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Revista Scientific American Brasil

Tecnologia Primata

Publicado em 01 junho 2017

Era UM FIM DE TARDE DE 1994 E A ENTÃO ESTAGIÁRIA ANGEIA PERONDI SE PREPARAVA para encerrar mais uma jornada de observação de um grupo de macacosprego (Sapajus sp), numa das ilhas fluviais do Parque Ecológico do Tietê, zona leste de São Paulo. Orientanda do etólogo Eduardo Ottoni e da primatóloga Patrícia Izar, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP), Angela frequentava o parque próximo ao aeroporto internacional de Guarulhos, que já naquela época abrigava animais apreendidos pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). O objetivo da estagiária era reproduzir, na natureza, um experimento sobre o uso de ferramentas por macacos realizado em laboratório pela pesquisadora Dorothy Fragaszy, da Universidade da Geórgia (EUA).

Naquela tarde, conforme a rotina, o tratador do parque foi à ilha buscar Angela com um barquinho. No caminho de volta, contornando as ilhas, enquanto atravessavam uma área de preservação fechada à visitação, a pesquisadora ouviu um barulho diferente que vinha da mata, na direção da margem do rio. O ruído, seco, insistente, soava como um "tac, tac, tac". Era como se alguém estivesse martelando alguma coisa. Angela estranhou e perguntou ao tratador o que era aquele barulho.

''Ah, isso são os macacos-prego quebrando cocos com pedras", respondeu o tratador, com naturalidade. A reação da estagiária à informação do tratador foi de genuína surpresa. Já Eduardo Ottoni, seu orientador e coordenador do Laboratório de Etologia Cognitiva do IP-USP, ouviu o relato da orientanda com um bom grau de desconfiança. '~chei pouco provável que a estagiária tivesse inventado essa história só para me manter interessado no tema dos macacos. Mas pensei, também, que havia uma boa dose de exagero", lembra Ottoni. Àquela altura da carreira, o interesse do pesquisador por macacos resumia-se à evolução dos primatas, tema relacionado a seus estudos com crianças na área da psicologia evolucionista do desenvolvimento.

DESCOBERTA

O pé atrás dos pesquisadores diante da história do tratador se justificava. Já se sabia que os pequenos e inquietos macacos- prego são muito inteligentes. Encontrados do Norte da América do Sul até o Sul do Brasil, Paraguai e Norte da Argentina, eles vivem em ambientes variados, como a Floresta Amazônica, o cerrado, a caatinga e a Mata Atlântica, o que atesta a sua capacidade de adaptação.

Medem cerca de 60 centímetros, pesam perto de 3 kg e têm um quociente de encefalização (proporção entre o tamanho do cérebro e a massa corporal) próximo ao dos chimpanzés. Mas, naquele momento, a hipótese de que fossem capazes de usar pedras para quebrar cocos - em outras palavras, que pudessem empregar ferramentas para conseguir alimento - configurava uma grande novidade científica.

Até o final dos anos 1990, o conhecimento sobre a utilização, na natureza, de ferramentas por primatas não humanos estava basicamente restrito aos chimpanzés (Pan troglodytes). Já era conhecido o trabalho de pesquisa da primatóloga britânica Jane Goodall, que desde a década de 1960 relatava o emprego de ferramentas por esses símios em seus estudos de observação na Tanzânia Mais tarde, ao longo dos 1990, começaram a surgir pesquisas que relacionavam o uso de ferramentas por populações de chimpanzés selvagens à ideia de que entre primatas não humanos também existem tradições culturais, que incluem comportamentos e formas de compartilhar conhecimento entre indivíduos.

Esse conceito foi apresentado, com grande impacto, em publicaçpes como o livro Chimpanzee material culture: implications for HumanEvolution, do americano William McGrew (1992), e o artigo "Cultures in chimpanzees", do escocês Andrew Whiten (Nature, 1999). Apesar dessas novas perspectivas na área de primatologia, até aquele momento não havia notícia do uso de ferramentas entre os primatas das Américas, incluindo os macacos-prego. A perspectiva de uma descoberta científica importante motivou o grupo de pesquisadores do Instituto de Psicologia da USP a ir conferir, in loco, a veracidade do relato sobre os macacos do Parque Ecológico do Tietê. Na área de preservação do parque há um tipo de coqueiro, o Syagrus, conhecido como jerivá. No meio da mata, perto de um desses coqueiros, os peqisadores encontraram um local com superfície plana onde havia várias pedras e uma boa quantidade de coquinhos quebrados. "Pela primeira vez, vimos algo que parecia ser um sítio de quebra", conta Ottoni. A cena, bastante típica, levou Ottoni a decidir estudar melhor o local, com a participação de um aluno, o biólogo Massimo Mannu.

