, esse aspecto não será identificado pela metodologia, o que gerará um resultado falso positivo. “Isso também causa preocupação, pois pode ocorrer incompatibilidade sanguínea, afetando consequentemente a segurança transfusional”, alerta a autora da dissertação.

A partir dos resultados obtidos, o estudo desenvolvido por Sheila recomenda, portanto, a utilização dos dois testes [sorológico quanto o molecular], de maneira a ampliar a segurança das transfusões. “O que a pesquisa demonstrou foi que os procedimentos adotados até aqui podem ser aperfeiçoados. Há situações em que o teste sorológico é mais indicado e há aquelas nas quais o teste molecular é mais preciso. O cuidado com a aplicação das técnicas ajuda a evitar a formação de anticorpos, principalmente por parte de pacientes que recebem várias transfusões. Quando o indivíduo forma anticorpo contra um determinado antígeno ou fenótipo, isso dificulta a transfusão no momento da seleção do próximo componente de hemácia que ele receberá. Em outras palavras, fica cada vez mais difícil desse paciente receber um sangue compatível”, pormenoriza a professora Lilian.

A correta classificação do tipo sanguíneo, segundo a docente, favorece não somente a compatibilidade, mas também pode facilitar a disponibilidade de sangue. Ela cita um exemplo real dessa situação. “Nós tivemos um paciente talassêmico que começou a receber transfusão ainda criança. Ocorre que ele foi fenotipado logo após uma transfusão recente. O resultado foi um fenótipo difícil de se encontrar. Por isso, muitas vezes, ele tinha que esperar por uma bolsa compatível. Em dado momento, este indivíduo desenvolveu um anticorpo que não era compatível com o fenótipo identificado. Então, nós realizamos um teste molecular e determinamos o genópito correto, que era mais comum. Como consequência, ele passou a ter maior disponibilidade de sangue. A proporção passou de 1 para 50 a 1 para 5. Ele até brincou dizendo que depois que mudou de tipo sanguíneo, sua vida ficou mais fácil”, conta a professora Lilian.

Nessas circunstâncias, os pacientes não são os únicos a obter vantagens. Com o melhor aproveitamento transfusional, eles ganham em qualidade de vida e evitam eventuais reações produzidas pela incompatibilidade sanguínea. Por consequência, vão menos aos hospitais, aliviando assim a demanda por atendimento e por hemocomponentes. Futuramente, adianta a professora Lilian, a medicina poderá lançar mão de testes de sequenciamento de nova geração, que permitirão a substituição do método sorológico pelo molecular. “Por enquanto, porém, temos que continuar fazendo o melhor uso das técnicas atualmente disponíveis”, reafirma.

Parte dos resultados da dissertação de mestrado de Sheila foi descrita em artigo publicado por uma importante revista científica. Na avaliação da professora Lilian, o grupo de pesquisa da Unicamp que trabalha com essa temática está no mesmo patamar que os similares do exterior. “Nós somos pioneiros no Brasil nessa área molecular. Lá fora, os pesquisadores não estavam conseguindo mostrar os impactos clínicos dessa questão, uma vez que eles têm dificuldades para trabalhar com pacientes. Aqui, não temos essa limitação. Nós conseguimos nos integrar com os médicos do ambulatório para avaliar como está o aproveitamento transfusional dos indivíduos”, observa a docente, cuja linha de pesquisa conta com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

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