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A Tribuna (Santos, SP)

Teimosia para prosperar

Publicado em 10 janeiro 2011

Em 2010, os investimentos públicos e privados em pesquisa e desenvolvimento no Brasil alcançaram cerca 1,25% do Produto Interno Bruto (PUB), algo em torno de R$ 45 bilhões. Parece muito, mas quando comparado com outros países, significa que o País gastou em Ciência o equivalente a US$ 121,4 por habitante, contra U$ 1.307,60 nos Estados Unidos, USS 1.168.50 no Japão, US$ 931,80 na Coreia, USS 164,80 na Rússia e USS 144,30 na China.

Apesar disso, tal como certos expoentes nos esportes, tipo Cesar Cielo, mais exceção do que regra, muitos cientistas brasileiros ainda conseguem chamar a atenção do mundo para suas pesquisas.

O caso mais notório talvez seja o do neurocientista Miguel Nicolelis, codiretor do Centro de Neuroengenharia da Duke University e diretor do Instituto Internacional de Neurociências de Natal, Miguel Nicolelis.

MAÇANTE

Para Nicolelis, um dos nomes fortes para o prêmio Nobel deste ano, graças a sua pesquisa envolve a Doença de Parkinson, um dos problemas da Ciência brasileira é a falta de dedicação integral às pesquisas. Hoje, a maioria dos pesquisadores se divide entre a docência e o laboratório (veja entrevista na página).

Dados do Ministério da Ciência e Tecnologia comprovam o problema. Segundo o MCT, 3% da população ocupada (250 mil pessoas) no Brasil atuam na área de pesquisa e desenvolvimento (na índia, são quase 8%). Todavia, desse total, menos de 130 mil são realmente pesquisadores, ou seja, dedicam mais tempo ao laboratório do que a sala de aula.

Para fugir desse cotidiano maçante, muitos fazem como Nicolelis, e buscam amparo no exterior. É o caso, por exemplo, do entomologista (estuda insetos) Walter Leal, que atua na Universidade da Califórnia (EUA).

INVENTAR

Mineiro de nascença, Leal recebeu, em novembro, o prêmio Companheiro da Sociedade de Entomologia da América por seus trabalhos com o dietil-me-ta-toluamida, um composto químico que serve como repelente deinsetos. O fato ganhou destaque no Washington Post, New York Times e na BBC.

O problema da falta de apoio e infraestruturanão afetam apenas os cientistas ligados à área acadêmica. Alex Kippman, nascido em Natal (RGN), deixou o Brasil para fazer faculdade nos EUA O motivo foi a paixão pelos jogos de computador. Aqui, diz ele, só corisurniria o que vinha pronto. Lá fora, havia a possibilidade de criar, inventar algo novo. Dito e feito.

Kippman é um dos principais responsáveis pela criação do Kinect, um sensor de movimentos que permite interagir com os games nenhum tipo de jouysticks, usando apenas o próprio corpo humano.

Nas Favelas

Mas, se vencer lá fora é difícil, permanecer aqui é uma odissseia tão ou mais complicada.

Mesmo assim, o matemático mineiro Jacob Palis Júnior extrapolou fronteiras.

No final do ano, ele se tornou o primeiro brasileiro a ganhar o prêmio Balzan, da Fundação Internacional Balzan, com sede em Milão e Zurique.

Lá recebeu 750 mil francos suíços, o equivalente a R$ 1,28 milhão, dinheiro que pretende investir em solo brasileiro. Nascido em família de classe média alta, Palis Júnior é categórico: é nas favelas onde residem vários dos futuros cientistas. E é lá que ele pretende investir o prêmio.

Vencer lá fora, de olho no Brasil

No ano passado, o neurocientista Migue! Nicolelis recebeu o prêmio NIH Director"s Transformative ROÍ, que concede USS 4,4 milhões para aplicação em pesquisa, e o Director"s Pioneer Award, de US$ 2,5 milhões. Os prêmios estão entre os mais cobiçados no melo cientifico e costumam indicar potenciais candidatos ao Nobel. Nicolelis foi o primeiro cientista a receber as duas premiações no mesmo ano. Hoje, seu trabalho é uma das maiores esperanças na luta contra a Doença de Parkinson. Nos próximos meses, hospitais brasileiros poderão aplicar o tratamento proposto pelo neurocientista, cujo método começará testado em seres humanos em São Paulo e nos Estados Unidos. Hoje, Nicolelis divide seu tempo entre o Centro de Neurociêncla da universidade Duke, na Carolina do Norte (EUA) e o Instituto Internacional de Neurociências de Edmond e Lily Safra, que elecriou em Natal (RGN). A escolha do local foi feita com o propósito de descentralizar a Ciência de ponta no país e, ao mesmo tempo, de atrair pesquisadores de alto nível que estejam trabalhando no exterior. Batizado de "Banco de cérebros", a iniciativa não se limitará a Natal. Outros 12 centros serão criados, nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Recentemente, ele lançou o manifesto das Ciências Tropicais, cujo objetivo foi ressaltar o potenciai da ciência brasileira. A seguir, trechos de entrevista concedida em dezembro.