A novidade era animadora, mas levantava várias questões. Thdo levava a crer que os animais "quebradores de cocos" tinham fugido de um dos grupos que viviam em semiliberdade numa das ilhas próximas. Assim, era preciso considerar a possibilidade de que tivessem aprendido a quebrar cocos com humanos, já que alguns deles haviam sido resgatados do cativeiro pelo Ibama. "Mas, mesmo que um dos macacos tivesse apren- dido a usar ferramentas com humanos e depois outros membros do grupo tivessem aprendido a técnica, o assunto continuava muito interessante", diz Ottoni.

NOVOS RELATOS

Ottoni e Mannu seguiram com o trabalho no Parque Ecológico do Tietê, fazendo medições no local, observando animais e buscando novos sítios de quebra. Identificaram que, naquela área, os macacos-prego usavam basicamente dois tipos de ferramentas: a "bigorna" e o "martelo". A quebra dos cocos maduros era feita com a ajuda de duas pedras, uma com uma superfície horizontal, colocada sobre o chão - a "bigorna" - , e outra menor, em geral segurada pelas duas mãos, que os animais usavam para dar pancadas sobre o fruto - o "martelo".

A esse estudo inicial seguiu-se uma pesquisa sobre o desenvolvimento da quebra de cocos pelos jovens macacos. Sob a orientação de Ottoni, a então doutoranda Briseida Resende investigou o longo processo de aprendizagem desses animais. ''A curiosidade dos infantes e juvenis, além da oportunidade de 'filar' restos de cocos, somada à tolerância dos adultos quebradores, cria as condições perfeitas para a transmissão social dessa tecnologia", conta Ottoni.

Enquanto o trabalho dos pesquisadores ganhava alguma notoriedade com a publicação de artigos em revistas como a Neotropical Primates e Internatiorwl Journal oj Primatology, mais relatos sobre uso de ferramentas por macacos-prego iam chegando. A cada nova história, Ottoni ficava mais intrigado. "Eu não era primatólogo, não entendia muito sobre primatas não humanos, com exceção do que lia sobre chimpanzés para compreender o desenvolvimento humano, mas pensava: como é possível que ninguém saiba que uma coisa dessas está acontecendo? Era muito esquisito", lembra.

Anos depois, o próprio Ottoni e seus alunos se encarregariam de mapear os locais em que foi identificado o uso de ferramentas por macacos-prego no Brasil (veja o mapa acima). Ao longo do projeto de pesquisa, o grupo do etólogo descobriu que o fenômeno acontecia em muitos outros locais, particularmente em regiões de caatinga e cerrado no Centro-Oeste do Brasil, onde as características do ambiente levam esses animais a explorarem recursos alimentares em terra, o que facilita o contato com diferentes materiais que podem ser usados como ferramentas. Mas, por algum motivo até a divulgação de seus estudos, o fato não havia chamado a atenção dos estudiosos da área de primatologia, apesar dos inúmeros relatos das populações locais. Naquele início de projeto, porém, foi preciso que o grupo de Ottoni se empenhasse num processo de busca ativa por novos relatos a respeito do uso de ferramentas por macacos-prego.

Um dos relatos resultantes dessa coleta chamou a atenção dos pesquisadores: o de Antônio Moura, que então fazia seu doutorado na Universidade de Cambridge (Reino Unido), sob a orientação da primatóloga Phillys Lee. Moura, cujo projeto de pesquisa era desenvolvido no Parque Nacional da Serra da Capivara (São Raimundo Nonato, Piauí), contou que por aquelas paragens os macacos-prego também utilizavam pedras para quebrar frutos encapsulados. Naquela região da caatinga, na ausência de cocos os animais quebravam castanhas de caju. Animado com a ideia de ampliar sua linha de pesquisa num ambiente com menor interferência humana, Ottoni aprovou um projeto temático na Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e Mannu seguiu para São Raimundo Nonato, onde confirmou a história de Moura.

Além da satisfação de encontrar outro grupo de macacos usando ferramentas - desta vez, sem suspeita alguma de aprendizado com humanos -, logo os pesquisadores perceberam que o Parque Nacional da Serra da Capivara, localizado num conjunto de chapadas e vales que abrigam sítios arqueológicos com pinturas rupestres de até 12 mil anos de idade, era um local estratégico para o seu projeto de pesquisa. Sob a gestão da FUMDHAM (Fundação Museu do Homem Americano), do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Biodiversidade) e da batalhadora arqueóloga Niêde Guidon, o parque não somente oferecia uma boa infraestrutura como contava com populações de macacos-prego selvagens, semi-habituados à presença humana. O ambiente relativamente protegido da ação de caçadores, e com visitação controlada, permitida somente para grupos com guias, criava uma condição especial: mesmo vivendo em liberdade, os animais não eram especialmente refratários à observação dos pesquisadores.

