Notícia

A Tribuna (Santos, SP) online

"Tempestade não teve relação com o aquecimento global"

Publicado em 22 abril 2007

Por Suzana Fonseca

Sexta-feira, dia 13 de abril. As imagens do satélite mostram uma frente fria que avança cerca de quatro mil quilômetros mar adentro. Parte dela ainda está sobre o litoral paulista, na Baixada Santista. Por volta das 14 horas, pela animação, é possível ver a chuva que começa a castigar Santos, deixando as ruas alagadas e o trânsito caótico. Em sua sala, no Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG/USP), Augusto José Pereira Filho observa a mudança climática e explica: ''Esse foi um evento aleatório. Aconteceu em Santos, mas poderia ter sido em qualquer outro lugar''.

O que causou a tempestade do dia 13 em Santos?
Havia uma frente fria, com uma extensão de três, quatro mil quilômetros sobre o oceano. E ela passou beirando o litoral. Dado que você está próximo de um corpo d'água, que é o Oceano Atlântico, que tem umidade, e esse mecanismo que levanta e estabiliza a atmosfera, que está se deslocando lentamente, é produzida muita chuva. O resultado disso é que onde acontece se tem uma catástrofe. Um sistema gigantesco, que teve características muito peculiares na região de Santos. Às vezes, acontece em Ubatuba, em qualquer lugar; aconteceu em Santos dessa vez.

Segundo a Defesa Civil da Cidade, essa foi a maior chuva que caiu em Santos nos últimos 50 anos. Foram 58 milímetros em 40 minutos.
Isso aí é um evento aleatório. A precipitação não foi exagerada, não. Mas é muita chuva, que causa enchente. Eu estava em Praia Grande, no início de 2000, e choveu muito, alagando a Avenida Castelo Branco. Aí, eu vim olhar os dados do radar, e não tinha quase chuva, foi um sistema super raso; esse sistema aqui não é profundo, é um sistema raso (diz, apontando as imagens do satélite captadas no dia 13). As nuvens são menos altas que as vistas sobre o oceano. Fazem parte de um sistema muito maior e, por razões aleatórias, dessa vez foi Santos, Praia Grande e Guarujá que foram afetados.

Isso tem algo a ver com aquecimento global ou mudanças climáticas? O calor também influenciou?
Não tem nada a ver com mudanças climáticas ou aquecimento global. Isso tem a ver com um evento possível. E, claro, tem a ver com a temperatura do dia. Tinha uma massa de ar fria (chegando) e ar quente e úmido; devia estar abafado. Ar frio chegando e ar quente embaixo, ele se eleva e forma nuvens e com uma eficiência tão grande que começa a precipitação sem muita profundidade.

Tivemos essa tempestade em Santos; em março, um vendaval derrubou cinco casas e destelhou outras 80 em Peruíbe; depois, a região de Congonhas, na Capital, também foi afetada por uma tempestade. O que podemos esperar do tempo daqui para a frente?
Dado que a mídia, no Brasil, tem falado insistentemente sobre mudanças climáticas, então as pessoas tendem a pensar que tudo é mudança climática. O clima, para começar, não é instável. Nosso tempo de vida, de 70, 80 anos, não é nada comparado com o clima. Do início do século passado até agora mudou muito. Está mais quente agora. Nós saímos de uma pequena idade do gelo, que começou por volta da Idade Média e terminou em 1900, mais ou menos. Tive a oportunidade de conversar com algumas pessoas, nos anos 90, que tinham 100 anos, e elas diziam que no início do século era muito mais frio.

O que aconteceu, então?
Houve uma evolução da temperatura, da precipitação, nesse período. Continua acontecendo. Há uma variabilidade climática muito grande. Para se ter uma idéia, esses ciclos de aquecimento e resfriamento, basicamente, são produzidos pela órbita da Terra. A distância da Terra ao Sol varia ao longo do ano; no verão do Hemisfério Norte a Terra está mais afastada. Mas ao longo do tempo essa distância muda. E aí faz com que haja variação de energia da Terra e o próprio sistema acaba produzindo mudanças que marcham na direção de uma era glacial. Esses períodos, associados com essa variação orbital, a distância da Terra ao Sol e o eixo de inclinação da Terra - que é de mais ou menos 23 mil anos -, e outras variações, como a excentricidade da órbita, fazem com que o clima varie em escalas da ordem de milhares de anos, de dez a quatrocentos mil anos.

Podemos afirmar que a mídia está sendo pessimista e alarmista quando o assunto são mudanças climáticas?
Há um grupo de cientistas, desse Painel Internacional, que vem avaliando esses assuntos já há décadas. Eles têm se utilizado do que têm à disposição do passado, do presente e mais modelos - usam supercomputadores -, para fazer essas avaliações. Para se ter uma idéia, hoje, a previsão do tempo muito boa vai até mais ou menos uma semana. Mas, depois de duas semanas, aí não tem mais condições de fazer previsão do tempo porque o sistema é caótico. Isso foi descoberto na década de 60, por Lorenz. Quando se faz um modelo que marcha por décadas, até mil anos, quando se está olhando para 50, 100 anos, o que vai acontecer, se a previsão de duas semanas já não funcionou, então não se está falando de previsão, e sim de estatísticas que mostram alguma coisa. O que esses modelos mostram é que o continuado aumento de CO2 vai causar problemas lá na frente. E tem estimativas de aumento de temperatura. Só que são cenários.

