Notícia

Gazeta Mercantil

Tecnologia nuclear, melhor que sua fama

Publicado em 25 novembro 1997

Por Mário Moura*
Nenhum outro ramo do conhecimento humano tem sido objeto de tão severas - e injustas - campanhas de descrédito quanto a tecnologia nuclear. Parece fácil falar do assunto. E a imprensa é generosa com aqueles que atiram pedra no setor, mesmo quando não entendem absolutamente nada sobre abastecimento de energia, técnica de usinas, física de reatores nucleares, radioatividade, interação da radiação na matéria, radiobiologia. Essa generosidade torna o setor nuclear alvo constante de acusações desinformadas, sem respaldo técnico ou dos fatos. E, pior, sem respeito ou preocupação de fazer justiça ao comportamento ético da comunidade brasileira dos técnicos nucleares, que hoje assegura ao País o uso de tecnologias de ponta, de importância estratégica e com benefícios à sociedade. Os especialistas em aberrações sobre a área nuclear estão sempre nos surpreendendo com novas aberrações. A mais recente, na carona da queda das bolsas em todo o mundo, compara o funcionamento de uma usina nuclear -pasmem! - com as usinas de dinheiro, que ameaçam o mundo quando estão em baixa. Ainda bem que esse comentário estava assinado por um jornalista especialista em humor. Há um declarado interesse de organizações nacionais e, até mesmo, internacionais, de insuflar a opinião pública contra as atividades do setor nuclear brasileiro. Esses sectários bolsões de resistência não querem o desenvolvimento do Brasil. Lamentável, porém, é saber que setores politicamente de esquerda, considerados progressistas, históricos defensores do desenvolvimento tecnológico e da autonomia nacional em segmentos industriais considerados estratégicos, estejam surfando nessa onda de escolher o nuclear como alvo. Cabe a pergunta: o que é isso, companheiros? O doutor Ing Dietrich Schwarz, chefe do Departamento de Energia Nuclear da Vereinigte Elektrizitatswerke Westfalen AG, da República Federativa da Alemanha, com o objetivo de provar que a energia nuclear é melhor do que sua fama, realizou um estudo muito interessante, que esclarece alguns enganos cometidos pela imprensa, que, com satisfação, acolhe comentários ácidos ai respeito da energia nuclear, vindos de professores de física nuclear, apontados como especialistas no assunto. "O cidadão leigo não consegue distinguir que o físico nuclear teórico se diferencia mais fortemente do construtor de reatores, do que um oftalmologista de um cirurgião cardiovascular", ironiza Dietrich. Declarações falsas, equivocadas e distorcidas, feitas por cientistas distantes do dia-a-dia do setor - alerta o estudo -, proporcionam insegurança e dúvidas no cidadão comum e em muitos dos chamados formadores de opinião. Por conta desse comportamento irresponsável, há muita gente que ainda pensa que uma usina nuclear pode explodir como uma bomba. E nem de longe imagina que a tecnologia nuclear salva vidas quando aplicada na medicina e contribui para uma alimentação mais saudável quando utilizada na agricultura, sem contar sua aplicação na pesquisa em diversas áreas da atividade humana. É evidente que na indústria nuclear ocorrem acidentes como em outra indústria qualquer. Porém, um acidente da dimensão de Chernobyl, volta e meia lembrado pela imprensa, é impossível ocorrer em usinas do tipo de Angra, por serem de concepção completamente diferente. Além disso, é bom lembrar que a tecnologia nuclear foi a que mais avançou no mundo em termos de sistema de proteção e segurança. Nenhuma outra tecnologia se mantém permanentemente sintonizada com o futuro como a nuclear. E nenhuma outra indústria obedece a procedimentos e normas de segurança como a nuclear. Sobre os rejeitos radioativos, chamados equivocadamente de "lixo atômico", tema tocado sempre superficialmente pela imprensa, diz o estudo do doutor Dietrich: "O mundo nuclear vem desenvolvendo tecnologias modernas e seguras de armazenamento de rejeitos. Estamos próximos de uma solução definitiva. Por enquanto, é correto dizer que alguns rejeitos necessitam de mais de 100 mil anos para sua quase total extinção. Porém, é errado afirmar que deve ser vigiado durante todo esse tempo, em virtude de esses rejeitos não terem condições de escapar do seu armazenamento. E, na remota hipótese de isso acontecer, os índices de radioatividade não trarão aumentos significativos aos já existentes na natureza". Há razões de sobra para confiar no futuro da energia nuclear no mundo e, em especial, nos países emergentes como o Brasil. Segundo os estudos do doutor Dietrich, a energia nuclear e o carvão, em conjunto, poderão fornecer as enormes quantidades de energia, necessárias à sobrevivência de bilhões de pessoas, a preço que elas poderão pagar. O estudo prevê que a energia nuclear e o carvão deverão desalojar o petróleo do mercado energético dos países industrializados, já que o último é extremamente necessário para o desenvolvimento dos países mais pobres e, ainda, por longo tempo, para fabricação de produtos petroquímicos importantes, como, por exemplo, o adubo. Além disso, acrescenta o estudo, a energia nuclear é a alternativa mais viável para limitar o consumo de carvão, petróleo e gás, evitando o aumento da concentração de dióxido de carbono, por conta da combustão dessas matérias, que se reflete no ar como uma estufa; em excesso, poderia aquecer fortemente a atmosfera, com conseqüências catastróficas para as pessoas e a natureza. Que a retomada dos investimentos no setor nuclear no Brasil, de enorme importância para o nosso desenvolvimento não seja afetada pelas propagandas antinucleares que vão e voltam, alimentadas sempre por argumentos tão falsos como inconsistentes, regados, na maioria das vezes, por doses maciças de ignorância e má-fé, tentando comprometer o patrimônio intelectual do setor junto à opinião pública. O setor exige respeito e justiça, para continuar desenvolvendo uma tecnologia muito melhor do que sua fama. * Jornalista e coordenador de imprensa da Associação Brasileira de Energia Nuclear (Aben).