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IDEA

Tecnologia agrícola

Publicado em 16 outubro 2007

Por Diana Nascimento

RB855113, CTC 9 e IACSP93-2060. Qual dessas variedades é a melhor para as condições de minha lavoura? Pergunta difícil essa, mas algumas indagações, com certeza, foram resolvidas durante o 1º Grande Encontro sobre Variedades de Cana-de-açúcar, realizado pelo IDEA nos dias 22 e 23 de agosto, no Centro de Convenções, em Ribeirão Preto. As temáticas abordadas foram várias: a realização adequada do manejo varietal em conjunto com planejamento de colheita, como explorar o potencial máximo das variedades de cana-de-açúcar, como gerenciar o desempenho das variedades nos diversos ambientes de produção, quais as variedades que se adaptam melhor ao plantio mecanizado, recomendação de variedades para novas fronteiras e com elevado déficit hídrico.

O encontro reuniu especialistas em melhoramento genético, profissionais de usinas, produtores, consultores e representantes do agronegócio que buscam crescentes ganhos de produtividade. Hoje, o setor que já passou por dificuldades, produz, em média, 85 t de cana por hectare. Atualmente são cultivados mais de 7 milhões de ha em 16 estados brasileiros. Aumentar a produção é a meta. Diante disso, correr atrás de informações e casos de sucesso é uma obrigação constante.

1º Grande Encontro de Variedades de Cana-de-açúcar — participação de mais de 110 usinas, de 15 estados brasileiros, e técnicos do Paraguai, da Colômbia e da Argentina.


Cana Transgênica

Os anos 80 foram marcados pela multiplicação de mudas de cana por cultura de meristema. Já em 1991, teve início o Consórcio Internacional de Biotecnologia de Cana que congrega 17 instituições em 13 países, os quais já investiram US$ 3,2 milhões em 26 projetos de biotecnologia. Os membros do consórcio se reúnem entre uma ou duas vezes por ano. Surgiu quando ainda não se falava muito em biotecnologia e manipulação de DNA. Segundo William Burnquist, pesquisador do CTC (Centro de Tecnologia Canavieira), a biotecnologia é intercambiável entre culturas. "Em 1994, o CTC produziu a primeira cana transgênica do Brasil e em 1997, realizou o primeiro plantio de campo experimental de cana transgênica no Brasil, com consentimento da CNTBio", lembra.

Entre 1999 a 2003, o CTC e a Fapesp realizaram o Programa Genoma da Cana-de-açúcar, o Sucest, que identificou aproximadamente 43 mil genes. No período correspondente entre 2004 a 2007, as duas instituições financiaram a fase funcional, ou Genoma Funcional da Cana-deaçúcar, projeto que rendeu uma patente de 343 genes com forte suspeita no metabolismo de sacaroses. Burnquist conta que com os estudos até agora realizados, conseguiuse um aumento de 25% sobre o teor de sacarose em plantas.

Burnquist: "o CTC trabalha variedades com aumento

do teor de sacarose e resistência a insetos"


Futuras variedades

Em relação ao potencial das futuras variedades da Canavialis e os últimos resultados dos ensaios de seleção, José Antônio Bressiani, comentou que 17 clones promissores foram plantados em 19 campos em abril de 2007, época de maturação precoce. "O melhor clone é 22% superior ao melhor padrão e estimamos que em 2009 já teremos o lançamento", adianta Bressiani. Para ele, os genes de aumento de sacarose têm capacidade de alcançar resultados significativos. "Um gene de resistência à seca produziu eventos que sobreviveram 55 dias.

Também estamos em testes de campo para gene de resistência ao mosaico e, no longo prazo, estamos nos preparando para suportar a tecnologia de etanol celulósico, com clones promissores de cana fibra. Não existe mais cana-de-açúcar e sim cana energia", observa. Sobre as transgênicas, Bressiani acredita em um horizonte de seis anos até o lançamento dessas variedades, mas ressalta que, com certeza, o transgênico ficará pronto antes desse tempo, embora devido à regulamentação, o tempo previsto seja de seis anos mesmo.


