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Telhado branco

Publicado em 01 novembro 2011

Por Michele Lopes

Tudo começou em 2008, com a campanha "One Degree Less" - "Um Grau a Menos". Criada pelo Green Building Coyncil Brasil (GBC), organização não governamental responsável por fomentar a indústria de construção civil, a empreitada tem como objetivo conscientizar a sociedade sobre o efeito urbano, que aumenta a temperatura nas cidades devido à absorção de calor, contribuindo com o aquecimento global. Para tal, incentiva a utilização de telhados brancos ou com coloração clara, coberturas e pavimentações frias, tetos verdes, arborização urbana, entre outros. Resultado: a redução da carga térmica nos centros urbanos.

O primeiro passo dado pelo GBC Brasil para a criação da One Degree Less foi se basear em dados do renomado laboratório arnericano Lawrence Berkeley, que comprovam que pintar os telhados com tinta branca ou de cores claras diminui sensivelmente os efeitos da incidência solar, e aponta que a pintura, tanto em pavimentos quanto em telhados, nas regiões temperadas e tropicais, pode gerar uma compensação equivalente de 44 bilhões de toneladas de CO2 emitido. A entidade levou em consideração, ainda, um preocupante fato também apontado pelo Lawrence Berkeley: mais de 50% da população mundial vive em áreas urbanas e a previsão é que em 2040 tal estatística atinja os 70%. No Brasil, mais de 81% da população já vive em cidades. Conclui-se daí que tetos e pavimentos representam cerca de 60% das superfícies urbanas. "Os chamados telhados frescos são umas das alternativas para minimizar os efeitos das ilhas de calor nas grandes cidades. Essa tecnologia é uma grande aliada na busca por um mundo mais sustentável", enfatizar Maria Clara Coracini, diretora-executiva do GBC Brasil.

Ela também observa que o consumo de energia com a utilização de ar-condicionado e ventilador será reduzido, já que as coberturas claras refletem até 90% da luz solar. "Sua aplicação é bem fácil e exigevpouca manutenção, pois já existem materiais auto-limpantes que evitam que as superfícies tenham de ser pintadas depois de alguns anos."

ELES ADERIRAM Os benefícios da adoção de telhados brancos nas construções foram inicialmente reconhecidos pelos Estados Unidos e Japão. Nos primeiros, os telhados reflexivos já se tornaram equipamento padronizado há uma década e os Estados da Califórnia, Flórida e Geórgia criaram códigos de edificações que incentivam a instalação desses telhados em edifícios comerciais. Aqui no Brasil, a One Degree Less foi aderida pela primeira vez pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo. O compromisso da CDHU foi o,.de pintar de branco os telhados de conjuntos habitacionais novos e antigos do Estado. Em 2010, a cor começou a surgir nos prédios de um-residencial em llha-bela, cidade que também adotou a campanha nos edifícios do hospital, do ginásio de esportes e de algumas escolas,

Florianópolis e São Paulo têm apostado na legislação para inserir a ação nas cidades. A capital catarinense aguarda a regulamentação de uma lei que cria o Programa de Redução do Aquecimento Global no município, por meio de obras que estimulem a aplicação daícor branca nos telhados das construções. No ano passado, o Projeto de Lei no 615/2009, que estabelece o uso de coberturas brancas nas edificações, foi aprovado em primeira votação na Câmara dos Deputados de São Paulo e, atualmente, tem tramitado à es pera de aprovação final do prefeita Gilberto Kassab. Para o vereador Antonio Goulart (PMDB), autor da vproposta, a medida deve ser vista como uma ação para a preservação do meio ambiente, o que necessita de atitudes rígidas.

"Antes de pensarmos que a medida é difícil de ser aplicada ou em qualquer argumento contrário, carece ressaltar que a lei ajudará a combater o aquecimento global. Isso é bom para o planeta e para os cidadãos de São Paulo", completa Goulart. "Se toda a cidade adotasse os telhados de cor branca, a temperatura da capital seria até 2°C menos quente do que é hoje."

POR OUTRO LADO... Assim como a maioria das propostas e incentivos, a ideia de ter construções com telhados brancos ou claros também possui restrições. O gasto dos paulistanos com a campanha, por exemplo, reflete negativamente à sua aplicação: se aprovada, a referida lei custará 380 milhões de reais à população de São Paulo, segundo levantamento recente feito pelo portal IG com base em informações da Associação Brasileira dos Fabricantes de Tinta (Abfafati).

E para agravar ainda mais os reflexos pessimistas da empreitada, estudos realizados em maio deste ano, no Departamento de Engenharia de Construção Civil da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, questionam as vantagens dos telhados brancos e alegam que sua adesão pode ter o efeito contrário ao alegado pela One Degree Less. Como?

As tintas imobiliárias comuns, à base de água, são suscetíveis à colonização por fungos filamentosos - mofo ou bolor -, assim como algas e ciabobactérias, que causam o escurecimento de telhados e, portanto, o aumento da temperatura interna e do consumo de energia dos imóveis. Em 2007, um grupo da instituição começou a estudar a ação desses microrganismos em tintas expostas em diferentes regiões climáticas do Brasil, por intermédio do projeto Microbiologia aplicada à ciência dos materiais de construção civil, financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

O resultado dos testes demonstra que os fungicidas presentes na formulação das tintas para conferir proteção ao produto são removidos pela água. E mais: estudos realizados em estações de pesquisa em São Paulo, no Pará e no Rio Grande do Sul revelaram que o clima e as condições "ambientais influenciam a velocidade da colonização microbiana em tintas.

Márcia Aiko Shirakawa, coordenadora do projeto, explica. "É preciso realizar mais pesquisas sobre a durabilidade das tintas desenvolvidas para aplicação em telhados antes de implementar qualquer lei. Com o tempo, sabemos que haverá crescimento microbiano e o escurecimento dos telhados, o que acarretará mais gastos de repintagem." E ainda destaca que, para minimizar os efeitos dos microrganismos sobre as tintas, são necessárias formulações especiais. "Uma alternativa é o uso de tintas inorgânicas autolimpantes, com nanopartículas de dióxido de titânio, que possuem capacidade de aceleramento de uma reação por luz ultravioleta, impedindo a colonização microbiana. Porém, é necessário estudar a eficiência desses novos materiais e suas suscetibilidades em condições de clima tropical, como as do Brasil."