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"Tentando com pouco dinheiro", astronomia brasileira luta para se atualizar (1 notícias)

Publicado em 09 de maio de 2023

Por Anna Gabriela Costa

Especialistas dizem que observatórios do país devem aprimorar formação profissional e produção de equipamentos para despontar

Os telescópios e observatórios da astronomia brasileira estão defasados. É o que dizem membros da comunidade científica do país, que se queixam da falta de investimentos em profissionais, tecnologias e infraestrutura. Para esses cientistas, o país vive à sombra do protagonismo europeu e norte-americano na astronomia.

As fontes dizem a Byte que é necessário superar obstáculos surgidos nos últimos anos, como cortes de verbas, falta de profissionais especializados e pouca diversidade de equipamentos.

Atualmente, o Brasil tem apenas quatro cursos universitários dedicados à astronomia e astrofísica na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), USP (Universidade de São Paulo), UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) e UFS (Universidade Federal de Sergipe).

Na principal infraestrutura, o setor conta no Brasil com um observatório e tem coparticipação na gestão de um observatório e um telescópio internacionais, ambos no Chile. Mas a fatia do orçamento anual do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) para cuidar do maquinário e pesquisas tem estado aquém do esperado. Nos últimos dois anos, os cortes chegaram a 20% do total.

O astrônomo na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Thiago Signorini Gonçalves traz como exemplo o modelo de planejamento dos EUA. O governo norte-americano faz um levantamento de dez em dez anos do que se espera para a ciência e os investimentos necessários.

“Não temos esse planejamento a longo prazo. Estamos sempre tentando se virar com pouco dinheiro, o que dificulta muito a possibilidade de se pensar em um projeto mais ambicioso. O que acaba fazendo com que os astrônomos brasileiros se limitem muito a projetos que são mais restritos e de menos impacto”, disse.

Para Gonçalves, há a necessidade de telescópios mais adequados às demandas da comunidade brasileira, e não que os brasileiros tenham se adequar ao que está sendo produzido em outros países.

A estrutura dos observatórios e telescópios brasileiros

O Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA) é a unidade de pesquisa do Ministério da Ciência responsável pela astronomia brasileira. Ele fornece a infraestrutura e os meios para a pesquisa competitiva em astronomia observacional ótica e infravermelha.

A sede do órgão fica em Itajubá (MG). Seu laboratório é frequentado por profissionais e estudantes de graduação e pós-graduação em física e astronomia do país inteiro.

Estes são os observatórios e telescópios operados pelo LNA atualmente:

Observatório do Pico dos Dias (OPD)

Fundado em 1908, é o principal observatório totalmente brasileiro e é apto para analisar faixas óticas e infravermelhas do espectro de luz;

Sob responsabilidade exclusiva do LNA, fica entre as cidades de Brazópolis e Piranguçu (MG), a 1.864 m de altitude;

Conta hoje com quatro telescópios em funcionamento. Um deles é o Perkin-Elmer, o maior do Brasil, com um espelho de 1,60 metro de diâmetro;

Os outros três telescópios são: Boller & Chivens e Zeiss, ambos com abertura de 0,6 m; e um telescópio russo PanEOS, com lente de 0,40 metros de diâmetro. Este último é fruto de parceria com a agência espacial russa Roscosmos, para monitoramento de detritos espaciais.

Observatório Gemini

O Brasil é coproprietário desta estrutura em parceria com a Argentina, Canadá, Chile, Coréia do Sul e Estados Unidos. Opera dois telescópios idênticos de grande porte (8 m de abertura), um em Mauna Kea, Havaí (Gemini Norte), outro em Cerro Pachón, Chile (Gemini Sui). Eles estão entre os maiores e mais modernos telescópios do mundo.

Telescópio SOAR (Southern Astronomical Research Telescope)

Reúne o Brasil como coproprietário, e outras três instituições dos EUA na construção e operação do telescópio de alto desempenho com abertura de 4,1 m no Cerro Pachón, Chile. O Brasil é parceiro majoritário do empreendimento com cerca de 34% do tempo disponível.