KIT DE FERRAMENTAS

A ideia era de, num primeiro momento, apenas observar os animais de forma naturalística, com o mínimo de interferência possível. Foram necessárias várias semanas de perseguição pelos paredões de pedra e vales da caatinga até que Mannu conseguisse se aproximar de um grupo grande, com 55 indivíduos - tudo isso cumprindo uma rotina não exatamente leve. O dia a dia da pesquisa de campo com primatas na natureza exige preparo físico. O pesquisador, em geral, localiza o grupo de macacos num dia. No dia seguinte, persegue o grupo o dia inteiro e vai embora o mais tarde possível, para saber onde os animais ficaram para dormir. No outro dia, tem de chegar muito cedo de volta ao local, para, mais uma vez, acompanhar o grupo o dia todo.

O suado trabalho de campo foi compensador. Enquanto os animais do Parque Ecológico do Tietê só usavam a "bigorna" e o "martelo" os macacos da Serra da Capivara empregavam um verdadeiro kit de ferramentas (ver írifográfico acima), descobriram os pesquisadores. Além dos dois itens básicos ("bigorl na" e "martelo"), o conjunto incluía pedras de até 300 gramas, que eram usadas como "pás'; para cavar, e "enxadas", para puxar a terra. Mas o grande diferencial no arsenal de ferramentas dos macacos-prego da Serra da Capivara ficava por conta da "sonda'; uma vareta produzida a partir de um galho de arbusto ou de árvore. "Os macacos-prego usam a vareta para tirar mel de colmeias ou para cutucar frestas nas pedras e desentocar pequenos lagartos", explica o etólogo Tiago Falótico, um dos colaboradores de Ottoni a dar seguimento ao trabalho de pesquisa de Mannu. Em alguns casos, eles usam também versões bem maiores, em contextos de ameaça, para intimidar algum bicho, como uma cobra ou uma aranha.

O uso de varetas pressupõe outras operações com alto grau de sofisticação: além de preparar a sonda antes de usá-la, os animais a transportam até o local de uso. Eles tiram galhos do arbusto ou árvore, cortam uma ponta, eliminam folhas e destacam ramos laterais. Depois levam a vareta até o lugar em que vão usá-la.

O comportamento das fêmeas quanto ao uso de ferramentas também chamou a atenção dos pesquisadores. Apesar da utilização intensiva pelos machos, as fêmeas da Serra da Capivara utilizavam pedras com uma frequência bem menor e, menos ainda, as varetas. "Em geral, as fêmeas manipulam objetos com frequência menor do que os machos", diz Falótico, que fez seu doutorado e o pós-doe sobre o uso de sondas entre macacos-prego. Para avaliar as diferenças entre o comportamento de machos e fêmeas de macacos-prego na manipulação de ferramentas, Falótico acompanhou, ao longo de dois anos, sete filhotes desde os dois meses idade. "A ideia era avaliar se desde o começo da vida as fêmeas já manipulam varetas e pedras com menor frequência do que os machos, ou se essa é uma diferença inata, um desinteresse que elas já trazem desde o nascimento e mantêm ao longo de seu desenvolvimento", explica o etólogo. Falótico ainda trabalha na análise dos dados, mas tudo indica que as fêmeas dos macacos-prego têm, sim, e desde muito cedo na vida, um certo desinteresse pelas ferramentas, em particular pelas varetas. Não se trata de uma inabilidade, faz questão de frisar o pesquisador, já que outros estudos do grupo mostraram que as fêmeas não somente aprendem a usar pedras e varetas, como se saem muito bem nessa tarefa. A explicação seria mesmo a falta de interesse, e por uma razão prática. "O nível de eficiência no uso de varetas entre os macacos prego é de 20%", conta Falótico. "Essa menor relação custo/benefício talvez seja o motivo do desinteresse das fêmeas."

COCOS DUROS, PEDRAS GRANDES

O maior porte físico dos machos também pode explicar parte dessas diferenças entre machos e fêmeas na frequência e habilidade no uso de ferramentas. Elas são menos acentuadas quando se trata do processamento de frutos que requerem menos força para serem quebrados e que, portanto, exigem pedras menos pesadas. Mas isso não explicaria por que o uso de sondas é quase que exclusivo dos machos.