O senhor afirmou que os trópicos oferecem à humanidade a mais fascinante esperança de preservar a própria espécie. Por quê?

Nicolelis - Nós temos aqui as reservas que, do ponto vista científico, são necessárias para nosso Planeta se preservar. Temos comida suficiente, possibilidade de desenvolver energia limpa, um ambiente que pode impedir o avanço do aquecimento global, além de um grande reservatório humano, com um grande talento e capacidade para resolver problemas sérios da humanidade. Mas urge aos nossos talentos científicos serem impulsionados. Os pesquisadores brasileiros precisam de maior capacidade de sonhar. Precisam olhar para seus trabalhos com certo grau de paixão. Assim chegarão mais longe.

Qual o papel do Banco de Cérebros e qual a principal dificuldade que os cientistas enfrentam hoje no Brasil?

Nicolelis - Os cientistas não são treinados para serem empreendedores. Hoje em dia poucas pessoas conseguem fazer pesquisa direito, porque os cientistas têm que dar aula nas universidades.

Como mudar isso?

A nossa proposta é criar a carreira específica de pesquisador nas universidades federais, profissionais integralmente dedicados à atividade científica.

E o Banco do Cérebro?

Ele entraria como um banco público, ao estilo do BNDES, mas voltado para o microcrédito científico. E a carência na área de pesquisa e desenvolvimento?

Precisamos de uma aproximação entre as universidades federais e a sociedade. Precisamos desenvolver uma cultura para que a universidade devolva à sociedade brasileira o produto do seu conhecimento. Temos que permitir que as pessoas frequentem as universidades sem, necessariamente, estarem matriculadas. A ideia é trazer tanto crianças como adultos para mostrar por que as instituições de ensino merecem o orçamento que recebem e por que merecem receber muito mais.

Estudo sugere ponto de equilíbrio no sal

Na Faculdade de Medicina da USP, a equipe do professor Joel Claudio Heimann chegou à conclusão de que uma dieta com elevado consumo de sal durante a gestação poderá gerar indivíduos que, na idade adulta, terão hipertensão arterial. Por outro lado, se o consumo de sal durante a gravidez for baixo, o problema pode ser o desenvolvimento de resistência à insulina.

Esses são alguns dos resultados obtidos em estudos feitos com ratos. À Agência Fapesp, Heimann salientou que a pesquisa não pode ser extrapolada para humanos sem estudos adicionais de validação dos resultados.

Mesmo assim, o trabalho vem produzindo dados importantes sobre o papel do sal durante o período gestacional. Por exemplo, a dieta hipossódica, com restrição de sal, levou à formação de animais que, na idade adulta, apresentaram excesso de colesterol (hipercolesterolemia).

EFEITO CURIOSO

Esses mesmos animais também apresentaram maior resistência à insulina. "Isso significa que eles precisam de mais insulina para manter os níveis normais de açúcar no sangue", explicou Heimann.

Outro efeito curioso observado é que as fêmeas - mas não os machos - das proles de mães que consumiram dieta com pouco sal durante a gestação e amamentação desenvolveram obesidade na idade adulta. Os mecanismos responsáveis por qualquer caso de obesidade podem ser a maior ingestão de alimentos com conteúdo calórico elevado, o menor gasto energético decorrente de sedentarismo ou peculiaridades do metabolismo (como o hipotiroidismo) ou o conjunto dos mecanismos.

"No nosso estudo, o primeiro fator foi excluído. As fêmeas obesas não ingeriram mais ração do que o grupo controle -prole de mães alimentadas com ração com conteúdo normal de sal durante o período perinatal. Em conclusão, restou a hipótese do menor gasto energético", disse.

ESCASSEZ

Outra linha de estudo abordada no Projeto Temático analisa alterações na prole de mães com hiper ou hipotiroidismo durante a gestação.

Coordenado pela professora Maria Luiza Morais Barreto de Chaves, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, o estudo descobriu que filhotes de mães que sofrem de hipertiroidismo nascem com baixo peso.

Heimann lembra que o nascimento abaixo do peso pode ser indicativo de complicações na idade adulta. Esse problema foi apontado pela primeira vez pelo epidemiologista inglês David J.P. Barker, criador da hipótese do fenótipo econômico segundo a qual mães que sofrem restrições na alimentação durante a gestação produzem filhos menores de forma a adaptá-los às condições de escassez do ambiente.