Notícia

A Cidade e a História

Tentando espantar a tristeza e me encharcar de alegria em Cachoeira

Publicado em 29 dezembro 2018

O navegador e explorador Martim Afonso de Sousa chegou a Bahia carregado de incumbências, sendo uma delas a de desenvolver e incentivar a cultura da cana-de-açúcar e sua indústria, que por essas terras já haviam sido iniciadas desde os primeiros tempos do descobrimento do Brasil. Foi em razão disso que o rei Dom João III autorizara a concessão de sesmarias que fossem destinadas a tais empreendimentos, com a condição de que só receberiam as sesmarias aqueles que tivessem condições financeiras para tanto. Ainda em seus começos de exploração, o Recôncavo Baiano foi visto como detentor de terras férteis e em abundância propícias para a cultura; e, por isso, foram de pronto escolhidas.

Componente da expedição de Martim Afonso de Sousa, que aqui aportara em 13 de março de 1531, o fidalgo Paulo Dias Adorno resolveu permanecer nestas plagas, tendo se instalado como morador. Era reconhecidamente um homem de posses; tanto que, quando da chegada de Tomé de Sousa, em 1549, foi um dos que o esperaram e hospedaram pessoas de sua comitiva.

Nesta e na foto seguinte aspectos do cemitério de ruínas da Rua Sete de Setembro

Tendo se estabelecido na Bahia, Paulo Dias Adorno pouco tempo depois tratou de adquirir terras no afamado Recôncavo, fundando uma fazenda e um engenho. Ele buscou terrenos próximos à margem esquerda do Rio Paraguaçu para ter facilidade de escoar sua produção por meio de embarcações. Ficava a sua fazenda próxima aos riachos Pitanga e Caquende. Essa propriedade compreendia casa de residência, senzalas, currais, pasto e engenho. Nas proximidades da fazenda foi edificada uma capela cujo orago era Nossa Senhora da Ajuda. E dizem alguns cronistas que foi essa propriedade do endinheirado fidalgo luso que deu início ao povoamento da vila e depois cidade de Cachoeira.

Mais ruínas: a cidade de Cachoeira precisa cuidar urgentemente de seu patrimônio edificado

Consultando alguns manuais de História, eu tomei conhecimento de que não há um consenso sobre o ano de criação da freguesia encravada no vale do Rio Paraguaçu sob a denominação de Nossa Senhora do Rosário do Porto da Cachoeira; alguns creem ter sido em 1698, enquanto outros dizem que isso se deu anos antes, em 18 de fevereiro de 1674. O volume XX da Enciclopédia dos Municípios Brasileiros traz um trecho do “Termo de Criação da Vila da Cachoeira, por ordem de El-rei”, subscrita pelo escrivão Manoel Luiz da Costa e pelo doutor Estêvão Ferraz de Campos. Apesar de longo – e se trata apenas de um trecho -, creio ser importante reproduzi-lo aqui, dado que ele seja bastante esclarecedor e se coadune com os propósitos desta minha narrativa:

Aos vinte e nove dias do mês de janeiro de mil seiscentos e noventa e oito anos nesta vila de Nossa Senhora do Rosário do Porto da Cachoeira, novamente erigida, nas casas que são de Pascoal Nunes, onde ao presente está pousando o Doutor Estêvão Ferraz de Campos, do Desembargador de S. Majestade, seu Desembargador dos Agravos e Apelações crimes e cíveis na Relação deste Estado do Brasil, ai por Me foi mandado a mim Escrivão fazer este termo, em o qual se declarou que ele por serviço de S. M. que Deus Guarde, por bem e verdade da Portaria do Senhor Governador Capitão-geral deste dito Estado, inclusa no termo folhas duas havia vindo a este Porto da Cachoeira, onde nele, com bem placido comum consentimento de todos os moradores dele e mais circunvizinhos havia sentado e erigido Vila e para a magnifatura dela e sua melhor conservação lhe mandou fincar em meio de um terraplano que fica fronteiro ao porto de mar um pelourinho dos varseões de baixo, uma argola de pescoço no meio dele com três degraus de pau de arco com seus varaes de ferro, e duas algemas em ambas as pontas de pedra ou tijolo ao pé em cujo lugar estará sempre o todo terraplano que se acha devoluto ficará servindo de praça para o uso público dos moradores dela com a declaração que a Casa de Câmara audiência e Cadeia que há de ficar por baixo e novamente se há de edificar será fabricada no mesmo território e lugar da praça da parte de terra, onde fica um altosinho a respeito de ficar a cadeia livre de alguma inundação de águas que pode haver. (1)

É intrigante o “novamente erigida” que lemos nesse Termo, porque nos faz pensar tanto em reconstrução como em refundação.

