Notícia

Esteta

Teste molecular poderá evitar cirurgia desnecessária em pacientes com câncer retal

Publicado em 12 dezembro 2012

Por Karina Toledo, da Agência FAPESP

O tratamento padrão para câncer de reto atualmente envolve a chamada terapia neoadjuvante - que consiste em aplicar quimioterapia e radioterapia para reduzir o tamanho do tumor -, seguida por uma cirurgia invasiva que, na maioria dos casos, tem grande impacto na qualidade de vida do doente.

Uma parcela significativa dos pacientes reponde tão bem à terapia neoadjuvante que poderia até mesmo ser dispensada da cirurgia. Cientistas do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer, do Centro de Oncologia Molecular do Hospital Sírio-Libanês e do Instituto Angelita & Joaquim Gama trabalham no desenvolvimento de um teste molecular com o objetivo de auxiliar os médicos a identificar esses casos.

Os resultados preliminares da pesquisa, que conta com apoio da FAPESP, foram apresentados por Anamaria Aranha Camargo, diretora do Instituto Ludwig, no dia 11 de dezembro, durante o evento "Fronteras de la Ciencia - Brasil y España en los 50 años de la FAPESP.

O simpósio integra as comemorações dos 50 anos da FAPESP e reúne, nas cidades de Salamanca (10 a 12/12) e Madri (13 e 14/12), pesquisadores do Estado de São Paulo e de diferentes instituições de ensino e pesquisa do país ibérico, em uma programação intensa, diversificada e aberta ao público.

Segundo Camargo, aproximadamente 3% dos pacientes não respondem à terapia neoadjuvante e são submetidos desnecessariamente aos efeitos adversos da quimioterapia e da radioterapia. No outro extremo, porém, há 30% que respondem tão bem que nem sequer precisariam ser operados.

"Esse número pode chegar a 60% dependendo do protocolo usado. Precisamos de ferramentas mais eficientes para diferenciar esses casos e fazer um tratamento mais personalizado", disse Camargo à Agência FAPESP.

Hoje, a avaliação dos resultados da terapia neoadjuvante é feita por meio de análises sorológicas, toque retal e exames de imagem, como ultrassom e tomografia. Mas nenhuma dessas técnicas é suficiente para dar ao médico a certeza de que o tumor desapareceu. Na dúvida, os cirurgiões preferem operar.

Dependendo da área afetada, a cirurgia pode prejudicar a função sexual e causar incontinência urinária e fecal. A boa notícia, porém, é que os avanços na área de genômica estão permitindo a identificação de marcadores e o desenvolvimento de testes personalizados que poderão livrar boa parte dos pacientes desse sofrimento.

Em parceria com os pesquisadores Angelita Habr-Gama e Rodrigo Oliva Perez, do Instituto Angelita & Joaquim Gama, o grupo de Camargo sequenciou o genoma do tumor de sete pacientes e identificou todos os rearranjos cromossômicos presentes em cada caso. Em seguida, foram desenvolvidos ensaios moleculares que permitem rastrear a presença dessas alterações cromossômicas em amostras de sangue.

"Se o exame molecular detectar a presença do DNA alterado, é sinal de que ainda há células tumorais produzindo e liberando esse material na corrente sanguínea. Já se o resultado for negativo, o paciente poderá repetir o teste de tempos em tempos para ter certeza de que não houve uma recidiva", explicou Camargo.

Validação em grupo diferente

O método já foi testado em dois dos sete pacientes que tiveram o genoma sequenciado. "Como controle positivo, escolhemos um caso em que o exame clínico havia confirmado que o tumor continuava presente e o teste molecular, de fato, conseguiu rastrear o DNA tumoral no sangue", contou Camargo.

Como controle negativo, os pesquisadores aplicaram o teste molecular em um paciente que já havia sido operado e a biópsia não havia revelado células tumorais. O resultado do exame molecular também foi negativo, reforçando a hipótese de que a cirurgia foi desnecessária.

"Começamos pelos extremos e agora vamos testar os pacientes em que haveria dúvida. Se conseguirmos reunir evidências de que o método tem, de fato, utilidade clínica, o próximo passo é testá-lo em uma amostra maior", disse Camargo.

A grande dificuldade, segundo a pesquisadora, é que nos casos de câncer retal não existe um padrão recorrente de rearranjos cromossômicos. "Alguns pacientes podem ter dez rearranjos e outros podem ter mais de cem. Com a tecnologia de sequenciamento disponível hoje a um custo relativamente baixo, é possível analisar cada um dos tumores e desenhar os ensaios moleculares de forma individualizada", disse.

Paralelamente, os cientistas analisam o perfil de expressão gênica em outra amostra de 30 pacientes para tentar identificar um conjunto de genes capaz de indicar antecipadamente a resposta ao tratamento neoadjuvante.

"Já achamos uma assinatura gênica capaz de dividir os pacientes em dois grupos - aqueles que respondem completamente ao tratamento e aqueles que têm resposta incompleta. Mas, para ter certeza, precisamos fazer a validação em um grupo diferente de voluntários", explicou Camargo.

Segundo a pesquisadora, a estimativa é que no início de 2013 o sequenciamento de um genoma humano completo poderá ser feito a um custo de US$ 1 mil.

"Ainda é uma metodologia cara e poderá levar um tempo até ser incorporada ao Sistema Único de Saúde. Mas é um avanço importante e, como toda tecnologia nova, leva um tempo para ser incorporada e socializada", disse.

De Salamanca

Fonte: Agência FAPESP