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Sucesso no Campo

Tecnologia a favor do produtor e do meio ambiente

Publicado em 28 outubro 2017

Nos últimos dez anos, as demandas da sustentabilidade agrícola e da preservação do meio ambiente tem sido o pano de fundo para o desenvolvimento do controle biológico de pragas e doenças na agricultura mundial. Dados divulgados pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), registram a utilização da prática em cerca de 8 milhões de hectares por ano no país. Considerado um importante setor de produção de insumos para o agronegócio, este mercado vem alcançando uma taxa de crescimento anual de até 20%.

Na ponta das pesquisas no segmento, o Instituto Biológico, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, é responsável pelo desenvolvimento de tecnologias ambientalmente seguras para promover a sanidade do cultivo da cana-de-açúcar, soja, seringueira, banana, morango e flores ornamentais.

O Instituto Biológico selecionou e desenvolveu as cepas IBCB 66 de Beauveria bassiana para o controle de mosca-branca em soja, ácaro rajado e broca da bananeira, e o isolado IBCB 425 de Metarhizium anisopliae para o controle de cigarrinhas-das-raízes da cana e das pastagens.

Atualmente, o IB disponibiliza essas cepas para 99% das empresas de produção de fungos no Brasil, que são as mais utilizadas na canavicultura e sojicultura. Por meio do PROBIO – Programa de Transferência de Tecnologia em Controle Biológico, o instituto realiza um trabalho de assessoria técnica que vai desde o projeto da biofábrica até o treinamento de funcionários e as cepas. São 55 empresas assessoradas pelo IB.

José Eduardo Marcondes de Almeida, engenheiro agrônomo e pesquisador do IB, comenta que é cada vez maior o número de projetos nesta área, envolvendo desde as grandes comodities até plantas medicinais de alto valor agregado. Doutor em Entomologia, ele relata que o interesse pela produção de bioinseticidas à base de fungos, bactérias e vírus também tem aumentado, fomentando o investimento em novas técnicas de produção e formulação, além de trabalhos de eficiência em laboratório e campo.

“A principal novidade das pesquisas está relacionada ao sistema de produção dos microrganismos, principalmente fungos, que são produzidos em sistema de fermentação sólida em arroz. Estão sendo desenvolvidas novas técnicas para produção em fermentação líquida, com partículas infectivas e novas formulações. Porém, isso pode causar um efeito econômico no uso desses microrganismos, visto que o custo do produto vai subir, devendo-se tomar cuidado para não se inviabilizar a técnica”, revela.

José Eduardo diz ainda que o controle biológico de pragas com parasitoides, predadores e microrganismos entomopatogênicos, bem como microrganismos para o controle de doenças de solo, são os que mais se desenvolveram. O pesquisador destaca o interesse de empresas multinacionais e brasileiras iniciando atividades do ramo no Brasil, que é um grande produtor agropecuário com vocação para o uso desses agentes em praticamente todas as culturas e criações.

“Hoje, as áreas de aplicação de controle biológico no Brasil chegam a 1,5 milhão de hectares de Metarhizium anisopliae e 2,5 milhões de hectares de parasitoides nos canaviais; 3 milhões de hectares de Trichoderma spp. e 3 milhões de hectares de Beauveria bassiana para o controle de mosca-branca em soja e feijão e outros agentes como Isaria fumosorosea em citros, Bacillus thuringiensis em soja e B. subtilis”, contabiliza.

Pesquisa

O Laboratório de Controle Biológico do Centro Experimental Central do Instituto Biológico, com sede em Campinas (SP), há 47 anos tem se dedicado às pesquisas de controle biológico de pragas na agricultura. Dentre os programas existentes, o controle microbiano de pragas, com fungos, é um dos mais desenvolvidos, obtendo sucesso no controle biológico da cigarrinha-da-raiz da cana-de-açúcar, cigarrinhas-das-pastagens, moleque-da-bananeira, broca-dos-citros, cigarrinhas-do-feijoeiro, gorgulho-aquático-do-arroz, cupins de montículo, broca-do-café, carrapatos bovinos e percevejo-de-renda da seringueira.

A Coleção de Fungos Entomopatogênicos “Oldemar Cardim Abreu”, iniciada em 1981, teve como finalidade inicial apenas preservar alguns isolados de fungos, bactérias e vírus utilizados em trabalhos de controle biológico de pragas, mas que devido ao crescimento da demanda de pesquisas foi tomando corpo, chegando a 868 isolados até 2017.

