Notícia

Gazeta Mercantil

Tecnologia da Mauá reaproveita alimentos

Publicado em 24 março 1996

Por Juliana Almeida - de São Paulo
O lixo brasileiro é considerado um dos mais ricos do mundo, especialmente por causa do desperdício de alimentos nas feiras livres, nos sacolões, nos supermercados e nas próprias residências. Pensando nisso, o Instituto Mauá de Tecnologia (IMT) desenvolveu um projeto para aproveitar economicamente esses nutrientes antes de apodrecerem. Foram cerca de dois anos de pesquisas e mais oito anos em busca de parceiros para a transferência de tecnologia. E, depois de muitos percalços, será finalmente inaugurada hoje a fábrica da Nutrisopa - uma sopa concentrada, destinada a alimentar crianças carentes. A sopa é feita com alimentos em perfeitas condições, que não são comercializados por estarem fora dos padrões de peso, tamanho ou aparência. A primeira doação, feita a 25 instituições (entre creches e orfanatos), beneficiará cerca de 4 mil crianças. O volume é suficiente para alimentá-las por um mês, caso sejam servidos três pratos de sopa por semana. A fábrica, situada em um galpão do Ceagesp, tem cerca de 600 metros quadrados e é uma iniciativa do Instituto de Solidariedade à Família, criado pelos institutos Airton Senna e Abrasso/Credicard, Sindicato dos Permissionários da Ceagesp (Sincaesp) e IMT. Os dois primeiros entraram com um investimento de US$ 350 mil, para a compra e instalação dos equipamentos, assim como a transferência de tecnologia. O Sincaesp se responsabilizou pela fornecimento da matéria-prima e o IMT entrou com a assistência técnica. O processo de preparação da sopa consiste em três etapas: recepção e preparação, cozimento e armazenamento do produto. Dessas etapas, o armazenamento foi o mais difícil de ser concluído. "Não acreditávamos ser possível desenvolver um processo de esterilização capaz de manter a sopa válida por um ano"', explica a gerente operacional do programa, Renata Túlio Dias, do Instituto de Solidariedade à Família. ETAPAS DE FABRICAÇÃO Quando recebe os legumes, tubérculos e verduras do Ceagesp, a fábrica separa os alimentos que porventura estejam danificados ou estragados por uma seleção manual e visual. O material que não vai ser processado imediatamente segue para a câmara fria, onde é conservado a aproximadamente 6°C. Após descascados, os alimentos são lavados em água corrente e em água clorada, sendo em seguida triturados. Ao mesmo tempo, a farinha (que também faz parte da composição da sopa) é misturada à água e ao leite e será adicionada à carne pré-cozida, ao arroz cru e à proteína de soja. Nos últimos dois minutos de cozimento (são 30 minutos no total), é adicionado um corante de urucum para dar um aspecto mais atraente à sopa. Alguns legumes, como pimentão, berinjela e quiabo, não são permitidos na fórmula da sopa, por causa de seu gosto forte e característico. "Não podemos correr o risco de a criança rejeitar a sopa por não gostar de algum desses legumes", comenta a gerente do programa. A pasta alaranjada, contendo ainda pedaços de alimentos, precisa então ser envasada. São usadas latas com capacidade para cinco quilos, feitas de folha-de-flandres (aço estanhado) e revestidas com verniz sanitário. Para cada lata de sopa, aconselha-se adicionar dois terços de água. O produto é então esterilizado e armazenado. A fábrica tem capacidade para produzir 1,6 mil quilos de sopa por dia, trabalhando com dois turnos de quatro horas cada. De acordo com Jorge Salomão, do IMT, esse volume de produção pode ser triplicado caso haja demanda e número suficiente de pessoas treinadas para esse trabalho.