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Jornal da USP online

Técnica pode reduzir efeitos adversos de fármaco contra câncer

Publicado em 22 fevereiro 2017

Por Júlio Bernardes

A nanoencapsulação, que envolve moléculas de fármacos em pequenas estruturas políméricas, pode facilitar a utilização de medicamentos injetáveis ou tomados por via oral, aponta pesquisa da Faculdade de Ciências Farmaceuticas (FCF) da USP e do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) do Estado de São Paulo. Experimentos em laboratório mostraram que a técnica pode reduzir os efeitos adversos e aumentar a eficiência da miltefosina, fármaco utilizado no tratamento do câncer. Novos testes serão realizados para comprovar a eficácia e a segurança do método e futuramente permitir seu uso comercial.

O trabalho buscou aumentar o potencial da classe terapêutica dos alquil fosfo-lipídeos, que possuem atividade contra várias linhagens de células tumorais, e diminuir a toxicidade de tais substâncias. “A miltefosina, protótipo da classe, já é usada como fármaco quimioterápico no tratamento da metástase cutânea do câncer de mama e linfomas cutâneos, com aplicação tópica na pele”, afirma a professora Carlota Rangel Yagui, da FCF, orientadora da pesquisa. “A miltefosina também é utilizada por via oral para tratar a leishmaniose”.

A miltefosina não pode ser administrada intravenosamente (por meio de injeções), devido ao efeito hemolítico pronunciado. “Ela provoca a destruição das hemácias, ou seja, dos glóbulos vermelhos do sangue do paciente, o que causa anemia”, aponta Valker Feitosa, pós-graduando da FCF que realiza a pesquisa no IPT. “A miltefosina também causa irritação no local onde a injeção é aplicada. Em caso de utilização por via oral, ela provoca irritação gástrica”.

Para reduzir os efeitos adversos, a pesquisa testou rotas de incorporação da miltefosina em micelas poliméricas, que são nanoestruturas microscópicas, com cerca de 25 nanômetros (nm) de diâmetro. “As micelas são obtidas pela auto-agregação de poloxamers, materiais que ao se juntarem com a miltefosina funcionam como copolímeros anfifílicos, ou seja, que possuem afinidade tanto com o meio aquoso (hidrofílico) quanto com o meio orgânico (hidrofóbico)”, diz Feitosa. “A miltefosina também é anfifílica, no entanto suas moléculas formam pequenas micelas que causam o efeito hemolítico”, acrescenta Carlota.

Efeito terapêutico

A professora da FCF explica que as moléculas de miltefosina agregadas aos copolímeros formam as micelas poliméricas, nanoestruturas que carregarão o fármaco, que pode ser aplicado por via oral ou injetável. “Os testes em laboratório com amostras de sangue mostraram que a nanoestrutura reduz o efeito hemolítico e preserva a atividade do fármaco”, destaca. “A nanoencapsulação, além de diminuir efeitos adversos, permite controlar a liberação do fármaco, melhorando seu efeito terapêutico”, ressalta Feitosa.

O projeto também prevê a realização de estudos in vivo, visando demonstrar a segurança e a eficácia da nanoencapsulação. Os pesquisadores calculam que esta etapa deve se estender por pelo menos um ano. “A miltefosina já têm efeito terapêutico comprovado em seres humanos, o que irá agilizar os experimentos”, diz Natália Cerize, pesquisadora do IPT que participa do trabalho. “Porém, é preciso comprovar se a tecnologia mantém o efeito terapêutico e tem potencial para reduzir as reações adversas no organismo. Só depois disso é que se pode evoluir para uma etapa clínica, em seres humanos”.

De acordo com Feitosa, o uso farmacêutico de polímeros biocompatíveis já é comum. “Os copolímeros poloxamers são amplamente estudados, o que ajuda a agilizar os testes e abre a possibilidade de sua utilização combinada com outros fármacos anfifílicos”, aponta. “A pesquisa utiliza processos produtivos passíveis de escalonamento e já existentes, o que torna a tecnologia aplicável para a indústria farmacêutica”, conclui Natália. A pesquisa tem apoio da Fapesp e do IPT, por meio do Programa Novos Talentos, voltado para projetos de pesquisa e desenvolvimento conduzido por pós-graduandos e pós-doutorandos.

Os ensaios de atividade in vitro feitos em laboratório tiveram a colaboração da professora Daniela Bassères, do Instituto de Química (IQ) da USP. Os estudos in vivo, com modelos experimentais de tumor de pele e de mama, serão realizados em parceria com o professor Alexandre Keller, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Mais informações: e-mails corangel@usp.br, com a professora Carlota Yagui; ncerize@ipt.br, com Natália Cerize; e valker@ipt.br, com Valker Feitosa