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Painel Acadêmico

Técnica pode reduzir efeitos adversos de fármaco usado em quimioterapia

Publicado em 24 fevereiro 2017

Por Júlio Bernardes

A nanoencapsulação, que envolve moléculas de fármacos em pequenas estruturas poliméricas, pode facilitar a utilização de medicamentos injetáveis ou tomados por via oral, aponta pesquisa da FCF (Faculdade de Ciências Farmacêuticas) da USP e do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas) do Estado de São Paulo. Experimentos em laboratório mostraram que a técnica pode reduzir os efeitos adversos e aumentar a eficiência da miltefosina, fármaco utilizado no tratamento do câncer. Novos testes serão realizados para comprovar a eficácia e a segurança do método e futuramente permitir seu uso comercial.

O trabalho buscou aumentar o potencial da classe terapêutica dos alquil fosfolipídeos, que possuem atividade contra várias linhagens de células tumorais, e diminuir a toxicidade de tais substâncias. “A miltefosina, protótipo da classe, já é usada como fármaco quimioterápico no tratamento da metástase cutânea do câncer de mama e linfomas cutâneos, com aplicação tópica na pele”, afirma a professora Carlota Rangel Yagui, da FCF, orientadora da pesquisa. “A miltefosina também é utilizada por via oral para tratar a leishmaniose.”

A miltefosina não pode ser administrada intravenosamente (por meio de injeções), devido ao efeito hemolítico pronunciado. “Ela provoca a destruição das hemácias, ou seja, dos glóbulos vermelhos do sangue do paciente, o que causa anemia”, aponta Valker Feitosa, pós-graduando da FCF que realiza a pesquisa no IPT. “A miltefosina também causa irritação no local onde a injeção é aplicada. Em caso de utilização por via oral, ela provoca irritação gástrica.”

Para reduzir os efeitos adversos, a pesquisa testou rotas de incorporação da miltefosina em micelas poliméricas, que são nanoestruturas microscópicas, com cerca de 25 nanômetros (nm) de diâmetro. “As micelas são obtidas pela autoagregação de poloxamers, materiais que ao se juntarem com a miltefosina funcionam como copolímeros anfifílicos, ou seja, que possuem afinidade tanto com o meio aquoso (hidrofílico) quanto com o meio orgânico (hidrofóbico)”, diz Feitosa. “A miltefosina também é anfifílica, no entanto suas moléculas formam pequenas micelas que causam o efeito hemolítico”, acrescenta Carlota.

Efeito terapêutico

A professora da FCF explica que as moléculas de miltefosina agregadas aos copolímeros formam as micelas poliméricas, nanoestruturas que carregarão o fármaco, que pode ser aplicado por via oral ou injetável. “Os testes em laboratório com amostras de sangue mostraram que a nanoestrutura reduz o efeito hemolítico e preserva a atividade do fármaco”, destaca. “A nanoencapsulação, além de diminuir efeitos adversos, permite controlar a liberação do fármaco, melhorando seu efeito terapêutico”, ressalta Feitosa.

O projeto também prevê a realização de estudos in vivo, visando a demonstrar a segurança e a eficácia da nanoencapsulação. Os pesquisadores calculam que esta etapa deve se estender por pelo menos um ano. “A miltefosina já tem efeito terapêutico comprovado em seres humanos, o que irá agilizar os experimentos”, diz Natália Cerize, pesquisadora do IPT que participa do trabalho. “Porém, é preciso comprovar se a tecnologia mantém o efeito terapêutico e tem potencial para reduzir as reações adversas no organismo. Só depois disso é que se pode evoluir para uma etapa clínica, em seres humanos.”

De acordo com Feitosa, o uso farmacêutico de polímeros biocompatíveis já é comum. “Os copolímeros poloxamers são amplamente estudados, o que ajuda a agilizar os testes e abre a possibilidade de sua utilização combinada com outros fármacos anfifílicos”, aponta. “A pesquisa utiliza processos produtivos passíveis de escalonamento e já existentes, o que torna a tecnologia aplicável para a indústria farmacêutica”, conclui Natália. A pesquisa tem apoio da Fapesp e do IPT, por meio do Programa Novos Talentos, voltado para projetos de pesquisa e desenvolvimento conduzido por pós-graduandos e pós-doutorandos.

Os ensaios de atividade in vitro feitos em laboratório tiveram a colaboração da professora Daniela Bassères, do Instituto de Química da USP. Os estudos in vivo, com modelos experimentais de tumor de pele e de mama, serão realizados em parceria com o professor Alexandre Keller, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).