Apesar do pouco caso pelas ferramentas, as fêmeas dos macacos- prego na Serra da Capivara usam pedras com um objetivo bem diferente, e que, até o momento, não foi observado em nenhum outro local: para manifestar seu interesse por um macho em especial. Num dos grupos, Falótico observou fêmeas no cio arremessando pequenas pedras no macho alfa, possivelmente com o objetivo de chamar a atenção e tentar estimular o acasalamento. Enquanto o grupo de Ottoni iniciava os estudos na Serra da Capivara, a cerca de 350 km de distância dali, na Fazenda Boa Vista, município de Gilbués (PiauQ, o fotógrafo da BBC Pete Oxford produzia fotografias que iriam alvoroçar a área da primatologia em nível internacional. As imagens, divulgadas pela agência de notícias britânica, mostravam macacos-prego levantando enormes pedras acima da cabeça para golpear cocos graúdos.

A região de Gilbués, próxima à divisa com o Estado de Tocantins, é um destino de ecoturismo e a "performance" dos macacos-prego era uma atração extra para os visitantes da Fazenda Boa Vista. Àquela altura, imaginou Ottoni ao tomar conhecimento da história, um grande número de turistas já havia testemunhado a quebra de cocos. Após contatos das pesquisadoras Dorothy Fragaszy (Universidade da Geórgia, EUA) e Elisabetta Visalberghi (Instituto de Ciência e Tecnologia da Cognição, Itália), estudiosas do comportamento de macacos-prego em laboratório, Ottoni e Patricia Izar organizaram as primeiras expedições à Fazenda Boa Vista. No local - que viria a se tornar o principal sítio de estudo do Projeto EthoCebus, coordenado por Izar -, o grupo de pesquisadores observou que os macacos quebravam, com aUXJ1io de pedras pesadas, de até três quilos, os duros cocos de cerrado, como a piaçava, o catulé e o catuli. As pedras utilizadas pelos macacos são raras na região e ficam nos sítios de quebra, onde são reutilizadas pelos animais.

Os frutos e sementes processados com ferramentas de pedra na Serra da Capivara, na caatinga, não são tão resistentes quanto os cocos do cerrado, e podem ser quebrados com pedras mais leves. Por outro lado, o uso de ferramentas de pedra é mais diversificado na Serra da Capivara. Os animais os usam também para escavar raízes e ninhos de aranhas e outros insetos. Possivelmente isso se deve a uma maior disponibilidade de seixos de quartzo na região. Essas diferenças ecológicas poderiam explicar os diferentes usos de ferramentas de pedra nos dois locais. Mas ausência de varetas no k.it de ferramentas dos macacos-prego da Fazenda Boa Vista permanecia sem explicação. Os comportamentos distintos dos dois grupos de macacos- prego, que viviam em ecossistemas semelhantes, separados por apenas 350 km, pareciam corroborar o conceito de que o uso de ferramentas entre macacos é parte das tradições culturais de cada grupo. Essas descobertas possibilitaram ao grupo de Ottoni realizar um experimento com o objetivo de examinar em que medida o repertório comportamental de cada grupo de macacos-prego afetaria a resolução de um novo problema.

UM PROBLEMA, DOIS RESULTADOS

O psicólogo Raphael Moura Cardoso, orientando de Ottoni, conduziu o experimento com um dos grupos da Serra da Capivara e o grupo da Fazenda Boa Vista. Duas caixas-problema foram colocadas em cada um dos locais e mantidas durante uma média diária de duas horas, pelo menos três vezes por semana, por um período de três semanas. Feitas em acrílico transparente, com 30 em de altura, as caixas foram afixadas com cintas metálicas em árvores, na altura do chão.

Dentro de cada caixa havia um recipiente com 400 ml de melaço, colocado a 10 em de profundidade, cujo acesso era possível apenas por uma fenda na tampa. Para acessar o melaço, os macacos teriam necessariamente de usar uma sonda. Sobre a tampa, os pesquisadores colocaram um pouco de melaço, para servir de "isca" para os animais. Os resultados não chegaram a surpreender Ottoni e seu grupo, mas foram ainda mais díspares do que o esperado.

O grupo da Fazenda Boa Vista pouco interagiu com a caixa. Os raros animais que chegaram a subir na tampa se limitaram a lamber o melado da "isca" ou, ainda com menor frequência, tentar acessar o interior da caixa com os dedos das mãos. Os pesquisadores chegaram a disponibilizar ao grupo 10 varetas, por 13 dias consecutivos, colocando-as sobre a tampa da caixa. Mesmo assim, nada aconteceu: o grupo de macacos da Fazenda Boa Vista foi incapaz de resolver o problema. Já o grupo da Serra da Capivara frequentou intensivamente o local em que as caixas estavam instaladas.

