Notícia

Ao Mestre com Carinho

Tensão pré-vestibular

Publicado em 13 abril 2009

Por Thiago Romero

Agência FAPESP

Um levantamento com 1.046 vestibulandos verificou que 56,3% apresentaram sintomas de ansiedade, considerando os níveis de intensidade leve, moderado e grave. As candidatas do sexo feminino se mostraram mais ansiosas do que os homens.

A ansiedade é um estado emocional caracterizado por um conjunto de reações psicológicas e fisiológicas relacionadas a situações de perigo. Segundo o estudo, os cinco sintomas mais freqüentes identificados com o problema foram nervosismo, medo de que aconteça o pior, incapacidade de relaxar, sensação de calor e indigestão.

Os participantes foram selecionados em quatro cursos pré-vestibulares na cidade de Porto Alegre (RS). O trabalho teve seus resultados publicados na Revista de Psiquiatria Clínica, do Departamento e Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da USP.

“Em seus diferentes níveis, a ansiedade pode ser saudável e motivar os candidatos a estudar mais, fazendo com que se preparem melhor para o vestibular. Mas a ansiedade também é uma doença que prejudica o rendimento, a concentração e a memorização”, disse um dos autores do trabalho, o médico psiquiatra Daniel Guzinski Rodrigues, pesquisador do Departamento de Psiquiatria da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra).

A avaliação dos candidatos foi realizada por meio de um questionário estruturado e pela aplicação da Escala Beck de Ansiedade (BAI), que mede a intensidade dos sintomas relacionados à ansiedade.

O questionário tinha 24 questões que abordavam o perfil sociodemográfico e a escolha profissional, enquanto a BAI é constituída de 21 afirmações descritivas de sintomas de ansiedade que foram avaliadas a partir de uma escala de quatro pontos, incluindo itens como incapacidade de relaxar, aceleração do coração, dificuldade de respirar, nervosismo, sensação de sufocação, tremores nas mãos e medo de perder o controle.

Os entrevistados pelo trabalho, realizado por Rodrigues e pela psicóloga Cátula Pelisoli, pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, tinham idade média de 18 anos, 88,1% apenas estudavam e 1,6% estudavam e trabalhavam.

Além da escolha decisiva por uma profissão ocorrer na adolescência, o que exige o conhecimento prematuro de variáveis como mercado de trabalho, área de atuação e salário, outro fator que contribui para a ansiedade, segundo os autores do estudo, é o fato de os processos seletivos se caracterizarem por uma acirrada competição que não depende apenas do próprio esforço do candidato, mas também do desempenho dos outros.

Foco acadêmico e clínico

O estudo mostra que, durante a fase de preparação para o vestibular, o adolescente enfrenta, além das incertezas relacionadas ao seu desempenho no dia da prova, a forte cobrança da família e de amigos, situação que também acaba contribuindo para o surgimento da ansiedade que, em muitos casos, ultrapassa os limites da normalidade e prejudica o desempenho do candidato.

“É fundamental que as instituições de ensino voltadas ao vestibular invistam em serviços de apoio psicológico ao aluno. Para o sucesso nos exames, a habilidade para lidar com o estresse e a ansiedade é um elemento tão importante quanto o próprio conhecimento acadêmico”, disse Rodrigues.

Entre os cursos pretendidos pelos participantes da pesquisa, medicina, direito, administração e odontologia se destacaram como os mais procurados. Os cursos cujos candidatos apresentaram maiores níveis de ansiedade foram publicidade e propaganda, farmácia, medicina veterinária, medicina e odontologia.

“Muitos indivíduos bem preparados cognitivamente vêm sendo reprovados, às vezes por anos sucessivos. Nesse caso, o problema pode não estar nos estudos e o próprio candidato sabe que tem capacidade de ser aprovado. Trata-se de uma questão psicológica específica do momento da prova, que normalmente é negligenciada pelos candidatos durante a fase de preparação”, apontou o pesquisador.

De acordo com o estudo, o sentimento de obrigação de prestar vestibular e o fato de considerá-lo decisivo na vida foram duas variáveis que tiveram efeito importante na ansiedade dos vestibulandos.

De todos os participantes da amostra, 947 (90,5%) responderam ainda que o vestibular alterou seus hábitos de vida, sendo as principais modificações na vida social com amigos, no relacionamento familiar, no sono, na atividade física e na alimentação.