Notícia

Jornal da USP

TELENOVELA - Racista como a sociedade

Publicado em 03 agosto 1998

A telenovela não contribui para a construção de um modelo democrático nas relações entre brancos e negros. Conclusão de uma professora da ECA A telenovela no Brasil reflete uma situação de racismo não explícito vigente na sociedade. Um racismo do qual as pessoas nem têm consciência e que é tão ambíguo como as próprias relações raciais, com momentos de avanço e de retrocesso. A maneira como são tratadas as personagens negras nos enredos das telenovelas revela essa ambigüidade e reforça a imagem negativa do negro que vem sendo construída e transmitida pelas grandes redes de televisão a milhões de telespectadores no País. É sempre uma pessoa humilde ou em condição social subalterna, pobre, com pouca instrução e educação. Se mulher, sensual. Quando esses estereótipos não estão presentes, o negro acaba sendo visto no mínimo como diferente, em um universo de brancos. Esta é uma das conclusões da pesquisa "A identidade da personagem negra na telenovela brasileira", de Solange Martins Couceiro de Lima, professora de Antropologia Cultural da Escola de Comunicações e Artes da USP. O trabalho da antropóloga faz parte de um amplo projeto. "Ficção e Realidade: a telenovela no Brasil; o Brasil na telenovela", que está sendo desenvolvido pelo Núcleo de Pesquisas de Telenovela (NPTN) da ECA (leia texto nesta página), constituído por nove diferentes estudos, oito financiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). "O trabalho visa discutir de que modo os meios de comunicação em geral, e a televisão em particular, têm contribuído, através da ficção, com a necessidade de se instituir um modelo democrático para as relações étnicas entre brancos e negros em um país formado por uma sociedade multirracial, e qual é a imagem que o branco construiu e continua a construir do negro através dessa representação", explica Solange. "Raramente podemos ver, por exemplo, um ator negro interpretar um papel de médico ou advogado, em princípio personagens cuja cor não tem nenhuma influência na trama." Dividida em dois períodos - 1975 a 1988 e 1988 a 1997- a pesquisa está sendo elaborada a partir da análise das novelas produzidas pela Rede Globo e exibidas nos horários das 7 e 8 horas da noite. "Além de atingir um grande público, a Globo apresenta uma variedade de temas sociais", afirma Solange. Também foram feitas entrevistas com autores, atores e diretores de telenovela e consultas a jornais e revistas. A pesquisa conseguiu apoio financeiro de cerca de R$ 12 mil da Fapesp, aplicado em material de infra-estrutura como computador, videocassete, edição das fitas, viagens, e conta com a participação de duas bolsistas. SOB O MITO DA DEMOCRACIA Considerada um marco na história do gênero, a telenovela "Pecado Capital", que foi ao ar em 1975, mostrou pela primeira vez uma personagem negra usando terno e gravata no papel de um psiquiatra. Nas telenovelas anteriores, o negro aparecia sempre em posições subalternas, fazendo papéis de motorista ou de escravo. Um avanço? Na verdade, explica Solange, o psiquiatra interpretado pelo ator Milton Gonçalvez era, nas palavras do próprio ator. "um curandeiro de luxo". "Esse personagem não tinha história, nem família, era solto e simbolizava a democracia racial como ideologia da sociedade brasileira", argumenta. Em 1988, por exemplo, ano do centenário da abolição da escravatura no Brasil, uma série de iniciativas agitaram a questão racial no País. Naquele ano, recorda Solange, a telenovela "Mandala", inicialmente planejada para homenagear o ator Grande Otelo, exibiu uma família de negros na trama. Ao ator, deu um papel de alcoólatra. Além disso, apresentou uma série de estereótipos como o da mulata sensual. "A telenovela que presumidamente deveria homenagear o ator negro no ano do centenário da abolição acabou mostrando somente estereótipos", destaca a antropóloga. Em 1995, quando a pesquisa passou a ser realizada de forma mais sistemática, começou a ser exibida a novela "A Próxima Vítima", que inclui no enredo uma família negra de classe média, mas, apesar da iniciativa, segundo a pesquisadora, não havia espontaneidade nas cenas em que essas personagens apareciam. "Ao fazer o contraste entre personagens brancas e negras, essa telenovela acabou mostrando situações inverossímeis, que demonstram a dificuldade que a equipe de profissionais enfrenta ao tentar tratar com naturalidade as cenas com personagens negros." Nada disso é surpreendente, observa a antropóloga, porque, afinal, o autor de telenovelas também é influenciado pela formação e ideologia da sociedade e transpõe seus próprios valores ao tratar o lema. "É muito