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Global 21

Tecnologia e internacionalização

Publicado em 19 outubro 2009

Por Glauco Arbix e Zil Miranda

A internacionalização de empresas brasileiras depende em grande parte de novas atitudes do setor privado.

O mundo não será o mesmo depois da crise. Mesmo que as mudanças na arquitetura financeira, no funcionamento dos bancos e na estrutura da coordenação econômica global fiquem muito aquém do necessário, o enfraquecimento da economia norte-americana, o fortalecimento da China, a desenvoltura da intervenção pública nos mercados e o bom desempenho de um grupo de países emergentes -dentre os quais o Brasil- abrem espaço para que novos personagens contracenem na arena internacional.

Entre 1998 e 2007, os países emergentes aumentaram sua contribuição para o crescimento do PIB global de 35% para 70%, enquanto a economia dos EUA e da Europa diminuíram sua contribuição de 60% para 17%.

Atualmente, o crescimento da China e da Índia já alcançou o patamar anterior à crise e, no conjunto, os emergentes responderam por cerca de 90% do crescimento do PIB mundial no primeiro semestre de 2009, ante 70% em 2008.

Os determinantes desse desempenho permanecem alvo de intensa polêmica. Altos níveis de poupança interna em meio a um ambiente econômico relativamente mais poroso ao comércio internacional podem ajudar a entender o que se passa.

Mas é difícil entender essa mudança sem levar em conta que a produtividade cresce nesses países. E aumento constante da produtividade tem na inovação e na tecnologia suporte fundamental.

Em meio à crise, vários países emergentes desenvolveram políticas de apoio à aquisição de empresas estrangeiras de tecnologia como uma forma de sair da crise melhor do que entraram, dando seqUência a um movimento de internacionalização que começou há alguns anos.

Segundo o Boston Consulting Group, dentre os países que concentraram as fusões e aquisições no exterior, em 2008, a China (com 36 operações), a Índia (com 20) e o Brasil (com 14) são líderes destacados.

Se o resultado imediato da expansão internacional é a conquista de maior fatia do mercado, é certo também que representa uma nova plataforma para a elevação de sua competitividade via absorção de tecnologias e aperfeiçoamento dos processos de inovação.

O empresariado, porém, age diferenciadamente, e o empresário brasileiro mostra-se muito mais tímido do que os indianos e chineses.

Levantamento da Dealogic indicou que as empresas indianas expandiram suas atividades em 2008 via 277 fusões e aquisições (envolvendo cerca de US$ 20 bilhões) e, no primeiro semestre de 2009, via 41 operações similares (cerca de US$ 15 bilhões).

Lou Jiwei, principal executivo do fundo soberano China Investment Corporation, afirmou ao "The Economist" que a crise não somente derrubou mundialmente o preço dos ativos como também multiplicou o número de empresas em busca de capital, dois grandes incentivos para o empreendedor chinês deslocar-se para os Estados Unidos e a Europa.

Segundo a revista inglesa, o programa do governo chinês (Go Global) voltado à internacionalização de empresas dispõe de recursos da ordem de US$ 200 bilhões para a aquisição de setores estratégicos, em especial na área de energia.

O Brasil não possui planos globais desse tipo, ainda que políticas recentes, em especial do BNDES, apontem na direção da internacionalização de empresas.

Obstáculos na infraestrutura, no financiamento, no sistema legal e tributário ainda dificultam muito o movimento de internacionalização das empresas. Somados à tradicional orientação para o mercado interno que ainda marca a maior parte do empresariado brasileiro, esses fatores explicam parte da timidez no aproveitamento das oportunidades abertas pela crise.

Apesar da existência de entraves que pedem maior atenção pública, a internacionalização de empresas brasileiras depende em grande parte de novas atitudes do setor privado. Nesse caso, a sinergia público-privado não só é bem-vinda como também é necessária.

Somente a fragilidade dessa articulação pode ajudar a explicar, por exemplo, a venda de empresas estratégicas de biotecnologia, como a CanaVialis e a Alelix para a Monsanto.

A aquisição de tecnologias que hoje o país não domina, mas que constituem ativos estratégicos, é um dos pontos altos de qualquer política proativa em tempos de crise.

A busca pela inserção de empresas brasileiras nas cadeias globais de maior valor agregado é essencial para a política industrial e tecnológica, principalmente porque ajuda a elevar a qualidade da atividade econômica no interior do próprio país.

O setor público pode estimular e ajudar o setor privado a superar seu tradicional -e contido- modo de operar, para elevar a competitividade de toda a economia. Inovação é ainda mais importante em tempos de crise.

 

GLAUCO ANTONIO TRUZZI ARBIX, doutor em sociologia, é professor do Departamento de Sociologia da USP, coordenador do Observatório da Inovação do Instituto de Estudos Avançados da USP e pesquisador da Fapesp e do CNPq. Foi presidente do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) de 2003 a 2006.

ZIL MIRANDA é doutoranda em sociologia pela USP, bolsista da Capes na Universidade Califórnia (Berkeley).

Fonte: Folha de São Paulo (19/10/2009)