Notícia

Gazeta Mercantil

Tecnologia: planejar para criar riqueza

Publicado em 31 março 1997

Por Maria Helena Tachinardi e Getulio Bittencourt - De Boston
O Brasil investe, todos os anos, 1% do seu PIB na área de Ciência e Tecnologia. Proporcionalmente, o volume de recursos supera o dos Estados Unidos (0,7%) e representa mais que o dobro dos investimentos feitos por Tigres Asiáticos como a Coréia do Sul (0,3%). Apesar do considerável volume de recursos - os gastos com bolsas de estudo no País e no exterior chegam a US$ 1 bilhão por ano -, apenas 14 mil engenheiros saem das universidades brasileiras a cada doze meses. É menos do que a metade dos formandos coreanos: 30 mil por ano, numa população que representa um terço da brasileira. A leitura desse quadro é clara: os investimentos brasileiros são significativos, mas é preciso gastar com mais planejamento, para aumentar a riqueza do País. Foi essa uma das principais conclusões da I Conferência Brasileira de Ciência e Tecnologia, encerrada na sexta-feira, no Massachusetts Institute of Technology (MIT), em Boston. "O investimento em C&T tem que virar PIB", diz Carlos Henrique de Brito Cruz, presidente do Conselho Superior da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Durante três dias, representantes do governo, empresários e acadêmicos debateram os novos modelos de investimento em pesquisa tecnológica - nos quais o papel da iniciativa privada é cada vez mais preponderante - e as perspectivas que se abrem para os cientistas brasileiros formados no exterior, como a criação de pequenas empresas. (Págs. A-4 e 5). Tecnologia: investimento produz pouca riqueza Maria Helena Tachinardi - de Boston Brasil gasta em C&T mais do que os Tigres Asiáticos, mas não há planejamento: falta interação entre a universidade e a área privada. No Brasil se formam 14 mil engenheiros por ano, enquanto na Coréia do Sul, com um terço da população brasileira, 30 mil concluem o curso de engenharia. O governo brasileiro investe pouco mais de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) em ciência e tecnologia (C&T), incluindo-se o pagamento de dedicação exclusiva aos professores nas universidades federais. Na Coréia esse investimento oficial é muito menor, de 0,3% do PIB, e nos EUA de 0,7%. O Brasil investe anualmente US$ 1 bilhão em bolsas para a formação de recursos humanos em pesquisa e desenvolvimento, internamente e no exterior. Esse é um valor significativo, entretanto é preciso gastar com mais planejamento as verbas públicas para aumentar a riqueza do País. Essa foi uma das principais conclusões da I Conferência Brasileira de Ciência e Tecnologia, que reuniu de quarta a sexta-feira passada, no Massachusetts Institute of Technology (MIT), na região de Boston, representantes do governo, do setor privado e da comunidade acadêmica. Em outras palavras, "o investimento em C&T tem que virar PIB do País", afirma Carlos Henrique de Brito Cruz, presidente do Conselho Superior da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O Brasil precisa urgentemente planejar a área de ciência e tecnologia e se aproximar dos níveis dos chamados tigres asiáticos, entre eles a Coréia. Falta não apenas qualificar mais professores nas universidades brasileiras, já que em somente cinco delas mais de 50% do corpo docente tem doutorado, mas distribuir melhor os recursos e os profissionais. Das cinco universidades, quatro ficam em São Paulo, sendo as mais disputadas a USP e a Unicamp. Mais ainda: um levantamento feito no ano passado pela Associação Nacional de Pesquisa em Empresas Industriais (Anpei), revelou que menos de 1% da mão-de-obra empregada em atividades de pesquisa e desenvolvimento tinha título de doutor. Nos EUA, a média de pessoal envolvido com atividades de C&T por mil habitantes é de 3,7%, enquanto na América Latina essa proporção é de 0,3% e no Brasil de 0,4 a 0,5%, "ligeiramente superior à média da África", comenta Brito Cruz. No Brasil o investimento do governo em C&T é maior que o da indústria (0,14% do PIB, de acordo com dados da Fapesp) e aí está um gargalo importante: o setor privado deveria gastar mais com essas atividades, aumentar a sua interação com a universidade, que está formando pessoal qualificado, e empregar os "novos doutores" brasileiros. Dos que estão no exterior com bolsas da Capes, agência de fomento do Ministério da Educação, 40% não têm vínculo empregatício, isto é, quando concluírem o PhD estarão em busca de emprego. Um dos problemas apontados pela comunidade brasileira que faz pós-graduação na região da Nova Inglaterra, é que "faltam oportunidades competitivas dentro da indústria no Brasil", o que está levando os especialistas em engenharia, por exemplo, a buscar trabalho em bancos de investimento e consultorias, onde os salários são mais altos. Enquanto isso, o País continua exportando produtos com baixo valor agregado e perdendo competitividade nos mercados internacionais por falta de investimento em "design", melhora de