Notícia

Jornal da Tarde

Teste nacional agiliza diagnóstico de anemia

Publicado em 11 abril 2009

Por Alexandre Gonçalves

Pesquisadores brasileiros desenvolveram um aparelho portátil para diagnosticar anemia: o hemoglobinômetro. O projeto, resultado de Parceria Público-Privada, poderá ajudar no combate à doença nutricional mais comum do mundo: a anemia causada por falta de ferro - a ferropriva. Pelas estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), a deficiência atinge 25% da população mundial e, nos países em desenvolvimento, 50% das crianças com idade inferior a 4 anos.

A equipe recebeu financiamento de R$ 178 mil para testar a viabilidade de usar o equipamento no Sistema Único de Saúde (SUS). Com o dinheiro, são realizados exames em Santa Luzia do Itanhi, no Sergipe, e em comunidades ribeirinhas do Rio Amazonas. “Testamos o equipamento em diversos cenários”, afirma Jair Chagas, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), um dos responsáveis pela invenção do dispositivo.

Basta uma picada no dedo para realizar o exame. Nos testes, os pesquisadores contaram com a ajuda do médico Mário Maia Bracco, do Centro Assistencial Cruz de Malta, que atende a população carente na zona sul da capital. Foram avaliadas mais de cem crianças do Jabaquara, de 4 a 6 anos. O resultado foi comparado com outros métodos de diagnóstico. Os agentes de saúde descobriram alta prevalência de anemia - pouco mais de 20%.

Outros testes foram feitos em Ilhabela, no Litoral Norte. Com o apoio da prefeitura local e da pediatra Juliana Teixeira Costa, foram avaliadas 670 crianças. Cerca de 18% apresentavam anemia. As famílias receberam orientações para melhorar a dieta dos filhos. Depois de 45 e 90 dias, o exame foi realizado novamente. A prevalência caiu para 5%.

O equipamento depende de registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Segundo a agência, o processo “aguarda análise” e não é possível fazer previsões de quando o registro será concedido. No mês passado, Chagas descobriu que já pode pedir a patente internacional, pois foi reconhecida a originalidade do método de medição.

Existe um aparelho similar chamado Hemocue, produzido por uma empresa sueca. Cada ampola com reagente para realização de um exame custa, em média, R$ 5,30. “Mesmo em pequena escala, conseguiríamos fazer no Brasil por R$ 1,50”, diz Chagas.

O equipamento brasileiro, que custaria R$ 2 mil (o importado sai por volta de R$ 3 mil), foi quase um “acidente”. Chagas e outros inventores, Paulo Alberto Paes Gomes e Maurício Marques de Oliveira, pretendiam construir um equipamento para determinar a concentração no sangue da enzima conversora de angiotensina, importante para o controle da hipertensão. A ideia foi ampliada para outros parâmetros: sódio, potássio, glicose e colesterol. Por fim, concentraram-se no protótipo para medição de hemoglobina.

Já há um protótipo pronto para medir glicohemoglobina, importante para o controle de diabetes.

Chagas diz que, com o aparelho, seria possível realizar grandes campanhas contra anemia. “Uma mãe não precisaria ir três ou quatro vezes ao posto de saúde para conseguir o resultado do exame, que sairia na hora, com a especificação do tratamento.”

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) contribuiu com R$ 520 mil, principalmente por meio do Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas, que apoia projetos desenvolvidos por cientistas ligados a microempresas.