Notícia

Jornal da USP

Telemedicina aponta para o futuro

Publicado em 03 setembro 2000

Considerado um centro de excelência para tratamento de doenças cardíacas, o Incor (Instituto do Coração) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP continua investindo em tecnologias avançadas. Há dois anos, faz parte de um consórcio de empresas paulistas que criou a Rede Metropolitana de Alta Velocidade em Informática, que tem por objetivo atingir uma velocidade de comunicação até 200 vezes maior do que a Internet atual. É a chamada Internet 2. Dados clínicos de alta complexidade e prontuários eletrônicos, ela Internet 2 - investimento que recebeu apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), da Escola Politécnica e da Telefônica - poderão ser transmitidos em tempo real para instituições hospitalares e médicos ligados on-line. Com esse passo o Incor entra, definitivamente, na fase da telemedicina. Também está previsto, até o final do ano, o lançamento de um portal Incor-Fundação Zerbini, com informações gerais sobre o trabalho de parceria entre o Incor e a fundação. A parceria das duas instituições com a iniciativa privada inclui o desenvolvimento de produtos específicos de informática médica, como o sistema Infinity para a monitoração de pacientes de risco. Segundo o diretor-presidente da Fundação Zerbini Paolo Bellotti, foram investidos em pesquisa na área tecnológica, de 1997 a 1999, quase R$ 4 milhões. "Não se faz assistência adequada sem tecnologia adequada", afirma o membro do Conselho Diretor do Incor e coordenador de pós-graduação do instituto, Protásio Lemos da Luz. Atualmente em fase experimental, já se ligam em rede vários pontos do hospital para a transmissão de dados clínicos de pacientes. Depois da implantação da Internet 2, a expectativa é de que o serviço de informática se torne ainda mais sofisticado. Um médico do Incor, por exemplo, poderá utilizar um computador portátil (laptop) para se comunicar com o hospital. Até familiares dos pacientes terão contato, via computador, com o hospital e terão acesso, por meio de senhas, às informações sobre o quadro clínico de parentes. Esses dados serão sigilosos, restringindo-se apenas a médicos e familiares do interno. Em dezembro do ano passado, a apresentação e a transmissão via Internet 2 da situação de um paciente que havia sido atendido no Hospital São Paulo, e depois transferido para o Incor, marcaram a abertura do sistema, em conexão com oito instituições. "A partir daí é que se vem utilizando novos projetos para uso da Internet 2", diz o presidente do Conselho Diretor do Incor José Antônio Ramires. Sábado, dia 19, o Incor inaugurou o Bloco 2, que, assim como o primeiro bloco, é dotado de tecnologia de ponta. O custo total da obra foi de R$ 95 milhões, dos quais R$ 55 milhões oriundos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e o restante de recursos próprios. A tecnologia introduzida no complexo hospitalar, desde sua fundação, culminou com a inauguração do bloco de 17 andares, 120 leitos, 7 salas cirúrgicas e 45 mil metros quadrados de área, construído segundo padrões de inteligência arquitetônica, incluindo heliporto. Para os integrantes da diretoria do Incor e da Fundação Zerbini, o Bloco 2 é um marco histórico. Até o final do ano, deverão ser entregues consultórios, laboratórios de pesquisa, escritórios administrativos e áreas de apoio. Já entraram em funcionamento o ambulatório, o centro cirúrgico, as unidades de terapia intensiva, a área de internação, os vestiários e o estacionamento com capacidade para 450 veículos. Ramires confirma que a tecnologia ligada à informação é o grande avanço do Incor: "Os laboratórios de biologia molecular, genética molecular, terapêutica genética, imunologia e imunologia clínica vão implementar novos tratamentos e novos meios de se entender as doenças que ainda hoje não estão totalmente esclarecidas". ECONOMIA DE PAPEL Até o final do ano, o Incor, que passará das 10.500 internações anuais para 14 mil, já estará disponibilizando a Internet 2 para médicos e funcionários do instituto. A principal vantagem do sistema, além da precisão dos dados e