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Temperatura no Pantanal pode aumentar até 7° C

Publicado em 28 abril 2016

Por Lauro Veiga Filho

Sem nenhum desvio de curso, no cenário mais pessimista, até o final do século o Pantanal sofrerá mudanças climáticas drásticas, com elevação de até 7°C na temperatura média e alterações provavelmente radicais no regime hidrológico, o que poderá favorecer, numa das hipóteses consideradas pelos pesquisadores, a "invasão" da região pela vegetação típica do Cerrado.  "Os modelos adotados indicam um aumento expressivo das temperaturas médias, o que pode bagunçar todo o ciclo hidrológico, diante da expectativa de períodos secos mais prolongados e aumento da evaporação", afirma o pesquisador Gilvan Sampaio, do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC/Inpe) do Ministério da Ciência e Tecnologia.

Sampaio é um dos autores do estudo "Climate Change Scenarios in the Pantanal", publicado no livro "Dynamics of the Pantanal Wetland in South America", trabalho liderado pelo especialista José Antonio Marengo Orsini, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), com a participação ainda de Lincoln Alves, também do CPTEC/Inpe, e apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Os estudos sobre mudanças climáticas no Pantanal, observa Sampaio, levaram em conta modelos climáticos globais incluídos no 5º Relatório de Avaliação (AR5) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).  As projeções mais drásticas, que contemplam temperaturas médias numa faixa de variação entre 3,5°C a 5°C, podendo atingir até 7°C em 2100, consideram níveis inéditos de concentração de gases de efeito-estufa na atmosfera.

Uma área ampla da região, que ocupa 360 mil quilômetros quadrados no total, dos quais praticamente 70% situados em Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, permanece alagada durante os meses de novembro a março, formando banhados e lagos rasos, com surgimento de ilhas de vegetação que servem de refúgio e pontos de reprodução para a fauna.  Com precipitação variando atualmente entre mil e 1,25 mil milímetros por ano, favorecida pelos "rios de umidade" que vêm da Amazônia, e temperaturas médias de 24°C ao longo do ano, mas que chegam a atingir 41°C entre abril e setembro, quando cessam as chuvas, a planície pantaneira tende a enfrentar períodos de seca mais intensos e prolongados no "inverno" e déficit hídrico, conforme sugerem os modelos climáticos aplicados à região, afirma Sampaio.

Esses mesmos modelos, no entanto, não permitem previsões mais precisas sobre como a mudança na temperatura local afetará o regime de chuvas no verão.  As projeções, de acordo com o pesquisador, mostram um incremento na ocorrência de eventos climáticos extremos e uma maior amplitude entre as temperaturas mais baixas e mais elevadas, sugerindo precipitações mais intensas no período.  Mas não são conclusivas em relação ao volume das chuvas.

Essa perspectiva começa a ser levada em consideração pelas empresas que atuam no Pantanal sul-mato-grossense.  A Buriti Comércio de Carnes, que atualmente opera uma unidade em Aquidauana, onde abate diariamente 500 cabeças de bois, busca alternativas mais sustentáveis para a geração de energia, afirma Daniel Chramosta, representante legal da empresa e membro da quarta geração da família que opera o negócio.  Com origens na Polônia, de onde saiu seu bisavô, durante a Segunda Guerra, e na antiga Tchecoslováquia, terra de origem de seu pai, Chramostra trabalha num projeto para produzir energia a partir do conteúdo ruminal dos animais abatidos, hoje destinado à produção de adubo que é distribuído a chacareiros e proprietários rurais locais.

Numa primeira etapa do projeto, ainda em fase experimental, o conteúdo ruminal é extraído a vácuo.  Em média, cada animal abatido gera em torno de 20 quilos desse conteúdo e sua extração a vácuo já permitiria reduzir pela metade o consumo de água no abatedouro, que atualmente consume em torno de 600 mil a 800 mil litros por dia, numa média entre mil a 1,5 mil litros por animal abatido, diz Chramosta, "abaixo da média do setor, que gira em torno de 2 mil litros por animal".  Na segunda fase, o conteúdo é misturado à borra de sebo e colocado num fulão ou secador, juntamente com palha de arroz fornecida por produtores da região e restos de lenha.

Depois de seca, toda a mistura passa por um equipamento que vai comprimir o material e produzir briquetes de oito centímetros de diâmetro, uma "biolenha" que será queimada em caldeiras, gerando energia a ser aproveitada no processo de produção.  "Não fizemos os testes completos ainda, com análise do poder calorífico do produto, das emissões de gases e fumaça e capacidade de todo o sistema.  Mas este é um projeto para o futuro, que exigirá um investimento por volta de R$ 3,0 milhões", estima.

Valor Online

Para o Valor, de São Paulo