Notícia

Jornal da Unesp

Terra de gigantes

Publicado em 01 março 1999

Por Paulo Velloso
Difícil acreditar que ali, naquela mesma paisagem, hoje monotonamente recoberta por extensos canaviais, viveram tantos e tão estranhos animais. Faz tempo, muito tempo isso, coisa de 180, 200 milhões de anos. O solo, então, era quase que completamente nu e arenoso, constantemente sacudido por violentos terremotos, e a atmosfera, empestada por intensa atividade vulcânica. Era preciso ter a pele dura para viver ali. Recobertos por uma espessa couraça, dotados de dentes em forma de punhais que chegavam a 15 cm, medindo quando nada 25 metros de comprimento e pesando 30 toneladas, os dinossauros reinavam, soberanos, sobre a Terra. Na região denominada pelos paleontólogos de Grupo Bauru, que compreende o centro-oeste paulista, o noroeste do Paraná, o Triângulo Mineiro e o leste do Mato Grosso do Sul, eles eram um pouco menores, mas ainda assim descomunais. Podiam atingir 15 metros de comprimento e 15 toneladas. Essas, aliás, são as medidas aproximadas de uma das mais importantes descobertas paleontológicas no Brasil, nos últimos anos: restos fósseis de um saurópodo da família dos tiranossauros, com idade presumida de 70, 80 milhões de anos. A história desse feliz achado, na verdade, remonta a 1985, quando começaram a aparecer os primeiros cacos do bichão, na Fazenda Santa Irene, próxima a Monte Alto, a 80 km de Ribeirão Preto. Em novembro do ano passado, finalmente, chegou-se ao final das escavações, que reuniram mais de três toneladas de rochas. Lapidadas, essas rochas começaram a revelar um mundo perdido, um tesouro de incalculável valor. A peça mais importante desse conjunto foi descoberta, intacta, já no final dos trabalhos: o fêmur do titanossauro, com 1.60 m de comprimento, 60 cm de circunferência e 100 quilos. Além dele, foram encontrados 100 quilos de vértebras do pescoço e da cauda, várias costelas e fragmentos de dentes. "Esta região é riquíssima em fósseis", explica o biólogo Reinaldo Bertini, do Departamento de Geologia Sedimentar do Instituto de Geociências e Ciências Exatas do câmpus de Rio Claro. "Trata-se de uma cobertura sedimentar com 90 milhões de anos, e nas rochas sedimentares invariavelmente existem fósseis." FAUNA DIVERSIFICADA Bertini, que coordena os trabalhos na região, explica que o saurópodo encontrado é um titanossauro do gênero Eurossaurus. "O desenho desses animais é bastante típico: são quadrúpedes, tem membros colunares, pescoço e cauda longos e cabeça pequena", descreve. "Surgiram há uns 200 milhões de anos, na Era Mesozóica, e desapareceram junto com a dinossaurada toda, há 65 milhões de anos." De acordo com o biólogo, o titanossauro, que era herbívoro - devorava 200 quilos de alimentos, por dia —, viveu numa época e numa região onde a diversidade dos animais era muito grande. De fato, só na região de Monte Alto há registros de 30 sítios paleontológicos. "A fauna dos vertebrados do Grupo Bauru está entre a mais diversificada dessa época, em toda a América do Sul", comenta. "Identificamos seis grupos diferentes de peixes, quatro espécies diferentes de tartarugas, sapos, lagartos, cobras e mais de uma dúzia de formas diferentes de crocodilos." Um desses crocodilos inéditos, aliás, acabou sendo batizado de Montessucus altensis, numa alusão à cidade onde foi encontrado. Mas aquela era, sobretudo, uma terra de gigantes. Além desses pequenos animais, o titanossauro tinha, por companhia, os dinossauros carnívoros, ou deynonicossauros, predadores bípedes de até 2 metros de altura (quem não se lembra dos terríveis velociraptores do filme O Parque dos Dinossauros?), os dinossauros necrófagos, primos dos tiranossauros do Norte, e os dinossauros herbívoros. Por fim, havia os mamíferos primitivos, nossos ancestrais, que herdariam o planeta após a extinção dinossauriana. Essa história não estaria sendo contada, no entanto, não fossem os esforços de um oficial de justiça aposentado. Antônio Celso de Arruda Campos, de 64 anos. Foi Campos que, alertado pelo dono da Fazenda Santa Irene, apressou-se em chamar o biólogo Reinaldo Bertini, em Rio Claro, distante 200 quilômetros de Monte Alto. "Quando vi o tamanho daquele osso, percebi logo que era um fóssil e que tinha valor científico", lembra-se Campos. Corria o ano de 1985 e, desde então, as escavações não pararam mais. O material retirado foi tanto, e tão valioso, que em 1992 a Prefeitura local fundou o Museu Municipal de Paleontologia que, hoje, abriga mais de 1.300 peças - inclusive, claro, os restos mortais do titanossauro (veja quadro). Preparando-se para uma carreira planetária, o saurópodo já está com o passaporte carimbado e deverá peregrinar por alguns dos mais importantes centros paleontológicos do mundo. "Vamos apresentá-lo formalmente à comunidade internacional", informa Bertini. Estamos estudando o material para saber melhor o que ele significa em termos cronológicos e em termos paleoambientais. O que já sabemos, com segurança, é que esta é a primeira menção ao gênero Eurossaurus na Bacia do Paraná e que se trata de uma espécie nova. Provavelmente, trata-se também de um gênero novo".