Notícia

Boletim do Acadêmico

Temos a síndrome de Santos Dumont?

Publicado em 27 setembro 2006

O Acadêmico Carlos Henrique Brito Cruz, diretor científico da Fapesp e professor no Instituto de Física Gleb Wataghin da Unicamp, de onde já foi pró-reitor de Pesquisa e reitor, teve o seguinte artigo publicado no Aliás Debate, caderno do jornal O Estado de S.Paulo, em 15/9:
"Há um movimento e uma sucessão de fatos que permitem um olhar ainda cauteloso, mas otimista, sobre o impacto do conhecimento na vida nacional - embora várias nações tenham percebido isso bem antes do que nós. Ciência e conhecimento são fundamentais para o desenvolvimento do Brasil, para a criação de riqueza, de empregos e de oportunidades.
Basta lembrar o bem-sucedido agronegócio, cujo sucesso se baseia, em grande parte, em desenvolvimentos científicos e tecnológicos criados por cientistas brasileiros para vários tipos de cultura: soja, milho, cana-de-açúcar, arroz. Outro exemplo é a extração de petróleo: o Brasil consegue produzir, pelo menos com essas taxas de crescimento econômico, todo o petróleo que precisa usar. É uma realização que vem de ciência, de tecnologia e de engenharia, feita por iniciativa nacional.
As possibilidades, no entanto, poderiam ser maiores. Há no Brasil um desequilíbrio. De um lado, a atividade de pesquisa no mundo acadêmico: os estudantes formados nas melhores universidades brasileiras são competitivos e visíveis no mundo da ciência internacional. De outro lado há um setor onde nós temos desafios a vencer: a pesquisa industrial, feita dentro das empresas.
Gerou-se a idéia de que o único lugar para se fazer pesquisas é a universidade. Isso é um equívoco. Empresas têm laboratórios em vários países, que realizam investigações revolucionárias - às vezes ganham prêmios Nobel - e também laboratórios que fazem o arroz com feijão, pesquisam o que fará a empresa ser competitiva na semana que vem.
Apenas 20% dos cientistas trabalham para indústrias no Brasil. Nos países desenvolvidos, o índice é de mais de 60%. Esse desequilíbrio ocorre porque as indústrias enfrentam obstáculos grandes para realizar um investimento cujo retorno vem a prazo médio ou longo. E esse desequilíbrio cria pressões sobre o mundo da pesquisa acadêmica, que tende a afastá-lo de sua missão. A pesquisa acadêmica não existe para criar benefícios na semana que vem, seu compromisso é descobrir algo para que a humanidade seja melhor.
Mas acaba ocorrendo uma pressão: 'ah, mas a universidade faz pesquisa que ninguém entende.' A universidade vai contribuir se educar bem seus estudantes e se mantiver contato com o avanço da ciência no mundo. São outros setores da sociedade que também precisam fazer pesquisa, como a indústria e o governo, que têm a missão de resolver os problemas da semana que vem. O lugar onde existe a conexão com o mercado, com a oportunidade é a indústria, não a universidade.
Eu terminaria destacando áreas de pesquisa nas quais o Brasil tem oportunidades importantes à frente. O país construiu uma vantagem na produção de energia da biomassa, o etanol com a cana-de-açúcar. Houve iniciativas estatais - que todo mundo pensa que vêm de 1975, mas na verdade em 1931 já havia a lei que obrigava a pôr etanol na gasolina. Mas em 1975 virou uma ação de Estado que criou oportunidade para que o setor privado avançasse. Até agora não surgiu nenhuma planta que faça energia tão bem quanto a cana-de-açúcar. E o Brasil tem uma vantagem importante porque a terra é boa para plantar e produzir.
Mas esse também é um dos assuntos com grande potencial de gerar de novo a síndrome de Santos Dumont, aquela que diz: 'ah, fomos nós que inventamos, mas outros é que estão ganhando dinheiro com isso'. Dumont inventou o avião, mas o Brasil ganha muito pouco com ele. O país mostrou para o mundo que é possível fazer um país funcionar movido a etanol, agora temos de fazer isso para o mundo. Outro tema que eu destacaria é o meio ambiente e a biodiversidade.
O Brasil tem vantagens comparativas importantes. Se houver pesquisa em intensidade adequada, se houver esforço para entender e desenvolver, acoplando sempre a iniciativa do setor estatal com o setor privado, o país tem condições de usar melhor essas vantagens."