Notícia

Gazeta Mercantil

Terapia à base de luz agride menos o paciente de câncer

Publicado em 04 julho 2002

Por Vanessa D'Angelo - de São Paulo
Coordenado pelo professor Mário José Politi, um grupo de pesquisadores do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQUSP) está empenhado no desenvolvimento da terapia fotodinâmica contra o câncer, técnica aprovada há quatro anos pela Food and Drug Administration (FDA) - agência reguladora dos setores de alimento e saúde nos Estados Unidos - e que em breve deverá ser reconhecida pelo Ministério da Saúde como procedimento clínico regular. Usando substâncias sensíveis à luz para destruir tumores, o tratamento é menos agressivo que a quimioterapia convencional. A base da terapia fotodinâmica são as substâncias fotoativas. As moléculas dessas substâncias, quando atingidas por raios luminosos de determinadas freqüências, armazenam energia que pode ser liberada na forma de calor ou até mesmo na forma de luz, caracterizando o efeito de fosforescência. "Um exemplo desse efeito pode ser observado diariamente quando ligamos os interruptores de nossas casas", ilustra o professor Politi. COMO FUNCIONA Durante o tratamento, o médico injeta no local do tumor uma quantidade de derivados de porfirina -parte ativa da hemoglobina -, que pode ser encontrada no mercado com o nome de Fotofrin ou Fotogen. A partir daí é realizada uma projeção controlada de raio laser. As moléculas que sofreram a ação da porfirina vão reagir com o oxigênio livre da corrente sanguínea e transformá-lo em oxigênio na forma mais ativa, o sigleto. Esse oxigênio mais ativo vai reagir com tudo o que estiver ao seu redor, ou seja, as células cancerígenas, impedindo que elas continuem a se reproduzir. "Esta metodologia tem sido empregada utilizando moléculas que absorvam a luz na região mais do vermelho, também denominado infra-vermelho próximo. O motivo desta escolha é que a capacidade de penetração de luz na pele é maior para esse tipo de irradiação", explica o professor. Segundo Mário José Politi, as células tumorais são mais ativas que as sadias, o que faz com que concentrem melhor o composto e levem um tempo maior para eliminá-lo. Dessa forma, quando for aplicado o raio luminoso, os efeitos ficam restritos á área atingida pelo tumor, minimizando os danos ao restante do organismo. ÁREA EM DESENVOLVIMENTO De acordo com o professor da USP, a terapia fotodinâmica não pode ser considerada um simples projeto de pesquisa, mas uma área médica em desenvolvimento. "No Canadá, por exemplo, existe uma indústria que já produz um agente de PDT (photodynaraic terapy ou terapia fotodinâmica) denominado Photofrin, utilizado em clínicas médicas. Este medicamento tem sido adotado principalmente para combater casos de câncer de pele. Esta pesquisa teve início entre as décadas de 80 e 90", comenta. O grupo de trabalho do departamento de bioquímica do IQUSP tem estudado tanto a geração de agentes potenciais da terapia fotodinâmica como em sistemas organizados como veículos, isto é, sistemas carregadores. "Nossos estudos ainda estão em nível acadêmico, mas em breve estaremos direcionando nossos esforços para aplicações. Há três meses houve um encontro do pessoal da área médica que já utiliza PDT em clínicas no Rio de Janeiro. Outro evento acontecerá em novembro, em Águas de São Pedro, no interior de São Paulo", conta Mário José Politi. De acordo com o professor da USP, o encontro tem como objetivo principal promover o encontro da área médica com pesquisadores da área, incentivando a participação de estudantes. Sob o nome "Processos fotoquímicos e fotofísicos no desenvolvi-, mento de novos materiais", o projeto do professor Politi é patrocinado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O projeto envolve quatro professores - dois do departamento de bioquímica, um da química de São Carlos, USP, e outro da Física da USP -, além de 15 alunos -de pós-graduação, doutores e de iniciação científica. O grupo coordenado por Politi desenvolve também outros projetos, entre os quais o ponto de contato é a utilização de energias luminosas. Além da busca por substâncias aplicáveis na terapia fotodinâmica, ele estuda o desenvolvimento de novos materiais, alternativas energéticas tendo a luz como fonte e meios de armazenamento dessa energia. RESULTADOS DO TRATAMENTO A terapia fotodinâmica já foi aplicada com sucesso em 250 pacientes no Hospital Amaral Carvalho, em Jaú, São Paulo, e no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo. São muitas as vantagens desse tipo de terapia em relação aos tratamentos convencionais como a quimioterapia e a radioterapia, especialmente no combate ao câncer de pele. Em alguns casos, as células cancerígenas podem ser eliminadas com somente uma aplicação, que geralmente dura de quatro minutos a duas horas. O paciente tratado com a terapia fotodinâmica não sofre efeitos colaterais como náuseas, vômitos e queimaduras de pele causados pelos outros tratamentos e a nova terapia pode ser repetida diversas vezes. Nos casos em que os tumores estão avançados o tratamento é mais complexo mas, mesmo assim, melhora muito a qualidade de vida do paciente. * Colaborou Edson Álvares da Costa, de Ribeirão Preto