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Brasil Econômico

Tecnologia espacial vira opção para dentistas

Publicado em 29 junho 2010

Por João Paulo Freitas

Vladimir Airoldi, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais Inpe , está otimista com o futuro da CVDVale, criada por ele em 1997. A empresa atua com desenvolvimento de materiais, principalmente aqueles que utilizam diamantes artificiais obtidos por deposição química na fase vapor CVD, na sigla inglesa . No ano passado, o negócio recebeu um aporte de recursos do Criatec, maior fundo de capital semente do país, mantido desde 2007 pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social BNDES . Airoldi não revela o valor do negócio, mas diz que graças a ele sua empresa pôde se estruturar e deve comercializar seus produtos no mercado externo ainda neste ano.

Segundo o empreendedor, as negociações já estão avançadas com distribuidores da Europa e dos Estados Unidos e, se tudo ocorrer conforme o previsto, os contratos devem ser fechados em poucos meses. No ano passado, a CVDVale faturou aproximadamente R$ 700 mil. A projeção é esse valor dobrar este ano.

Cultura empreendedora

Em 1989 e 1990, Airoldi, que é físico, fez pós-doutorado no Laboratório de Propulsão a Jato da Agência Espacial Americana, a Nasa, e no Instituto de Tecnologia da Califórnia Caltech . Ao retornar ao Brasil, criou o Grupo de Pesquisa Diamante-CVD e Materiais Relacionados Dimare do Inpe.

Porém, sua visão para o uso dessa tecnologia, ali estudada, extrapolava o universo acadêmico. Durante sua estada nos EUA Airoldi percebeu o quanto o universo da ciência e do mercado podem dialogar. "Os americanos têm uma cultura na qual a pequena empresa tem um valor muito grande. Lá é comum um professor universitário ou um pesquisador ser ao mesmo tempo um empreendedor", diz.

Essa percepção o levou a criar a CVDVale e a inovar: "Desenvolvemos um processo que produz uma aderência muito elevada do diamante ao metal", diz o empreendedor, destacando o diferencial do seu negócio.

Desafio

Antes, Airoldi havia tentado levar a tecnologia a indústrias, mas houve resistência devido ao aspecto muito inovador do produto. Ele então resolveu recorrer a instituições de fomento. Com a ajuda dos recursos obtidos, desenvolveu uma broca rotativa e uma ponta ultrassônica, ambas para uso odontológico. A CVDVale possui a patente internacional dos dois produtos.

O segundo, aliás, é o destaque da empresa. O ultrassom é hoje utilizado por dentistas, por exemplo, para remover o tártaro da superfície do dente. "Mas não dava para retirar uma cárie ou uma resina a não ser com broca de alta rotação", diz Airoldi. Segundo ele, isso é possível com a ponta de diamante desenvolvida por sua empresa. As vantagens do uso do diamante com ultrassom são muitas, mas as mais visíveis são o fim do ruído da broca a precisão das intervenções. Além disso, o produto não corta tecidos moles, como a gengiva, e por isso é mais seguro.

Para Airoldi, romper a distância entre a pesquisa científica e o mundo empresarial valeu pena. "Sempre fiquei intrigado em entender melhor por que nós, pesquisadores, não conseguimos em média levar o que pesquisamos até as pessoas comuns", diz. "Ter uma empresa não era uma prioridade para mim, mas chegou um momento em que percebi que seria um cientista frustrado para o resto da vida se não visse meu trabalho na sociedade", afirma. ¦

Broca para a Petrobras

Empreendedor, Airoldi não para de criar novos usos para as tecnologias desenvolvidas por sua empresa. No começo deste ano, a CVDVale enviou à Petrobras protótipos de uma broca de perfuração de solo. O produto conta com cerca de mil pontas de diamante, cada uma delas com cerca de 20 milímetros de comprimento por 3 milímetros de diâmetro, todas produzidas em reatores próprios. O resultado final do teste da petrolífera deve sair em setembro. "Essa broca é para poços de alta profundidade, como os da camada pré-sal, pois vai durar mais", assegura.

Riscos e Estratégias

1 - Dificuldade de levar ciência à sociedade Vladimir Airoldi, presidente do conselho da CVDVale, não imaginava que seria necessário esperar 2010 para ver seu empreendimento dar resultados consistentes. Para ele, persistência é a palavra que resume essa trajetória. No começo, ele e os sócios tiraram dinheiro do bolso para manter o negócio devido à resistência do mercado.

2 - Caça a recursos voltados à inovação A CVDVale já foi contemplada com diversas linhas de financiamento graças ao empenho de Airoldi. O primeiro benefício veio em 1998, quando a empresa obteve recursos do Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas Pipe , da Fapesp. No ano passado, a CVDVale recebeu aporte do fundo Criatec, que assumiu 35%do negócio.

3 - Ambição que vai além do mercado interno No Brasil, a CVDVale demorou a convencer investidores e dentistas da eficácia de suas pontas ultrassônicas. A empresa quer agora repetir o feito no mercado externo. Airoldi está confiante: "precisaremos mostrar ao dentistas dos EUA e Europa que eles podem fazer um preparo cavitário com ultrassom. Acredito que será mais fácil. Estamos bem-preparados", diz.