Notícia

Sinomar Calmona

Tecnologia de primeiro mundo: parto normal para o rei

Publicado em 07 agosto 2013

Há dois dias nasceu em Londres o terceiro sucessor ao trono real da Inglaterra. Pesando 3,8Kg., nasceu de parto normal, depois de 13 horas de trabalho de parto. Como assim, parto normal? Filho de rei e futuro rei nascer de parto normal? Grande, pesando 3,8 kg. e nascer de parto normal? Treze horas de trabalho de parto? Na Inglaterra, país de primeiro mundo, não tem uma medicina obstétrica bem desenvolvida? Os médicos e os pais não conhecem as vantagens do parto por cesariana? É assim mesmo, considerando a prática obstétrica prevalente em nosso país é pouco compreensível a maneira como ocorreu este nascimento.

O parto foi normal, depois de 13 horas de trabalho de parto – tempo normal que vai do início das contrações, passa pelos períodos de dilatação e descida do bebê e termina com o nascimento – porque é assim que acontece nos países do primeiro mundo – Europa, Estados Unidos da América, Canadá, Japão, entre outros – com medicina muito desenvolvida e postura médica responsável.

Celso Lafer, presidente da Fapesp, em seu artigo, “O interesse do saber desinteressado” (Jornal O Estado de S. Paulo, 16.06.13) escreve: “Uma das características do mundo contemporâneo é a velocidade com a qual a cultura científica e tecnológica amplia os horizontes do conhecimento, transpõe barreiras antes tidas como naturais e inalteráveis e altera as condições de vida de todos. Por isso, a capacitação científica e tecnológica é uma variável crítica para uma sociedade poder ter o papel de controle do seu próprio destino e encaminhar problemas que desafiam a vida nacional”. Aproveito esta lúcida citação valorizadora da ciência e da tecnologia, para alertar sobre os riscos de serem usadas de modo inadequado e prejudicial.

A TECNOLOGIA CONSOLIDA O NATURAL

O conhecimento científico não necessariamente aponta o uso de intervenções tecnológicas em detrimento das abordagens simples e naturais, mas, ao contrário, consolida a compreensão sobre elas e lhes dá mais substância para que sejam mais apropriadamente usufruídas.

VISÃO SUBDESENVOLVIDA

Em nosso subdesenvolvimento, o parto normal é visto pela maioria das pessoas como procedimento de risco, superado, rudimentar, coisa de pobre, de gente sem cultura e atrasada em relação a modernidade médica, e gestantes, com suas mentes mal induzidas, pedem parto por cesariana. O ciclo está fechado: gestantes e obstetras induzem e são induzidos, mutuamente, em prol do parto por cesariana que já se aproxima dos 100% dos partos.

CONQUISTAS REAIS

O parto, tempos atrás, ocorria no domicílio da parturiente, conduzido por parteira curiosa sem nenhuma formação técnica. Com o desenvolvimento científico e tecnológico, passou a ser realizado por equipe médica, no hospital, diminuindo muito as complicações e mortes maternas e fetais. Por sua vez, o parto por cirurgia cesariana trouxe resolução para situações de riscos nas quais o parto não poderia acontecer, com segurança, por via normal. Uma conquista real em benefício da vida.

LIMITES BEM DEFINIDOS

O conhecimento científico em nenhum momento credenciou a cesariana como sendo melhor, mais adequada e mais segura, e que devesse ser aplicada em todos os partos. Como uma intervenção cirúrgica de risco, diz a ciência, a cesariana deve ser indicada, apenas, em situações específicas e existência real de riscos.

CONHECIMENTO AMPLIADO

O conhecimento científico trouxe o domínio da equipe médica sobre o parto normal, sua condução segura e o entendimento completo de sua fisiologia, confirmando-o como a melhor via para o parto.

NATURAIS, EFICIENTES E SEGUROS

O conhecimento científico não torna obsoleto, nem anula os processos naturais da vida, mas sobre eles lança entendimento tornando-os cada vez mais compreendidos, seguros e passíveis de serem positivamente usados em benefício da humanidade.

A COMPREENSÃO DO EQUÍVOCO

Transformar a cirurgia cesariana no modo rotineiro de parto não significa exercício de tecnologia e aplicação da ciência, mas, atraso, descaso e falta de compromisso com a verdadeira ciência, realizando o oposto do que ela determina para benefício das pessoas.

CONFLITO DAS PESSOAS

A ciência não é antinatural e o natural não é anticientífico. A tecnologia não prescinde do natural, não se choca com ele e nem o combate. Quem o faz é o ser humano limitadamente tecnológico, que valoriza e usa a tecnologia de maneira equivocada.

ESTRUTURA E EQUIPE HOSPITALAR PARA O PARTO

O obstetra, por várias razões, não pode acompanhar todo o trabalho de parto de suas parturientes. Mas, por isso, a solução não está em realizar todos os partos por cesariana com hora marcada. As maternidades podem ter uma equipe permanente para acompanhamento paciente e seguro dos trabalhos de parto nas 24 horas do dia, assim como realizar as cesarianas quando realmente necessárias – 10 a 15% dos casos. Infelizmente, mesmo nos hospitais públicos, com equipes médicas de plantão permanente, os índices de cesarianas são absurdamente elevados. Mais do que estrutura física, o problema é de consciência e ética profissional.

Destaque: A tecnologia não prescinde do natural e não se choca com ele