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Vale Paraibano

Tecnópolis em Debate

Publicado em 25 abril 2002

Por Luiz Paulo Costa
Em recente debate ocorrido no auditório Prefeitura de São José dos Campos sobre a 3° Revolução Industrial, a da microeletrônica ou dos circuitos integrados (CIs), o jornalista Edmundo Machado de Oliveira, editor de Economia de "O Estado de S. Paulo", propôs que as cidades de São Paulo (USP), Campinas (Unicamp) e São José dos Campos (ITA), as três principais cidades brasileiras em desenvolvimento científico-tecnológico, se reunissem através de suas municipalidades e com a participação do próprio Governo do Estado de São Paulo (Secretaria de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico) para discutir e definir as suas áreas de excelência para a implementação de programas que concretizem políticas públicas em P&D. O atraso brasileiro em microeletrônica, por exemplo, representa um déficit anual médio de US$ 6 bilhões na balança comercial de eletroeletrônicos, metade ele em componentes, especialmente se condutores, os chips que movem o computador em casa ou o celular no bolso de cada um, conforme revelou o jornalista na reportagem "Uma revolução bate à porta da microeletrônica". O modelo tecnológico e industrial da microeletrônica passa por fortes mudanças. Uma delas, a dos sistemas embarcados na pastilha de silício (System on a Chip ou apenas SoC). O jornalista Edmundo M. Oliveira alerta: "Os SoCs são chips inteligentes, moldados para funções determinadas. Os chips valerão cada vez mais pela quantidade de inteligência humana (softwares) nele embarcada. Por isso mesmo, se o País não fizer nos próximos anos um esforço sério, com planejamento sistêmico e visão de longo prazo, mais do que importador de lascas de silício, o Brasil será um comprador líquido de inteligência. Dos outros. Hoje, a pastilha de silício é commodity. Já o conhecimento, não" Ora, razões de ordem econômica existem de sobra para ser implementado e até ampliado o Programa Nacional de Microeletrônica lançado recentemente pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). A maior parte das empresas industriais de bens eletrônicos em nível internacional está presente no mercado brasileiro e as três maiores controlam cerca de 50% do mercado interno. Apesar de forte, o setor saiu da década de 1980 sem apresentar as condições de competitividade necessárias para enfrentar a concorrência internacional. O processo de substituição de componentes nacionais por importações conduziu a indústria brasileira de componentes a uma crise sem precedentes. Embora a queda em 35% do mercado mundial de semicondutores (responsável pelo déficit de 1,5 bilhões de dólares em nossa balança comercial) indicar a redução de investimentos internacionais nos próximos dois anos, pelo menos, o momento é oportuno para o País articular políticas públicas que promovam a capacitação tecnológica e industrial brasileira. O maior problema a ser resolvido é a falta de doutores, mestres e técnicos em microeletrônica no País. No final do ano 2000 existiam não mais que 300 deles. Para ter uma idéia, só uma fábrica de CIs (circuitos integrados) necessita de mil a 2 mil pessoas com essas qualificações. A articulação dos três principais centros brasileiros em pesquisa e desenvolvimento tecnológico - São Paulo, Campinas e São José dos Campos, pode e deve desembocar na implantação de Centros de Excelência de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitecs). como o existente em Porto Alegre, numa parceria com a Motorola. Ou Institutos de Pesquisa privados como o Genius, criado com recursos de incentivos da Lei de Informática pela Gradiente, em Manaus. Dos Fundos Setoriais criados pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, com recursos oriundos do programa de privatização do governo federal, mais de R$ 50 milhões já estão destinados para a formação de recursos humanos em microeletrônica. A Fapesp (Fundo Estadual de Amparo à Pesquisa), o Sebrae, o BNDES, entre outros, podem e devem também alocar recursos, inclusive para a implantação de processos pré-industriais e industriais necessários à própria formação dos recursos humanos, através da instalação de pólos tecnológicos e industriais, as chamadas tecnópolis. O debate está aberto! Luiz Paulo Costa é jornalista e auditor da Prefeitura de São José dos Campos