O início das pesquisas com fungos entomopatogênicos ou outro agente microbiano de controle biológico é feito a partir de uma coleção de isolados, coletados e caracterizados adequadamente, sendo testados quanto à sua virulência e produção em meios de culturas não obrigatórios, para que possam ser produzidos e utilizados na agricultura. O tempo para se obter resultados é em torno de 3 anos.

Histórico

Os principais resultados do uso de agentes de controle biológico tiveram início no século passado, principalmente na cultura da cana-de-açúcar, onde se utilizava parasitoides para o controle de broca da cana. Até que a vespinha Cotesia flavipes passou a ser produzida em larga escala, chegando a atingir 3 milhões de hectares de cana.

Na década de 1970, o fungo Metarhizium anisopliae chegou a ser produzido para até 200 mil hectares, no Nordeste do Brasil, visando o controle da cigarrinha-das-folhas da cana. Mas, no final dos anos 1990, com a paralisação da queima para a colheita da cana, no Estado de São Paulo, a cigarrinha-das raízes causou grandes prejuízos para a cultura na ocasião.

Porém através de pesquisas para a seleção de isolados de M. anisopliae e avaliação em campo, realizadas pelo Instituto Biológico e financiadas pela FAPESP, houve uma necessidade grande de se obter uma grande quantidade do agente de controle biológico. E a partir do ano 2000, o Instituto Biológico passou a ensinar e assessorar tecnicamente biofábricas de fungos em São Paulo chegando a todo o Brasil, principalmente nas regiões canavieiras.

A partir desse evento e com a chegada da Helicoverpa armígera no final da década passada, houve um crescimento importante para a produção de parasitoides e agentes microbianos de controle biológico. Da mesma maneira, o uso de fungos para o controle de doenças de solo em soja, feijão e hortaliças, aumentou a importância das biofabricas dada à produção em larga escala do fungo Trichoderma spp.

Finalmente, José Eduardo aponta o porte artesanal das pequenas e médias biofábricas em operação, as dificuldades com a seleção de isolados mais eficientes e, principalmente, a ausência de legislação específica para o segmento, como os três principais desafios a serem superados rumo ao avanço mais rápido do controle biológico no Brasil.

“As biofábricas brasileiras precisam se capitalizar para aumentar o investimento em treinamento dos funcionários, desenvolvimento de equipamentos mais modernos, formulações e certificações como ISO 9001 e 14001, para maior credibilidade dos produtos, obviamente o registro no Ministério da Agricultura – MAPA, também faz parte desse processo. A manutenção de coleções de agentes entomopatógenos é de extrema necessidade para o desenvolvimento de bioinseticidas e é outro desafio nesse processo, pois está envolvido um importante fator legislativo, que regula inclusive a anuência e a repartição de benefícios com os “proprietários” da cepa. A legislação tornou-se um desafio causa da inexistência de uma legislação própria, tanto na parte de registros como no que se refere ao uso de isolados desses agentes entomopatogênicos, por causa da proteção do patrimônio genético nacional, o que foi criado em termos de legislação foi a Lei da Biodiversidade no. 13.123 20/05/2015.

Seria necessária uma discussão mais aprofundada a respeito do conteúdo dessa Lei, procurando um melhor esclarecimento dos pontos obscuros dessa legislação. A Lei dos Agrotóxicos, Lei No. 7802 de 11/07/1989 dispõe sobre a pesquisa, experimentação, a produção, a embalagem, o transporte, armazenamento, comercialização, propaganda, utilização, importação, exportação, o descarte de embalagens, a classificação, o controle, fiscalização e o registro de agrotóxicos e afins no Brasil. Praticamente envolvendo todo o processo, mas foi criada principalmente para os produtos químicos, pois os bioinseticidas se encaixam na palavra “afins” desta lei. Seria importante aumentar a discussão sobre o registro de produtos biológicos, criando uma lei específica para tais produtos e análises mais baratas, procurando ajustar a necessidade de informações sobre o produto com a sua natureza biológica, pois muitos testes usados ainda hoje são desnecessários. Paralelamente, seria importante o estudo e o desenvolvimento de análises de impacto de produtos biológicos sobre o ambiente, animais e o homem”, analisa.