Nesta e nas fotos seguintes, aspectos da Praça Teixeira de Freitas, um dos espaços mais emblemáticos do sítio histórico de Cachoeira, que, inclusive, é voltada para o Rio Paraguaçu, e que estava em obras no período em que eu visitei a cidade. Observem com atenção as imagens e vejam quantos prédios do entorno da praça estão abandonados e/ou malcuidados

Olhem o Rio Paraguaçu lá no fundo

Aroldo de Azevedo, em seu estudo Vilas e cidades do Brasil Colonial,nos diz que no período seiscentista, particularmente em sua segunda metade – que abrange os reinados de Dom Afonso VI e Dom Pedro II -, foram criadas trinta e sete vilas em todo o país. E registrou que a de “Nossa Senhora do Rosário de Cachoeira” foi estabelecida em 1693. (2)

O crescimento material e populacional de Cachoeira foi se intensificando à medida que se expandiam as atividades dos engenhos e outras culturas agrícolas, como o fumo, eram implantadas na região. E não podemos nos esquecer que, de algum modo, a vila se apresentava como lugar de repouso e de abastecimento para expedições que se embrenhavam pelos sertões, sobretudo a partir do século XVIII à procura de ouro e de Prata em Minas Gerais, e que isso também representava um fator de desenvolvimento socioeconômico. E isso era tão evidente para os que ali chegavam que, em carta endereçada, em 1781, a Domingos Vandeli, diretor do Jardim Botânico de Lisboa, José da Silva Lisboa, assim descreveu a próspera vila do Recôncavo Baiano:"A vila da Cachoeira não cede em grandeza e riqueza a algumas pequenas cidades de Portugal”. (3)

Talvez a mais remota representação visual da primitiva “Villa de Cachoeira” seja uma aquarela de fins do século XVIII, de autor desconhecido, que ilustra o manuscrito Memoria sobre as especias de tabaco que se cultivão no Brasil, com as observações sobre a sua cultura, commercio, artes, e com a descripção botanica das mesmas especias, estampas illuminadas e mappa da Villa de Cachoeira, elaborado pelo naturalista e homem público Joaquim do Amorim Castro em 1792 (Castro tornou-se juiz de fora de Cachoeira em 12 de abril de 1787). Quem primeiro examinou em detalhes e fez publicar a aquarela do manuscrito que integra a Coleção George Arents, da Biblioteca Pública de Nova Iorque, foi o brasilianista norte-americano Robert Smith, amigo do meu amigo Edson Nery da Fonseca, em artigo aparecido no número 1 da 2ª série de Belas Artes – Revista e Boletim da Academia Nacional de Artes, de Lisboa, de 1948.

Esta bela aquarela do século XVIII mostra a então Vila de Cachoeira já com um casario expressivo e o Rio Paraguaçu com grandes embarcações

Nas fotos seguintes aspectos do imponente Conjunto Carmelita

A aquarela em questão é de suma importância para a história e a memória urbana da cidade de Cachoeira, principalmente quando se considera que, como pontuou Robert Smith, “para um país de cuja feição colonial relativamente pouco restou”, (4) imagens como essa, auxiliam e muito o entendimento da configuração atual da cidade e nos permite situar e compreender, a partir de comparações iconográficas, a dinâmica de crescimento do sítio urbanizado. Embora o casario apareça de modo esquematizado, o que nos impede de examinar e saber que feições tinham verdadeiramente as edificações, a imagem nos revela Cachoeira – e a vizinha São Félix – por inteiro: construções civis e religiosas, o traçado das ruas e praças, o porto, o Rio Paraguaçu e barcos e canoas deslizando sobre suas águas. No dizer de Robert Smith “Por toda a aquarela, vê-se um grande número de casas do século XVIII, que existem até hoje, dando a Cachoeira seu extraordinário sabor colonial”, sendo ela, mais do que qualquer outra do Recôncavo Baiano, a que mais “se assemelha aos antigos núcleos urbanos de Vila Rica, Mariana e Sabará, em Minas Gerais”. (5)