Então, como encarar essas informações?
Olha, se a gente não consegue fazer previsão do tempo além de uma semana, vocâ já imaginou fazer previsão de 100 anos? Acho que isso é um ponto importante que, às vezes, a mídia acaba distorcendo. O que apresentaram foram cenários, que precisamos considerar. Não é que vão acontecer.

O que é possível fazer para evitar que esses cenários se concretizem?
A gente gostaria que os governos levassem isso em consideração e evitassem, reduzissem esse efeito antrópico, o que tem impacto na economia. Reduzir CO2 significa andar a pé. E todo mundo quer ter seu carro, sua casa bonita, sua varanda de madeira, móveis. E tudo isso vem do ambiente.

Que outros fatores que influenciam as mudanças climáticas?
A temperatura aumentou 2,1 graus Celsius em 70 anos, de 1936 até 2005. Será que foi mudança climática global? Não, foi mudança local. A cidade se expandiu, tem mais concreto, mais asfalto, menos verde e isso faz com que o ambiente fique mais quente. Isso é um impacto local, uma mudança que houve no microclima. Mesmo essa mudança muito significativa não causa vítimas assim de milhões de pessoas. Você tem vítimas por enchentes, deslizamentos, todo ano tem gente que acaba morrendo. Mas a maioria de nós acaba vivendo aqui, sofrendo de chegar atrasado em casa, perder o carro, os bens nas enchentes; mas, enfim, esses eventos, devidos à mudança local, têm impacto no nosso dia-a-dia, na qualidade de vida, mas o sistema é generoso, não destrói o homem.

Como está o País na área da Meteorologia?
O Brasil está entre os países de primeiro mundo. Estamos bem. O Brasil é um dos oito primeiros do mundo que desenvolvem pesquisas sobre mudanças climáticas, clima, que têm supercomputadores. Estamos muito bem na área, mas o Governo não investe. A agricultura no Brasil corresponde a 35% do PIB. Estima-se que se perdem 5% por causa de uma previsão que não é adequada.

É possível prever essas chuvas como a do dia 13?
A de sexta, certamente.

O que o que o Município deveria ter feito?
Eles tinham acesso (às imagens do satélite). E tinha previsão de passagem de uma frente fria. E você vê que não durou meia hora. Teve uma pancada por volta das duas da tarde, até as três, e depois uma começou por volta das sete da noite e foi até as nove e meia. Então, tinha como ter previsto, a informação estava lá, disponível. O governo tinha que ter usado essa informação.

Que recursos estão disponíveis para isso?
Temos o radar, o satélite, precisa ter um meteorologista. Vemos muitas prefeituras que têm defesa civil, só que não têm gente qualificada. Tem engenheiro, agrônomo, tem biólogo fazendo previsão do tempo; às vezes jornalistas, pela TV. Nada contra esses profissionais, mas a gente trabalha aqui com o estudantes quatro anos para eles fazerem previsão do tempo. E isso demanda um esforço enorme. São pessoas que são qualificadas, têm registro no sistema e precisam ser utilizadas pelas defesas civis.

Como esses órgãos trabalham sem meteorologistas?
As defesas civis, em geral, fazem convênios com empresas de meteorologia. Mas eu acho que os municípios precisam ter o seu próprio profissional. Porque uma empresa de meteorologia quando vende para muitas prefeituras, ela informa genericamente. Agora, se você tem um profissional que está interessado, ele vai estar com o carro dele embaixo d'água, ali no município, ele conhece as condições locais, aí ele vai fazer um trabalho bem mais acertado. É assim que funciona nos Estados Unidos, eles têm cinco mil meteorologistas, que fazem sempre previsão para uma área com uma raio de mais ou menos 200 quilômetros.

Os municípios teriam que ter esses equipamentos?
Temos um radar que cobre toda a região, metade dos municípios do Estado estão aqui. E temos um radar novo, específico para monitorar a região metropolitana e, nesses eventos como o de sexta-feira, monitorar o Litoral.

Onde está esse radar?
Ele fica em um caminhão, financiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). Custou R$ 2,5 milhões e está equipado com um sistema que permite saber a velocidade do vento e para onde o sistema atmosférico está se deslocando. Faz parte do Sistema Integrado de Hidrometeorologia do Estado de São Paulo. Esse caminhão pode ser levado para qualquer lugar do Brasil.

Qual o alcance desse equipamento?
É de até 450 quilômetros e faz medições a cada 100 metros, através de sistema GPS. Ele possui dois monitores, um para acompanhar o tempo e outro para mostrar os produtos. É como se fosse feita uma tomografia computadorizada da atmosfera. As informações serão disponibilizadas na Internet, no site da USP, em uma página que está sendo desenvolvida.

Quantos meteorologistas há no Brasil atualmente?
Tem cerca de mil meteorologistas. É um número pequeno, tem que haver uma expansão, mas para isso tem que ter mercado. Estamos com um problema sério, por exemplo na Universidade de São Paulo, até. Ampliou o número de vagas mas os estudantes não ficam. Eles têm que estudar em período integral, durante quatro anos. Os nossos ainda têm um pouco menos de dificuldade, porque a USP é a primeira escola de meteorologia do Brasil, então os estudantes talvez tenham um pouco de vantagem. Mas, na média, a situação é muito ruim. O Brasil precisa desses profissionais, assim como de outros, para trabalhar nessas questões que envolvem o ambiente, o desenvolvimento econômico sustentável.

Destaque
A temperatura aumentou 2,1 graus Celsius de 1936 até 2005. De acordo com o especialista, a mudança foi local: a cidade se expandiu, tem mais concreto e menos áreas verdes