qualidade, "marketing" e canais de distribuição. O pró-reitor da Universidade de São Paulo (USP), Jacques Marcovitch diz que o que preocupa não são os déficits comerciais e de conta corrente do País, mas "a tendência, que precisa ser revertida". Segundo ele, "os resultados do passado não são suficientes para enfrentar os grandes desafios. O Brasil precisa cada vez mais de recursos humanos qualificados no seu próprio mercado, na América Latina e nos EUA". Dos bolsistas que não querem voltar para o Brasil depois de terminado o curso, sugere Marcovitch, deve-se esperar que continuem contribuindo para "desmistificar modelos e realidades", favorecendo a imagem do País no exterior, que ajudem no processo de avaliação departamental, escrevam artigos científicos para publicações brasileiras, passem temporadas como professores visitantes e integrem colegiados nas universidades a que pertencem. Os conferencistas brasileiros reunidos no MIT concordaram em que mesmo no exterior o ex-bolsista pode e deve ser útil à C&T no País. Para os que voltam é preciso oferecer salário, benefícios complementares, fontes de financiamento para pesquisas. Nesse sentido, a USP é uma das instituições que está mudando, enfatiza Marcovitch: liberou o professor para atividades de consultoria um dia por semana e cursos de extensão para melhorar o rendimento. Ele vê novos campos de trabalho no Brasil a partir da formação de blocos regionais na América Latina, entre eles o Mercosul e a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA). A Universidade de São Paulo está privilegiando a formação de profissionais em relações internacionais. Não apenas a universidade, os centros de pesquisa do governo e o setor privado devem ser considerados como alternativas para os recém-doutores. "Eles têm oportunidade de trabalhar em suas próprias empresas", salienta José Mindlin, pioneiro no Brasil na instalação de um centro de pesquisa e desenvolvimento em sua empresa, a Metal Leve, tradicional fabricante de pistões vendida há pouco tempo para a alemã Mahle. Hoje, como diretor do Departamento de Tecnologia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e um dos sete membros do Conselho Nacional de Tecnologia liderado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, Mindlin não só está interessado em aproximar a demanda e a oferta de trabalho, o que entusiasmou os estudantes, como está convencido de que "a boa empresa é a do cérebro". Por isso, ele acha que os novos doutores se inspirarão nos exemplos da Microsoft de Bill Gates, da Xerox e da Polaroid, que nasceram da aventura, do risco. O mineiro Hugo Barra, que faz graduação em engenharia de computação, administração e especialização em economia no MIT, pretende ser um empreendedor. "Quero abrir uma empresa de consultoria no Brasil nos moldes das consultorias de tecnologia dos EUA, onde ainda existem poucas", disse a este jornal. No verão Hugo vai fazer estágio na Silicone Valley Internet Partners. Segundo ele, a empresa foi "fundada pela nata das firmas americanas de tecnologia há menos de um ano, fatura mensalmente US$ 1 milhão e vai instalar um escritório no Brasil". O problema para os que querem bancar seus próprios negócios é o financiamento. No Brasil, ao contrário dos EUA, falta o capital de risco. "O esquema de organização do "venture capital" vai entrar na ordem do dia no Brasil como resultado da estabilização econômica. Vamos entender isso rápido porque antes não sabíamos o valor do dinheiro", aposta Brito Cruz. Na opinião do presidente da Fapesp, as leis de renúncia fiscal também estão estimulando a abertura de empresas. A nº 8.248/91 permite a dedução de até 50% do Imposto de Renda (IR) devido, por companhias do setor de informática que invistam pelo menos 5% de seu faturamento bruto (no mínimo 25% em instituição pública de C&T) em pesquisa e desenvolvimento. A lei 8.661/93 concede dedução, até o limite de 8% do IR devido, também para investimentos em ciência e tecnologia na indústria e na agropecuária. Além disso, isenta a empresa de pagamento do IPI (imposto sobre produtos industrializados) para equipamentos, máquinas, aparelhos e instrumentos destinados à pesquisa. Como disseram Mindlin e outros conferencistas, o Brasil está em fase de transição e a indústria está preocupada com a questão da competitividade. Entre as novas alternativas que estão surgindo, a da Fapesp é essencialmente favorável à pesquisa inovativa na pequena empresa. A entidade paulista vai lançar em abril o edital de um programa para apoiar projetos no valor de até US$ 250 mil cada com um prazo de maturação de dois anos e meio. O objetivo é aumentar a competitividade da empresa (com menos de cem empregados) e valorizar o pesquisador principal, que deve estar vinculado à firma. Há um outro programa da Fapesp com recursos de US$ 10 milhões por ano ("dinheiro do contribuinte paulista") para estimular o desenvolvimento tecnológico das empresas. O problema é que "não temos projeto para apoiar", lamenta Brito Cruz.