Na carta décima terceira – “Na qual se dá huma breve noção dos portos e villas do Reconcavo da Bahia” – de suas Noticias soteropolitanas e brasilicas, escritas ainda no século XVIII, Luiz dos Santos Vilhena descreve Cachoeira dizendo que “De todas as villas do Reconcavo hé esta a mais povoada, assim pelo seu comercio, como pela fertilidade do seu terreno quando o seu clima hé muito saudavel e benigno”. E que “Deriva o nome de Cachoeira de huma grande pancada que dão as agoas do rio despenhadas de huma grande altura, pouca distancia assima d’aquela villa”. (6) E nos diz ainda dos bons edifícios que nela se encontram; do tabaco, do milho, do açúcar e outras mercadorias nela produzidos. E destaca a vila como importante ponto de passagem: “Sahem da villa da Cachoeira differentes estradas, o quem concorre muito para fazel-a famoza, pois que de todas as minas sertoens se vem dar aquelle porto; há muitos pastos em que se refazem as cavalgadas que pizão aquellas estradas e os viajantes vão ali deixar huma grande parte do seu dinheiro”. (7)

Chafariz Dom Pedro II

Vê-se nesta e nas imagens seguintes a quantidade absurda de fios presente em várias ruas do centro histórico de Cachoeira que, além de representar risco de incêndio para os prédios, enfeia o cenário e atrapalha a visualização de alguns detalhes das edificações

Tendo descrito Cachoeira como uma “vila grande, florescente e comerciante, repartida pelo rio Paraguassu em duas partes assaz desiguais” [por esse tempo São Félix, no outro lado do rio, fazia parte de Cachoeira], o Padre Manuel Aires de Casal anotou em sua Corografia brasílica, vinda pela primeira vez a lume em 1817, que a vila contava, em 1804, com 1088 casas, das quais 894 ficavam em Cachoeira propriamente dita, e as outras 194, em São Félix. (8)

Viajando pelo Brasil, a inglesa Maria Grahan fez anotações em seu diário sobre Cachoeira em 18 de novembro de 1821. Registrou Mrs. Grahan que Cachoeira “é uma boa cidade” onde havia somente um comerciante inglês residindo. “É populosa e ativa” – continuou ela – “pois é o lugar em que se reúne a produção de um distrito considerável, especialmente algodão e fumo, a fim de ser embarcado para a Bahia”. Disse ainda da divisão territorial “em duas partes desiguais” pelo Rio Paraguaçu, e que na cidade onde “As ruas são bem calçadas, e as casas feitas de pedra e telhas”, havia uma igreja dedicada a Nossa Senhora do Rosário, dois conventos, quatro capelas, um hospital, um chafariz e três pontes de pedra sobre os rios pequenos Pitanga e Caquende. (9) O que se deixa ver na narrativa de Maria Grahan é que ela não esteve em Cachoeira propriamente e, sim, obteve informações sobre a cidade.

A partir daqui fotos da antiga Estação Ferroviária de Cachoeira, que estava abandonada quando eu a visitei, da Ponte Dom Pedro II e do seu entorno

Um eco dos movimentos nativistas que visavam à Independência do Brasil do poder da Coroa Portuguesa chegou à Cachoeira. Foi nesse pedaço do Recôncavo Baiano que em 25 de junho de 1822, dois meses e meio antes de 7 de setembro, que “se fez ou praticou” – nos diz Afranio Peixoto – “o primeiro ato público da Independência do Brasil”. E como se deu isso? Acompanhemos o relato do Afranio:

Reuniu-se nos paços do Conselho a Câmara e as autoridades do distrito para aclamarem a Dom Pedro regente e defensor perpétuo e protetor do Brasil, ouvido o povo e a tropa para isso, o que foi feito. A pergunta, da janela do paço, foi feita para a rua, onde formava a tropa e o povo a enchia, pelo Procurador Manuel Teixeira de Freitas, de estandarte na mão. Com o assentimento do povo e tropa, assim foi feito, ficando de se representar ao Príncipe sobre a “retirada da tropa europeia por ser esta além de desnecessária, prejudicial ao sossego da província”. A aclamação foi como se fizera no Rio [de Janeiro]; esta solicitação é que é o ato de independência [...]

