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Diário da Saúde

Tecnologias brasileiras para reduzir mortes por doenças cardiovasculares

Publicado em 29 janeiro 2020

Por Maria Fernanda Ziegler, da Agência FAPESP

Pesquisadores e cientistas brasileiros reuniram-se em São Paulo para apresentar algumas das soluções que estão sendo desenvolvidas no país para combater a principal causa de morte no Brasil e no mundo: as doenças cardiovasculares.

As inovações incluem dispositivos que auxiliam o coração a bombear sangue enquanto o paciente aguarda por um transplante, técnicas cirúrgicas menos invasivas e um hidrogel que poderá permitir a impressão 3D de órgãos e tecidos em laboratório.

"Um transplante no Brasil demora cerca de dois anos. Além da oferta limitada de órgãos, é preciso levar em conta uma série de fatores que dificultam o procedimento. O número de pacientes com problemas cardiovasculares é muito grande e, por isso, é importante desenvolvermos dispositivos no país a preços mais acessíveis," disse o professor José Roberto Cardoso, pesquisador da Escola Politécnica da USP durante a reunião, promovida pela FAPESP.

As inovações apresentadas visam criar alternativas terapêuticas principalmente para os pacientes com condições mais graves, como é o caso da insuficiência cardíaca - responsável por 27,5 mil mortes anuais no país segundo a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).

Assistência ventricular

A equipe de José Roberto, que inclui pesquisadores do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, está desenvolvendo um dispositivo de assistência ventricular para pacientes adultos com insuficiência cardíaca - condição em que o órgão não consegue bombear o sangue adequadamente.

O equipamento serve como uma bomba para ser implantada ao lado do coração do doente, com a finalidade de complementar ou suprir a função cardíaca debilitada.

"O dispositivo visa auxiliar o coração debilitado durante o período de espera pelo transplante, mantendo níveis fisiológicos de pressão e fluxo, reduzindo a mortalidade de pacientes na fila de espera e após o transplante," esclareceu o pesquisador.

Já a equipe da pesquisadora Idágene Cestari, do Instituto do Coração da USP, está desenvolvendo um dispositivo de assistência ventricular voltado exclusivamente para pacientes pediátricos que necessitam de um transplante cardíaco.

A bomba do dispositivo é controlada por um console à beira do leito, onde são ajustados todos os parâmetros de suporte ao coração, como a frequência de batimentos, por exemplo. "Esse sistema de suporte requer a hospitalização do paciente e é indicado para pacientes em lista de espera para o transplante cardíaco. Em outro projeto dessa mesma linha de pesquisa, estamos desenvolvendo um dispositivo implantável que permite a assistência por tempo mais prolongado e não requer a hospitalização do paciente após o implante do dispositivo", disse Cestari.

Endoprótese

Também foi apresentada durante o evento uma técnica conhecida como endobentall, que une duas tecnologias - a inserção de válvulas por cateteres e stents - para criar uma prótese única, que pode ser inserida pela perna do paciente e conduzida até o coração.

A colocação da endoprótese pode substituir uma grande cirurgia na válvula do coração e na artéria aorta.

"Graças à técnica hoje não precisamos mais abrir o peito do paciente e parar o coração para tratar uma doença grave, como estenose aórtica associada a aneurisma de aorta ascendente. Isso certamente vai contribuir para a redução de risco e de mortalidade desses pacientes," disse Diego Felipe Gaia dos Santos, professor de Cirurgia Cardiovascular da Unifesp.

A equipe liderada por Gaia foi a primeira a tratar em humanos problemas na válvula aórtica (saída de sangue do coração) e ao mesmo tempo a aorta ascendente (vaso que leva sangue para o coração e outros órgãos) sem a necessidade de abrir o paciente, o que lhes valeu prêmios de reconhecimento internacional.

Órgãos do futuro

Outras técnicas apresentadas no evento visam desenvolver órgãos e tecidos artificiais. A empresa TissueLabs, apoiada pelo Programa Pesquisa Inovativa em Pequena Empresas, da FAPESP, está desenvolvendo um hidrogel que permite a impressão 3D de órgãos e tecidos em laboratório.

A empresa emergente já fabrica e vende hidrogéis de diferentes tecidos para pesquisadores de várias partes do mundo. O material, feito a partir de órgãos de animais, pode ser usado tanto em estudos in vitro como em modelos animais.

"Retiramos todas as células dos órgãos de porcos, deixando só a matriz extracelular, as proteínas comuns a todos os animais (tanto humanos quanto os porcos). A partir dessa matriz fabricamos o hidrogel, que é misturado com células-tronco ou mesmo células adultas já diferenciadas. Com isso, é possível imprimir essa composição no formato tridimensional de um órgão ou de um tecido," contou o professor Gabriel Liguori, pesquisador do InCor.

"É claro que esses órgãos ainda estão muito distantes de se tornarem realmente funcionais. Com o nosso material já é possível fabricar tecidos, ainda que para estudo in vitro. Futuramente, o objetivo é a fabricação de órgãos para transplante," finalizou.