simplista dizer que o autor é racista, porque a sociedade tem o racismo de forma qualificada e naturalizada: assim, a maneira como avaliamos o negro é diferente, por isso ele tem de aparecer na mídia de maneira diferente." Segundo a pesquisadora, a questão não chega a ser percebida facilmente pelos telespectadores porque as pessoas assistem, absorvem, reforçam estereótipos da imagem do negro transmitidos pela TV, mas não possuem a consciência crítica de que e uma forma de preconceito. "Devemos levar em consideração todo o contexto da formação cultural no Brasil pautada na ideologia da democracia racial, em que não se enfrenta essa temática porque se pretende acobertá-la." Ao mesmo tempo em que transmitem uma imagem ao grande público, os meios de comunicação, assim como a escola e a família, também contribuem para a formação da identidade social e racial dos negros. Nesse sentido, o estudo lança algumas questões: qual a auto-imagem que a criança negra forma de seu grupo de origem assistindo à novela? Qual a identidade feminina possível de servir como modelo à jovem e à mulher negra? Qual a identidade que a televisão e a mídia em geral ajudam o homem negro comum a elaborar de si próprio? Em relação à mulher negra, o tratamento não é diferente. A imagem transmitida é de sensualidade e sedução. "Toda vez que se mostra o paradigma da globeleza como referência da mulher negra, e não o da professora universitária, da pesquisadora ou da profissional, esse mito é reforçado." No entanto, não são somente as mulheres que sofrem com a sua imagem convertida em estereótipos. A pesquisadora aponta também o surgimento de um novo padrão para o homem negro nas telenovelas: o sensual, bonito e atlético, o que não significa uma democratização racial mas sim, "uma referência maltratada, pois simboliza o homem objeto." Para a pesquisadora, mesmo quando avança ou parece avançar na abordagem da questão racial, a mídia não pretende substituir os valores da sociedade. No máximo, vai às vezes transgredir alguns. "Mas essa transgressão é dentro do estabelecido", avisa. "Geralmente, quando a questão é colocada na trama, acaba perdendo sua força argumentativa e discursiva e se diluindo no desenrolar do enredo." O estudo das personagens e dos enredos, ao longo de toda a pesquisa, permitiu à antropóloga concluir que a presença de personagens negras nas telenovelas continua, em geral, procurando reforçar o mito da democracia racial brasileira. "Como na democracia política, as grandes redes de televisão não estão contribuindo na construção de um modelo democrático para as relações étnicas entre brancos e negros", afirma. "As telenovelas brasileiras não levam em consideração a ascensão da raça negra na sociedade e não enfatizam um ponto que colabore para criar a auto-estima ou o orgulho de ser negro, sentimento fundamental para a construção de uma identidade." A TELENOVELA NA UNIVERSIDADE A importância da telenovela no Brasil contemporâneo pode ser medida em termos da influência que exerce no comportamento da sociedade - que participa ativamente da produção desse setor da indústria cultural - e enquanto produto de exportação. A telenovela se instalou definitivamente no País nos anos 70. Bem aceito pelo público, o produto sofreu imediata rejeição por parte dos intelectuais, que consideravam a televisão um veículo de alienação e de manutenção do poder ditatorial implantado na década de 60. Com o passar dos anos, essa postura modificou-se e a telenovela já não era mais vista somente como um produto nocivo, mas também como um produto que a própria sociedade ajudava a escrever. Dessa forma, a telenovela chegou à universidade. Criado em 1992 por iniciativa da professora Ana Maria Fudul, o Núcleo de Pesquisas de Telenovela (NPTN) reúne docentes, pesquisadores, alunos de graduação e de pós-graduação de vários departamentos da ECA. A partir daí, o grupo passou a desenvolver o projeto integrado "Ficção e Realidade: a telenovela no Brasil; o Brasil na telenovela", coordenado pela professora Maria Aparecida Baccega, do Departamento de Comunicação e Artes. Composto por um conjunto de nove subprojetos desenvolvidos em áreas distintas do conhecimento, o estudo procura analisar a telenovela no Brasil sob diversos ângulos, como sua construção, sua influência sobre o comportamento da sociedade e suas possibilidades de exploração econômica, principalmente como produto de exportação. Direcionada para a comunidade acadêmica, educadores e alunos de 1º e 2º graus, a publicação dos resultados oferece subsídios para a leitura crítica dos meios de comunicação e para revelar os avanços dos estudos nessa área. Outro objetivo do projeto é divulgar os dados para a população em geral.