O Comandante de uma escuna lusitana, ancorado no porto, que assentira à proclamação, retratou-se, disparando, contra a cidade inerme, três tiros de artilharia, sobre o povo, que faria carnificina se, a maré baixa, as balas não se empregassem no cais. Continuando, ameaçadora de arrasar a cidade, a hostilidade da escuna, o povo irritado assaltou-a durando a luta das três horas da tarde até a noite, rendendo-se afinal comandante e tripulação, metidos a ferros. Portanto, selado com sangue, o primeiro ato de independência do Brasil, na Cachoeira. (10)

E foi em razão desse episódio de sua história que Cachoeira recebeu o epíteto de “a Heroica”, denominação essa conferida pela Lei nº 43, de 13 de março de 1837.

O crescimento econômico, ainda nas primeiras décadas do Oitocentos, conferiu à Cachoeira a permanência como centro urbano importante e estratégico dentro de uma vasta área do chamado Recôncavo Baiano – não podemos nos esquecer que, por esse tempo, faziam parte de Cachoeira várias localidades como Conceição da Feira e São Félix.

No registro que fez de sua passagem por aquele lugar, em 1859, o alemão Robert Avé-Lallemant deu bem uma ideia do destaque que o território cachoeirano tinha naquele tempo. Registrou o arguto Robert: “A cidade de Cachoeira sobre o [Rio] Paraguaçu é tão poderosa e importante para o comércio da Bahia que, embora pequena e apertada na margem do seu rio, tem que ser considerada como parte essencial de todo o comércio baiano, merecendo a visita de todo viajante”. (11)

E por falar em viajante, ninguém menos do que o próprio Imperador do Brasil, o ilustre e ilustrado Dom Pedro II esteve em Cachoeira no mesmo ano da visita de Robert Avé-Lallemant.

Foi no dia 5 de novembro de 1859 que Dom Pedro II desembarcou em Cachoeira, conforme vai dito nas páginas do seu diário. O Imperador nos conta que, antes do desembarque, estiveram a bordo o juiz municipal Cerqueira Pinto, servindo então como juiz de licença, o juiz municipal delegado, Trasíbulo da Rocha Passos, e o promotor Pascoal Pereira de Matos.

Houve vivas e estouro de foguetes para saudar a chegada de tão importante visitante. Dom Pedro II foi conduzido a um camarim elegantemente arranjado onde beijou o Santo Lenho e agradeceu as congratulações da Câmara Municipal que foram dirigidas pelo órgão de seu presidente Francisco Vieira Tosta. Na matriz foi celebrado o Te-deum.

A respeito da área urbanizada propriamente dita Sua Majestade também foi breve em seu registro: “A cidade é quase toda calçada pelo modo antigo do Rio de Janeiro e sua [rua] principal é a continuação do cais, para o qual o orçamento atual da província dá 5 contos”. (12)

A cidade de Cachoeira atravessará a segunda metade do século XIX mantendo influência sobre uma vasta área do Recôncavo Baiano, tamanho era o seu poderio econômico, algo evidenciado pelo casario corpulento que foi enchendo os logradouros e, por assim dizer, a presença maciça de gente endinheirada que lá fixou morada. E, antes que o Oitocentos findasse, uma obra de engenharia de grande porte deu o tom e o grau de importância que aquele centro urbano detinha. Trata-se da construção de uma ponte de ferro – a Ponte Dom Pedro II – de 364 metros de comprimento e nove metros de largura, erguida em 1885, ligando Cachoeira a São Félix. A estação ferroviária do município foi inaugurada em 2 de dezembro de 1876.

Igreja da Misericórdia da Santa Casa de Misericórdia

Embora ainda gozando de prestígio e poderio socioeconômico, Cachoeira não conseguiu deter as transformações políticas que vieram junto com o século XX. Em termos de grandeza territorial, por exemplo, Cachoeira foi sendo diminuída em virtude do desmembramento de outras localidades que até então lhe pertenciam, como Conceição da Feira, cuja vila foi criada em 1925.

De acordo com o levantamento realizado para a escrita do verbete sobre Cachoeira para a Enciclopédia dos Municípios Brasileiros na década de 1950, a cidade de então possuía 81 logradouros e 2930 prédios, beneficiados dos seguintes melhoramentos: pavimentação a paralelepípedos e pedras irregulares em 48 logradouros; arborização ou ajardinamento em 14 ruas, avenidas e praças; iluminação elétrica em 71 artérias e 1510 residências e edifícios; e a rede de esgoto estava presente em 63 vias públicas e em 1245 domicílios, um número bastante considerável tendo em vista o total de edificações.

