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EcoAgência

Tempestades sem controle

Publicado em 12 dezembro 2006

Por Fábio de Castro, Agência FAPESP

Sistemas de previsão e alerta de inundações são insuficientes e obsoletos. Para especialistas, investimento em desenvolvimento tecnológico pode ajudar, mas, sem planejamento urbano, grandes cidades continuarão a sofrer com as fortes chuvas

São Paulo, SP - Chuvas fortes nos grandes centros urbanos brasileiros são sinônimo de alagamentos, congestionamentos, deslizamentos, mortes e prejuízos materiais. Cenário que se repete todos os anos no verão. Para especialistas em hidrometeorologia, o estrago pode ser sensivelmente diminuído com o desenvolvimento de novas tecnologias que melhorem os sistemas de previsão e alerta de enchentes. Mas a solução definitiva só virá com uma reestruturação completa da organização urbana.
Segundo o professor Masato Kobiyama, do Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), os sistemas de previsão do clima e inundações atualmente em uso precisam de aperfeiçoamento e, acima de tudo, são insuficientes. "Cada cidade deve ter um sistema de monitoramento e alerta. Um modelo de âmbito nacional ou estadual não serve para muita coisa", disse à Agência Fapesp.
Kobiyama explica que a principal dificuldade dos sistemas atuais é medir as chuvas com intervalos menores. "Os sistemas normalmente dão o alerta quando há aumento da precipitação em uma série de medições. Quanto menor o intervalo das medições, maior a antecedência possível do alerta."
Segundo ele, vários grupos de pesquisadores em universidades brasileiras estão trabalhando na implantação de sistemas mais modernos de previsão do clima e de inundações.
"O ideal seria ter um radar meteorológico, fazer uma medição minuto a minuto, com transmissão dos dados em tempo real para aplicação nos modelos matemáticos. Os resultados deveriam estar ligados a um sistema de alerta. Com isso, seria possível prever chuvas com antecedência de três horas e acionar a defesa civil", disse Kobiyama.
O pesquisador aponta a necessidade de que sejam adotadas medidas com urgência, uma vez que as chuvas estão cada vez mais intensas. Novembro, por exemplo, teve a maior média de volume de chuvas dos últimos 30 anos, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia. "Não serve como consolo, mas o problema não é só do Brasil, o mundo inteiro está sofrendo", disse.

Sistema incipiente
Segundo o coordenador da Defesa Civil da região metropolitana de São Paulo, Alfredo Pisani, o Estado tem um sistema precário em termos quantitativos. São apenas três radares meteorológicos — na capital, em Bauru e em Presidente Prudente.
"Cada um é operado por uma instituição diferente e não há integração entre eles", disse Pisani, que foi, entre 1988 e 2005, coordenador do principal sistema paulista: o radar meteorológico do Departamento de Águas e Energia Elétrica, instalado junto ao reservatório de Ponte Nova, na capital paulista.
"Outro problema, além da falta de integração, é que o sistema consegue prever chuvas oriundas de frentes frias, cujo regime é mais estável, mas tem dificuldades em relação às chuvas de verão. Indicamos o potencial da chuva na cidade, mas, como ela é um polígono de cerca de 38 quilômetros de lado, não podemos saber com precisão em que bairros e avenidas ela vai cair", explicou Pisani.
O radar da região metropolitana está acoplado a três centrais de processamento de dados, faz o sensoriamento remoto de chuvas num raio de 240 quilômetros e realiza varreduras de 360 graus a cada cinco minutos. O equipamento fornece informações sobre onde está chovendo, a intensidade da precipitação e o sentido e deslocamento das massas de nuvens. A manutenção é de cerca de R$ 500 mil por ano.
A tecnologia dos modelos de previsão ainda tem muito espaço para evoluir, mas o principal radar de São Paulo está obsoleto mesmo em relação aos avanços atuais. "Ele foi fabricado em 1985, por uma empresa canadense. Está ultrapassado e não inclui novas tecnologias como o radar Doppler, que consegue auferir o vento, ou corredores de precisão, densidade e potência", disse Pisani.
Mas o coordenador da Defesa Civil ressalta que os sistemas de previsão e alerta são apenas a parte mais imediata da solução. "Um sistema desses pode ajudar a evacuar a população e a conviver com a enchente, reduzindo danos. Mas a solução definitiva só virá com obras estruturais, como ampliar calhas de rios, desocupar várzeas e criar leis que ajudem a reduzir a impermeabilização do solo urbano", afirmou.

Planejamento urbano: a raiz do problema
O professor João Luiz Boccia Brandão, do Departamento de Hidráulica e Saneamento da Universidade de São Paulo (USP), em São Carlos, concorda com Pisani. "O problema da inundação nas cidades é uma questão de ocupação inadequada do espaço urbano", disse.
Segundo Brandão, a situação, em São Paulo, por exemplo, começou com a urbanização da cidade. "Ocupamos as regiões de várzea, fizemos obras de drenagem nas marginais, com retificação dos canais dos rios. A cidade cresceu e se impermeabilizou. Agora, as águas dão o troco", explicou.
A freqüência e a intensidade das enchentes são crescentes e as soluções aplicadas apenas paliativas, na medida em que as cidades continuam crescendo e se urbanizando. "Vieram as obras de canalização, depois os piscinões. São soluções que dão algum resultado, mas têm implantação mais lenta do que exige o ritmo da metrópole. Além disso, há dificuldades orçamentárias e operacionais", disse.
A solução, para Brandão, seria a reconstrução de alguns espaços urbanos, com a recuperação da função amortecedora das várzeas. "Isso tem que ser feito com critério. Tietê, Pinheiros e Tamanduateí são casos perdidos, mas é possível solucionar o problema de bacias periféricas", defendeu.
A restauração do espaço urbano teria de incluir, segundo Brandão, o remanejamento da população em área de inundações e de riscos de deslizamento em zonas ribeirinhas e morros. "Seria preciso combinar soluções que vão da recuperação paisagística e ecológica de certas áreas até o aumento das taxas de infiltração, colocando-se, por exemplo, uma fileira de paralelepípedos entre o asfalto e o meio-fio", disse.
Além das soluções estruturais, o pesquisador afirma que seria necessário também investir em medidas como a educação ambiental relativa à questão do lixo. "É preciso ter bem claro que calhas e piscinões não vão adiantar isoladamente. Precisamos implantar um sistema de gestão dos territórios baseado no zoneamento", afirmou.
Os sistemas de previsão e alerta de enchentes são outra solução suplementar que não pode ser desligada da reforma urbana. O problema das soluções de alerta e previsão, como o que existe em São Paulo, é a antecedência. "Em uma cidade como esta, seria preciso ter pelo menos uma hora de antecedência para poder interromper o tráfego numa marginal", disse Brandão.
A principal dificuldade em São Paulo, segundo o professor da USP, é que a cidade é uma ilha de calor bastante próxima ao oceano. "São Paulo tem uma fonte de emissão de calor. Se houver vento soprando com umidade, a nuvem de tempestade se forma em poucos minutos. O sistema funciona, mas para ter a eficácia necessária, precisaria de uma modelagem matemática extremamente precisa. Por isso, insisto com a importância do planejamento urbano", disse.
Eco Agência Online — 12/12/2006