Variedades RB

De 1977 a 2006, o Planalsucar e o atual Ridesa (Rede Interuniversitária para o Desenvolvimento do Setor Sucroalcooleiro) lançaram 67 cultivares para todo o Brasil. Destas, 12 ainda são protegidas, pois após 14 anos, a variedade passa a ser de domínio público. Até 2006, o Censo Varietal no Brasil apontava que 57% eram variedades RB, 39% variedades SP e 4% se referiam a outras variedades. Marcos Antônio Sanches Vieira, diretor executivo da Ridesa, explica que a rede distribui sementes para sete universidades. Cada universidade escolhe os dez clones mais promissores que são utilizados em vários ambientes, visando o melhoramento genético.

O diretor salienta que não há como potencializar uma característica sem perder outra e que é preciso conhecer as variedades e descobrir outras características no campo. O técnico agrícola da Ufscar (Universidade Federal de São Carlos) de Valparaíso, Lungas Lopes Menezes comenta que no Estado de Mato Grosso do Sul, a variedade RB855536 é boa para a região. Ele sugere que na região de ambiente intermediário, a RB935744 deve ser colhida na época certa. Considera também que a RB925345 é boa, mas apresenta um problema: o carvão. "É preciso ajudar as variedades. Em ambiente desfavorável, as opções são pequenas e nesse caso a SP791011 é uma boa opção", destaca.

Entre as variedades que não florescem, Menezes cita a RB855536, a RB92579, RB928064, a RB935744 e a RB855113. Ao fazer um balanço sobre as variedades, o técnico fez algumas considerações ao dizer que:

• a 5063 é um material rústico que possui TCH alto;

• a 6015 talvez possa dividir espaço com a 454;

• a 6022 é promissora com POL alto;

• a 965602 é um dos principais materiais;

• a 5911 é um material precoce e promissor;

• a 5902 também é um material promissor;

• a 977619 é um material para Minas Gerais, rústico e produtivo;

• a 975939 e a 6931 são de alta precocidade.

Nos próximos anos, poderemos ter novidades, pois há 21 materiais que estão entrando em experimento. "Variedade se faz no campo", enfatiza Menezes. Segundo Marcos Landell, do IAC (Instituto Agronômico de Campinas), alguns materiais podem nos surpreender. Durante sua palestra, Landell comentou sobre as novas variedades IAC. Dois materiais têm maturação precoce: a IACSP93-2060 e a IACSP95- 3028. Outras duas variedades que também serão lançadas são de maturação semiprecoce a tardia: a IAC91-1099, que ganha em TCH, em ambientes médios e inferiores e em TPH, em relação à 2454; e a IACSP95-5000 é um material muito ereto, responsivo e mais exigente.


Disseminador de tecnologia

De acordo com Dib Nunes, os eventos realizados pelo IDEA são disseminadores de tecnologia para o setor. "Cerca de 400 pessoas estiveram presentes ao evento. Contamos com a participação de mais de 110 usinas, de 15 estados brasileiros e técnicos do Paraguai, da Colômbia e da Argentina", afirma. "Lançamos a semente de um evento que será tradicional no setor: um grande encontro entre pesquisadores e usinas, todos os anos, para discutir progressos e experiências vivenciadas com o manejo de variedades em diversos ambientes de produção em todas as regiões produtoras de cana do País", revela Nunes.

O engenheiro agrônomo Ramón Correa Lezcano, do Paraguai, se diz um assíduo expectador dos eventos do IDEA. "Faz quatro anos seguidos que venho aos eventos. As palestras são muito interessantes, trazendo novos valores ao Paraguai, o que é muito importante, visto que as variedades, em meu país, são poucas", revela.