Observem que o prédio de esquina, à esquerda, está abandonado

II

No começo da tarde do dia 6 de dezembro de 2017, eu desembarquei sozinho no centro da cidade de Cachoeira carregando uma tristeza enorme pelo então ainda recente falecimento de minha avó Maria da Conceição. Tristeza essa que me acompanharia durante vários dias daquela viagem que da Bahia ainda me levaria para terras de Sergipe e de Alagoas.

Seguindo recomendação de Maria da Conceição, proprietária do Restaurante LG, localizado no prédio do Mercado Público, eu busquei abrigo na Pousada do Guerreiro, na Rua 13 de Maio, tão logo acabei de almoçar. Acomodei minha bagagem no quarto 105 e não demorei a retornar à rua a fim de começar para valer a conhecer aquela cidade do Recôncavo Baiano, andando com olhos bem abertos próprios de quem tudo quer ver. E eu queria ver muito nos dois dias que programara passar ali.

Igreja de Nossa Senhora do Monte

Detalhe da torre da Igreja de Nossa Senhora do Monte

Igreja de São Cosme e Damião

Este coreto fica ao lado da Igreja de Nossa Senhora do Monte

De imediato eu fiquei impressionado com o porte de algumas construções do sítio histórico e com o próprio desenho do espaço urbano e a localização da cidade, à margem esquerda do Rio Paraguaçu; quadro esse que lhe confere um charme e uma beleza enormes, ainda que considerando que a Avenida Ubaldino de Assis, que beira o rio, bem arborizada, não abrigue tantos exemplares do admirável casario antigo. Por assim dizer – e é claro que não podemos deixar de considerar que aquele sítio já foi uma movimentadíssima zona portuária; isso talvez explique a existência de praças voltadas para a paisagem fluvial – em Cachoeira vemos o que se verificou, por exemplo, no Recife, onde construções foram levantadas em seus subúrbios, no século XIX, dando as costas para o Rio Capibaribe.

Um dos centros históricos tombados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o de Cachoeira, em que pese sua expressividade e importância, apresentava, quando eu lá estive, várias irregularidades. Enquanto a Praça Teixeira de Freitas se encontrava em obras de revitalização, a Rua Sete de Setembro era um verdadeiro “museu de ruínas”. E os vestígios e sinais de abandono do casario apareciam em vários pontos da cidade: de alguns dos prédios só restavam apenas as fachadas, repetindo ali o que se encontra em outras cidades protegidas pelo Iphan. A estação ferroviária, na cabeceira da Ponte Dom Pedro II, estava ela também largada às intempéries e ao descaso – já a ponte, passava por restauração. Outro ponto negativo a destacar é a superabundância de fios da rede elétrica tomando conta da paisagem, como a fiação que fica defronte ao Chafariz de Dom Pedro II, na Praça Dr. Milton.

Elementos de rituais de religiões de matriz africana: encontrei vários desses em diversos pontos da cidade

Uma delícia passear à tardinha e à noite na beira do rio

Mercado Público ao fundo

Alguns bancos da feira livre

O sítio histórico de Cachoeira é um espaço muito vivo que é ocupado pelos cachoeiranos de modo intenso, porque se trata do centro da cidade e é nele onde se concentra o comércio em geral, com lojas, supermercados, armarinhos, farmácias, padarias, hotéis e pousadas, e instituições culturais, como o Museu/Galeria Hansen Bahia, onde eu conheci o precioso Gilberto de Araújo Moreira, além, claro, de órgãos públicos como a Prefeitura Municipal e a Câmara de Vereadores.

Afastando-me da zona central de Cachoeira, vi outro aspecto dessa cidade, com o esgoto correndo a céu aberto e casas subindo o morro, ocupando terrenos íngremes na feitura característica de um desordenamento urbano que é praticado por quem luta por sua sobrevivência.

Encontrei vários monumentos da cidade de portas fechadas, como a incomum Igreja de Nossa Senhora D'Ajuda – ela possui um alpendre na entrada -, a Igreja de Nossa Senhora do Carmo e a sede da Irmandade da Boa Morte.

