Notícia

Correio Popular (Campinas, SP)

Técnica produz café descafeinado já no pé

Publicado em 30 junho 2010

Por Henrique Beirangê - Agência Anhanguera

Uma nova técnica na área da biologia vegetal promete revolucionar a forma como se produz café descafeinado no Brasil. Um estudo inédito do pesquisador e diretor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Paulo Mazzafera, em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), conseguiu obter linhagens de sementes capazes de produzir café sem cafeína e com alta capacidade de produção.

O trabalho para se obter a semente com essas características desafia o pesquisador desde 2004. Na época, um estudo coordenado por ele, e divulgado na revista Nature, uma das publicações científicas mais conceituadas do planeta, já anunciava para o mundo inteiro que era possível produzir a semente sem a cafeína. Entretanto, as sementes resultantes da pesquisa apresentavam baixa produtividade, o que inviabilizava a exploração comercial da descoberta.

No atual estágio dos estudos, o pesquisador utilizou uma técnica capaz de induzir a mutação genética das sementes e conseguiu obter mudas que produzem café com quantidades desprezíveis de cafeína. Mazzafera, que estuda a fisiologia do café há 27 anos, conta que um dos grandes benefícios da produção da bebida descafeinada utilizando um procedimento que não envolve qualquer tipo de intervenção química é a qualidade do produto final, a garantia de que o sabor é o mesmo do café tradicional e o barateamento nos custos da produção. "Hoje, você encontra em alguns estabelecimentos pacotes de 250 gramas de café sem cafeína custando R$ 25,00. Com a técnica que utilizamos, conseguimos obter os grãos com custos muito próximos ao do café comum", disse.

As pesquisas para produção de café descafeinado já ocorrem desde a década de 20 do século passado, mas, até hoje, a bebida com essa característica só era obtida por meio de procedimentos químicos utilizados diretamente na semente para extrair a cafeína. "Muitas vezes, o próprio sabor do café fica comprometido devido à intervenção desses agentes na semente, que não somente extraem a cafeína, mas também retiram outras substâncias que comprometem a qualidade do produto", afirmou Mazzafera.

O pesquisador disse que o interesse comercial pelo café descafeinado ainda é pequeno no Brasil, diferentemente do que acontece em outros países. Segundo o especialista, menos de 1% do café comercializado em território nacional é sem cafeína, enquanto na Europa e nos Estados Unidos, a divulgação dos efeitos colaterais do consumo excessivo da cafeína, que já afetaram até mesmo o pesquisador, tem provocado uma expansão do consumo do produto no Exterior. "Estou perdendo parte da audição do ouvido direito e o meu otorrinolaringologista me disse que o problema tem relação com o consumo excessivo de café", disse. O pesquisador lembrou que estudos recentes também já mostraram que o consumo moderado de café auxilia no combate à diabete do tipo 2, mas adverte sobre os excessos. "A ingestão de café com cafeína deve ser feita de forma controlada", disse.

O pesquisador procura novos parceiros na iniciativa privada para dar continuidade à pesquisa e disse que, a partir do experimento, já obteve 250 plantas, que serão capazes de produzir sementes para plantar 5 hectares para testes. O processo mutagênico responsável pela obtenção das plantas descafeinadas foi patenteado e o investimento realizado pela Fapesp foi de aproximadamente R$ 160 mil.

Mudas foram geradas de sementes modificadas

Inicialmente, o pesquisador Paulo Mazzafera mergulhou uma quantidade de sementes em uma solução, conhecida como agente mutagênico, que é capaz de gerar modificações na cadeia de DNA. As sementes modificadas geneticamente foram plantadas em estufas e geraram 28 mil mudas. O pesquisador, utilizando um aparelho chamado cromatógrafo, examinou uma a uma as folhas das amostras e separou aquelas em que a cafeína não estava sendo sintetizada. Do total, apenas sete mudas estavam sem cafeína e serviram de base para que o pesquisador estudasse o genoma das plantas. A partir daí, Mazzafera estudou o gene responsável pela produção da cafeína e quais modificações haviam ocorrido durante a mutação induzida pela solução. O pesquisador diz que no próprio gene não houve alteração, mas, provavelmente, o fator de transcrição, que controla a expressão do gene cafeinasintase, responsável pela biossíntese de cafeína, tenha sofrido alguma modificação. (HB/AAN)