Estes observatórios apresentam os únicos meios de infraestrutura observacional ótica profissional com acesso garantido a todos os astrônomos brasileiros.

Além dos citados, o Brasil tem um acordo para uso do telescópio CFHT (Canadá-France-Hawaii Telescope), que fica no Havaí. Com lente de 3,6 m, é operado por um consórcio de países que deram o nome ao telescópio. No momento o acordo do Brasil com o telescópio está em fase de renovação.

O estado de São Paulo também participa, via fundos do Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), do projeto do Telescópio Gigante Magalhães (GMT). Ele está sendo construído no Observatório Las Campanas, no Chile, e está programado para lançamento em 2029.

Por fim, o Brasil também atua na gestão do Vera Rubin (LSST), um observatório dos EUA com parceiros internacionais. A partir deste ano, a estrutura irá operar um telescópio de 8 m em Cerro Pachón (Chile) que mapeará o céu do hemisfério Sul a cada três dias.

Problemas vão da geografia ao dinheiro

Para o diretor do Observatório do Valongo (UFRJ) e presidente da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB), Helio J. Rocha-Pinto, o Brasil já conta com uma desvantagem natural na astronomia: pouca qualidade para observação do céu. Pelo menos não com a precisão que os trabalhos mais impactantes da astronomia normalmente requerem.

"Há o problema de altitude. Não temos montanhas muito altas em regiões de clima muito seco. É isso o que a astronomia atualmente exige, para termos um observatório muito competitivo. O OPD [Observatório Pico dos Dias] fica na Serra da Mantiqueira. É alto, mas úmido", comenta Rocha-Pinto. “Por isso, não é viável sonhar em ter no Brasil um conjunto de telescópios iguais aos sediados no Chile”, explica.

Mas o astrônomo vai além e diz que mais poderia ser feito no país. “Podemos financiar linhas de pesquisa em instrumentação, que nos permita instalar e manter telescópios 100% brasileiros nesses sítios de céu excelente, nos cumes dos Andes”, complementa.

Em entrevista a Byte, Wagner Corradi, diretor do LNA e professor titular do departamento de Física da UFMG, destacou que o orçamento anual do LNA tem estado aquém das necessidades há certo tempo, incluindo aí o corte de verbas em 20% ao longo de 2020 e 2021.

“Para piorar, a alta do dólar impactou o pagamento das obrigações com os telescópios dos consórcios internacionais, para além dos efeitos devastadores impostos pela pandemia. Ao longo de cada ano tem sido necessário demonstrar a fragilidade de nossa situação para o MCTI”, afirmou o diretor do LNA.

Falta de pessoal e instrumentos

Para que a astronomia brasileira continue desempenhando um papel de destaque no cenário internacional, é preciso também mais acesso à chamada instrumentação diversificada, isto é, equipamentos que permitem um desempenho melhor nas pesquisas científicas.

São exemplos de equipamentos faltantes no Brasil o polarímetro, usado para determinar o ângulo de rotação ótica de luz polarizada; e espectômetro, instrumento óptico usado para medir as propriedades da luz.

O LNA também precisa contratar novos servidores públicos e colaboradores com formação especializada para atuar em sua rede de laboratórios e oficinas. O último concurso realizado no MCTI foi em 2012 e as aposentadorias não têm reposição automática.

"Isso permitirá ao LNA finalizar mais rapidamente os atuais projetos de instrumentação astronômica em desenvolvimento: o polarímetro SPARC4, que será disponibilizado para a comunidade no segundo semestre deste ano e os espectrógrafos Steles para o SOAR, o Echarpe para o OPD, e o Cubes e Mosaic, que são [frutos de] parcerias internacionais", disse Corradi.

O Steles é capaz de dividir a luz em termos de comprimento de onda, para saber a composição química do objeto e qual é a velocidade dele no espaço. O Echarpe é uma peça que vai ficar no telescópio principal do Observatório do Pico dos Dias.