Percorri mais de uma vez a feira livre de Cachoeira. Fui num fim de tarde prestigiar um evento musical – a cidade em si mantém pelo menos uma sociedade musical, que é a Filarmônica Minerva Cachoeirana, que completou 140 anos neste 2018 - ao lado da Igreja de Nossa Senhora do Monte num outeiro que abriga também um singelo coreto. Aqui e ali encontrei os chamados “despachos”, trabalhos ritualísticos de religiões de matriz africana. E passeei também à noite pela orla vendo lá do outro lado do rio a iluminada São Félix.

Os dois dias que passei em Cachoeira foram tremendamente satisfatórios; e, embora não tenham me encharcado de alegria, me deram em boa medida uma coragem e um entusiasmo enormes para estar na vida acreditando que a finitude, a morte e a perda de pessoas que nos são muito caras, não podem tirar de nós a necessidade de continuarmos aqui construindo e/ou reconstruindo o mundo e o nosso destino.

- Notas

1- Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, vol. XX, p. 96.

2- Aroldo de Azevedo. Vilas e cidades do Brasil Colonial, p. 27.

3- Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, vol. XX, p. 96.

4- Robert C. Smith. “Algumas vistas da Bahia Colonial”. In Nestor Goulart Reis Filho (org.). Robert Smith e o Brasil. Vol. 2. Cartografia e iconografia, p. 155. O exame da aquarela vai da página 171 até 180.

5- Id. ibid. p. 176. A aquarela está reproduzida em duas partes nas páginas 178 e 179. Robert Smith nos diz que Cachoeira foi fundada por João Rodrigues Adorno em 1654 (p. 173). Outra coisa: a aquarela analisada pelo brasilianista norte-americano também foi publicada por Nestor Goulart Reis na página 55 da obra Imagens de vilas e cidades do Brasil Colonial.

6- Luiz dos Santos Vilhena. Recopilação de notícias soteropolitanas e brasilicas, carta décima terceira, páginas 506 e 506-507 respectivamente.

7- Id. ibid. p. 506-507.

8- Manuel Aires de Casal. Corografia brasílica, p. 239.

9- Maria Grahan. Diário de uma viagem ao Brasil, p. 190.

10- Afranio Peixoto. “Cachoeira”. In Breviário da Bahia, páginas 159 e 160.

11- Robert Avé-Lallemant. Viagens pelas províncias da Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe (1859), p. 58.

12- Dom Pedro II. Viagens pelo Brasil, p. 194. Nas anotações feitas em 6 de novembro, dia em que chegou à Feira de Santana, o imperador registrou o seguinte: “Houve mais entusiasmo na recepção da Feira que na da Cachoeira, talvez por já não me esperarem nesta quando cheguei” (p. 196).

- Fontes e referências

AVÉ-LALLEMANT, Robert. Viagens pelas províncias da Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe (1859). Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1980.

AZEVEDO, Aroldo de. Vilas e cidades do Brasil Colonial - Ensaio de Geografia Urbana Retrospectiva. Boletim nº 208 - Geografia nº 11. São Paulo: Universidade de São Paulo, 1956.

CASAL, Manuel Aires. Corografia brasílica ou Relação histórico-geográfica do Reino do Brasil [pelo] Pe. Manuel Aires de Casal. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1976.

Dom Pedro II. Viagens pelo Brasil. Bahia, Sergipe, Alagoas, 1859/1860. 2 ª ed. Rio de Janeiro: Bom Texto; Letras & Expressões, 2003.

Enciclopédia dos Municípios Brasileiros. Vol. XX. Rio de Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 1958.

GRAHAN, Maria. Diário de uma viagem ao Brasil. Trad. Américo Jacobina Lacombe. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1990.

PEIXOTO, Afranio. Breviário da Bahia. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1945.

REIS, Nestor Goulart. Imagens de vilas e cidades do Brasil Colonial. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: Imprensa Oficial do Estado: Fapesp, 2000.

SMITH, Robert C. Robert Smith e o Brasil. Vol. 2 - Cartografia e Iconografia. Nestor Goulart Reis Filho (org.). Brasília, DF: Iphan, 2012.

VILHENA, Luiz dos Santos. Cartas de Vilhena - Noticias soteropolitanas e brasilicas. 2º volume. Bahia: Imprensa Official do Estado, 1921.