velocidade da comunicação, é a economia de papel. Ramires diz que se gasta muito em papel e fotos para registro dos exames e que seria necessária a construção de um novo prédio para guardar material impresso: "Com a Internet 2 e com o sistema de informática, não se tem mais papel, diminuindo os custos atuais com a papelada dentro da instituição". Protásio da Luz afirma que não é só em conseqüência da informatização que o Incor se destaca. O instituto tem compromisso com a educação, formando pesquisadores e cientistas, não só com a tecnologia e o atendimento à população. Quem se beneficia dos investimentos em tecnologia, além do corpo funcional, é a população. No ano passado, 75% das receitas se originaram do SUS (Sistema Único de Saúde), 23% dos convênios e 2% dos usuários pagantes. O desempregado José Luís Martins, de 47 anos, não tem do que se queixar. Natural de Entre Rios, no Triângulo Mineiro, Martins mora desde os 17 anos de idade em São Paulo, no bairro de Santo Amaro, e diz que faz de tudo um pouco para sobreviver. Mas teve de parar de trabalhar por causa da pressão alta e problemas no coração. Há cinco anos Martins é tratado no Incor: "Nunca tirei um tostão do bolso esse tempo todo. O atendimento é ótimo". Antonio da Cruz Sobrinho, 32 anos, motorista, casado, duas filhas, natural de Dracena (645 quilômetros de São Paulo), trabalha em Atibaia (a 65 quilômetros de São Paulo). Por causa de um "bloqueio" no coração, esteve pela primeira vez no hospital dia 17, para consulta médica, no mesmo dia da abertura para a imprensa e convidados das novas instalações do hospital. Chegou às 9h30, a consulta estava marcada para as 10h, e foi atendido às 10h10. Terá de voltar para fazer alguns exames, e gostou do atendimento: "É ótimo. Vamos ver daqui para frente. Até agora foi tudo bem". NÚMEROS CONTINUAM CRESCENDO O que mais impressiona no Incor, fundado em 1975, é o tamanho que a instituição alcançou nos últimos 25 anos. Os números do Incor falam por si só. Em 1999, foram feitas 232,8 mil consultas, 10,6 mil internações, 3,7 mil cirurgias e 1,4 milhão de análises clínicas. A tendência, com a inauguração do novo bloco, é que esses números não parem por aí. Com a ampliação física do Incor, está previsto o acréscimo de AIHs (Autorização para Internação Hospitalar) de 830/mês para 1.180/mês. A maioria dos pacientes do Incor, de 85% a 90%, é da Grande São Paulo. Os restantes 10% são do Estado de São Paulo. O Incor, no entanto, começará a fazer um novo mapeamento, desta vez mais complexo, para a identificação da origem dos pacientes. Desconfia-se que muitos deles sejam de outros Estados e que se hospedem em casa de parentes em São Paulo, caracterizando assim a procedência como sendo daqui. Em termos tecnológicos, já se fala em cirurgia com robô. "Na próxima década, a cirurgia com robô ocupará espaço", afirma o diretor-científico do Incor, Sérgio Almeida de Oliveira. A reforma de quase R$ 100 milhões é a maior da história da instituição. Em conjunto com o Incor, a Fundação Zerbini, cujo nome é uma homenagem a Euryclides de Jesus Zerbini, responsável pelo primeiro transplante cardíaco no Brasil, administra também outras atividades como a Casa da Aids e o Grupo Interdisciplinar do Instituto de Psiquiatria do Hospital de Clínicas (Grea-Zerbini). A Casa da Aids oferece, entre outras coisas, assistência multidisciplinar aos pacientes portadores do vírus HIV, parceiros e familiares. São registradas 26 mil consultas por ano e encaminhados 120 mil exames laboratoriais. O Grea-Zerbini, por sua vez, desenvolve, em convênio com a USP, ações preventivas e terapêuticas contra o uso de álcool e drogas. Também são desenvolvidas ações como o Qualis-Zerbini, um programa de saúde preventiva, e convênios com universidades no exterior, entre elas Harvard e Stanford, nos Estados Unidos. O investimento gradativo em pessoal, na atual etapa, com a introdução dos novos serviços no Bloco 2, incluindo os de informática, deve chegar a 270 ou 300 funcionários do total de 2.400 que o Incor possui. Quanto à ocupação dos novos leitos, o diretor-executivo do Incor José Manoel de Camargo Teixeira afirma será gradual.