O Cubes é um espectrógrafo 3D e o Mosaic é um 2D de altíssima resolução, que vão ser instalados no Extremely Large Telescope (ELT), que vai ser o maior telescópio do mundo. Inclusive era um dos motivos pelos quais o Brasil estava pleiteando a entrada no consórcio do Observatório Europeu do Sul (ESO, na sigla em inglês).

Equipamentos de apoio como esses às vezes são mais relevantes do que o próprio telescópio, segundo Helio Jaques, presidente da Sociedade Astronômica Brasileira.

“O telescópio amplia, mas o que vai ser feito com aquela informação depende do detetor. Essa câmera SPARC 4 é acoplada no foco do telescópio. Ela é capaz de medir a polarização da luz. Ela tem a ver com o fenômeno físico que aquele objeto está emitindo, se tem por exemplo grãos de poeira ao redor desse objeto”, diz.

Há esperanças?

Apesar das dificuldades, Corradi ressalta que a retomada do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) e editais das agências de fomento trouxeram um alento com a aprovação de projetos fundamentais para o LNA.

A construção da nova infraestrutura de laboratórios multiusuários do LNA no Parque Científico e Tecnológico de Itajubá (PCTI), cujas obras iniciarão nos próximos dias, duplicará a capacidade de atendimento a novos projetos de instrumentação científica.

O LNA planeja oferecer à comunidade científica brasileira um telescópio de 1,5 metros de diâmetro (o segundo maior em solo nacional) de última geração equipado com o Echarpe, que aumentará bastante a eficiência das observações.

“Infelizmente, o investimento atual apenas permite manter, com dificuldade, parte do parque de telescópios instalados no Brasil, mas impede a atualização adequada dos equipamentos, para mantê-los em estado de competitividade com outros telescópios de mesmo porte”, afirma o presidente da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB), Helio J. Rocha-Pinto.

Ele enumerou a reportagem algumas soluções necessárias que contribuiriam para a eficiência de pesquisas:

Linhas de financiamento regulares, que pudessem colocar parte da indústria brasileira na rota de desenvolver tecnologia de ponta;

Aquisição de câmeras fotográficas digitais: conhecidas como CCD, o equipamento registra intensidade de luz, mantendo o aspecto de uma fotografia digital;

Aplicação de ótica adaptativa: tecnologia que deforma o espelho de um telescópio em tempo real, para compensar por distorções de imagem que são geradas pela atmosfera da terra;

Aquisição de materiais leves, que são ligas metálicas muito resistentes e necessárias para boa parte dos enormes telescópios, pois facilita o manuseio do equipamento.

Ele reitera que seria fundamental que o Brasil retomasse as negociações para ingresso no European Southern Observatory (ESO), iniciadas em 2010 e interrompidas desde 2016.

“Como membro do ESO, nossos astrônomos teriam acesso imediato ao maior parque de telescópios e radiotelescópios do mundo; nossa indústria poderia competir nos editais do ESO para construção de equipamentos e desenvolvimento de tecnologia, o que compensaria todo o custo da associação, pois boa parte do valor pago seria reinjetado na economia via cadeias de produção de peças e projetos”, diz.

O ESO reinscindiu o contrato com o Brasil após o país atrasar o pagamento acordado de cerca de R$ 1 bilhão, que deveria ser quitado até 2021.

O que diz o MCTI

Sobre a falta de pessoal para operar os observatórios, o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) disse em nota a Byte:

"O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) esclarece que foi publicada a autorização para a realização de concurso público com 814 novas vagas para o MCTI e para as entidades vinculadas. A autorização foi publicada no Diário Oficial da União no dia 10 de abril. As vagas foram divididas em três carreiras: 296 para analista em ciência e tecnologia; 253 para pesquisador e 265 para tecnologista. O objetivo é promover a reestruturação do MCTI e das unidades de pesquisa".

Sobre o Telescópio Gigante Magalhães (GMT), o órgão diz que iniciará um debate com a comunidade astronômica brasileira sobre a fração de tempo brasileiro no GMT.

"Já a adesão do Brasil ao ESO (European Southern Observatory) aguarda a sanção do presidente da República", diz o texto.