Depois de algumas tentativas de indivíduos de quebrá-la com pedras, vários macacos trouxeram varetas e acessaram o melaço em seu interior. Diversas varetas, deixadas nas proximidades das caixas, foram reutilizadas por outros macacos. Somente no primeiro dia de experimento, 11 animais usaram varetas para explorar a caixa. Ao todo, os pesquisadores registraram 400 visitas às caixas, com 6.422 episódios de uso de sondas. Ottoni credita esses resultados às diferenças no repertório entre os grupos: "O k.it de ferramentas culturalmente diferenciado de cada grupo parece determinar as maneiras de lidar com novos problemas".

EVOLUÇÃO TECNOLÓGICA

Só no ano passado, os estudos com macacos-prego na Serra da Capivara ganharam as páginas de duas importantes revistas científicas, a Current Biology e a Nature. De quebra, ainda suscitaram uma inesperada repercussão no campo da arqueologia. O artigo na Current Biology tratou das datações de um dos sítios usados pelos animais. A equipe do projeto "Primate Archaeology'; coordenado pelo arqueólogo Michael Haslam, da Universidade Oxford, fez escavações num dos locais de quebra. Numa das camadas mais profundas, a 70 em de profundidade, eles encontraram pedras com marcas que sugerem que foram usadas na quebra de sementes.

Através do método de radiocarbono foi possível estabelecer com precisão a idade da camada em mais de 700 anos, situando as pedras no período pré-colombiano. 'frata-se da mais antiga evidência de uso de ferramentas por macacos. Mas um comportamento atual dos animais também chamou a atenção dos arqueólogos britânicos. Além de usar as pedras para quebrar frutos e cavar a terra em busca de raízes, tubérculos e insetos, os macacos também ocasionalmente gostam de bater uma na outra. Desta forma, conseguem fraturar sua superfície e gerar lascas na pedra.

Em seguida, eles cheiram e lambem o pó de sflica que se desprende da pedra fraturada, sem que os primatólogos entendam muito bem o porquê. Tomos Proffitt, pós-doutorando sob a supervisão de Michael Haslam, ficou espantado ao constatar que as lascas de pedra formadas acidentalmente pela atividade de quebrar pedras dos macacos-prego têm formato de concha, ou conchoidal. Por trás de seu interesse estava a ideia, já bem estabelecida na arqueologia, de que lascas em formato de concha só eram produzidas por indivíduos que manipulavam pedras intencionalmente, com o objetivo de produzir ferramentas ou armas cortantes. Ou seja, um indício exclusivo de atividade humana. Haslam e Profitt escreveram uma carta à Nature relatando suas observações. No texto, comentam que se este mesmo material fosse encontrado num contexto arquelógico associado a um hominíneo, as pedras lascadas teriam sido atribuídas a sua atividade Profitt também declarou que as pedras que viu na Serra da Capivara lembravam ferramentas com mais de 1,5 milhão de anos fabricadas por hominíneos encontradas na Tanzânia.

Por fim, ele e Haslam ponderaram que não se pode mais considerar a produção deste tipo de materallítico uma exclusividade do homem, ou sequer do gênero Horrw. Os estudos do grupo de Ottoni no Laboratório de Etologia Cognitiva do IP-USP seguem agora em novas frentes de pesquisa. O projeto de arqueologia primata conta com a participação de colaboradores internacionais para avaliar o uso de ferramentas de pedra por chimpanzés, macacos-prego e o macaco- de-cauda-longa (Macacajascicularis). Outra abordagem do tema é a busca de evidências mais sólidas do caráter "cultural" do uso de ferramentas. Como em condições naturais as supostas tradições já estão estabelecidas, a investigação dos processos de aprendizagem socialmente mediada agora poderão ser feitas com experimentos envolvendo a manipulação de uma caixa-problema, que dispensa alimento.

Os estudos nessa linha vêm sendo desenvolvidos em colaboração com as pesquisadoras Camila Coelho e Clara Corat, numa parceria com uma das responsáveis pelo desenvolvimento das ferramentas estatísticas, a especialista em antropologia biológica Rachei Kendal, da Universidade de Durham (Reino Unido). "O monitoramento da difusão da nova técnica e das interações sociais concomitantes, com o apoio de modelos estatísticos desenvolvidos para este fim, permitem demonstrar o papel crítico da influência social na difusão de novos comportamentos", diz Ottoni.