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Publicado em 14 junho 2005

Por Cláudia Lessa
A pesquisadora Lisbeth Rebollo Gonçalves lança, hoje, o livro `Entre cenografias: o museu e a exposição de arte no século XX'
Museu é um espaço de mediação, de comunicação. Dentro desse contexto, a mestre e doutora em sociologia da arte pela Universidade de São Paulo (USP) Lisbeth Rebollo Gonçalves faz uso de metáfora para explicar conceitos de teatralização da exposição de arte. No caso, o texto é a obra de arte e o museu, o palco. A dramatização da mostra de arte funciona como suporte para a melhor compreensão da linguagem artística.
O tema é foco do livro Entre cenografias: o museu e a exposição de arte no século XX (Edusp/FAPESP), que a professora paulista lança hoje, às 18h, na Galeria Cañizares da Escola de Belas Artes da Ufba (Canela), seguido de palestra sobre o assunto com a autora. Na oportunidade, será lançado também Sérgio Milliet - 100 Anos e Os lugares da crítica de arte (vários autores), ambos da coleção Crítica de Arte, criada pela Associação Brasileira de Críticos de Arte, atualmente presidida por Lisbeth, que também organiza os volumes.
Filha de Francisco Rebolo Gonsales (1902-1980), conhecido artisticamente como Rebolo, um dos mais importantes paisagistas da pintura nacional e ex-jogador do Corinthians na década de 30, Lisbeth Rebollo discute nesse quinto livro de sua produção, voltada à crítica e à história da arte, a questão da recepção estética em espaços para arte moderna e contemporânea no contexto dos chamados "novos museus".
A publicação aborda os processos de construção e de comunicação das exposições de arte no século passado. Para analisar a visita ao museu como experiência social, Lisbeth se faz valer de seu vasto conhecimento na área. Dona de um rico currículo, a professora titular da Escola de Comunicação e Arte (ECA-SP) e orientadora dos cursos de pós-graduação em história da arte foi diretora do Museu de Arte Contemporânea da USP e curadora de inúmeras exposições. A seguir, leia trechos da entrevista com a autora.

Folha - A recepção estética em museus de arte moderna e contemporânea no contexto do que a senhora chama de "novos museus" seria o grande tema do seu novo livro?
Lisbeth Rebollo Gonçalves- Sim, este é o problema-chave da pesquisa. A discussão se move em torno das exposições de arte, da maneira como se faz a comunicação da exposição de arte no século XX. Observa-se a exposição como mediação entre a arte e o público. Os novos museus - esses que têm uma arquitetura de forte impacto estético, de uma ostentação espetacular - são analisados igualmente na ótica de sua mediação com o público. Mas também o papel do museu como espaço de formação e informação, de lazer, de fruição da arte (que se afirma do final dos anos 1970 para diante) é posto em foco. Nesta visão de museu, fica evidenciada a importância que o público assume. O museu não é visto apenas como espaço onde se preserva e conserva um determinado acervo. O público torna-se o centro de atenção dos museus.

F - O que seriam os "novos museus"? Que lugar é reservado ao público nesses espaços?
LRG - Os novos museus, por sua arquitetura monumental, espetacular, em certo sentido desmesurada, tornam-se ícones das cidades, referência de sua identidade. Pode-se comparar seu impacto e sua importância na vida urbana como a que tiveram, no passado, as catedrais medievais. Para o cidadão do lugar, como para o turista, tornam-se referência obrigatória, espaço de lazer, onde é possível conhecer arte. Os museus tornam-se referências centrais para a vida cultural.

F - Do ponto de vista da comunicação da arte, que papel cumprem os museus de arte moderna e os novos museus?
LRG - Os novos museus de arte moderna e contemporânea como o Guggenheim de Bilbao (Espanha), por exemplo, são em si mesmos um atrativo para o público. O modo como apresentam as exposições de arte, entretanto, segue, em geral, o padrão convencional das salas de paredes brancas. Este padrão foi definido ao longo dos anos de 1930, pelo primeiro museu de arte moderna que se criou - o MoMA de Nova York - e se difundiu pelo mundo todo. Em alguns casos, dependendo da política da instituição ou do trabalho da curadoria, aparecem exposições com cenário dramatizado. Quer dizer, a mostra é montada criando-se uma ambientação especial para a sua apresentação: uso de cores nas paredes, luz focada sobre as obras, com intensidades de diversa ordem, criação de espaços ambientais, como acontece no teatro.

F - A senhora fala de teatralização/dramatização da exposição de arte. Qual seria o sentido desse contexto na percepção da arte? Seria uma forma de valorizá-la?
LRG - Esta dramatização ou teatralização do espaço expositivo cria um impacto estético sobre o visitante. Envolve-o pela sensibilidade, pela emoção. É uma maneira de levar o visitante a se interessar pela obra de arte em exposição. É diferente da relação que se estabelece com a obra exibida num cenário de paredes brancas. Neste caso, subliminarmente, fica o visitante convidado a dialogar com a linguagem da obra em si mesma, sua aproximação se fará movida mais pela razão, num primeiro momento.

F - Qual a sua opinião sobre o uso de novos suportes (paredes, pedras, muros autorizados, toalhas de mesa, etc.) na expressão artística?
LRG - A arte contemporânea lida com a realidade cotidiana e tudo que está no cotidiano pode ser apropriado pelo artista, se ele assim o desejar. A arte contemporânea cria situações, propõe "resignificações", quando trata essa realidade. Há uma mudança na conceituação do que é arte, nesse momento.

F - De que forma os visitantes das exposições de arte em museus recebem esteticamente as informações e as elaboram dentro do atual contexto sociocultural?
LRG - O visitante das mostras sempre vivencia uma experiência estética. A informação que absorve será tanto mais elaborada, quanto mais
conhecimento ele tiver sobre arte, sobre um movimento, um grupo, um artista. Mas esse visitante também pode adquirir informações através da exposição, do que lhe é oferecido em textos, quer nas paredes, quer em catálogos, em roteiros de visita, em audioguias e assim por diante. Quanto menos informação cultural tiver sobre o objeto em foco, mais pautará sua percepção pela sua experiência de vida, pelo seu cotidiano.

F - A senhora é filha de um dos mestres da pintura nacional, Rebolo. Até que ponto ele exerceu influência sobre o seu trabalho.
LRG - Posso dizer que todo o meu interesse em estudar a arte nasceu do convívio com ele. Para a capa desse livro escolhi uma imagem de sua exposição como forma de homenageá-lo.

Ficha
Livro: Entre cenografias: o museu e a exposição de arte no século XX
Autora: Lisbeth Rebollo Gonçalves
Editora: Edusp/FAPESP
Lançamento Galeria Cañizares (Escola de Belas Artes/Canela), hoje, às 18h, seguido da palestra O museu e a exposição de arte no século XX
Preço: R$35 (166 páginas)