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Técnica desenvolvida na USP pode reduzir fila de transplantes no Brasil

Publicado em 13 fevereiro 2019

Uma iniciativa conduzida pelo Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP) abre caminho para a possibilidade de diminuir a fila de transplante de órgãos no Brasil.

A prática, conhecida como xenotransplante, foi apresentada durante a FAPESP Week London, evento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo que ocorreu nesta segunda (11) e terça-feira (12), no Reino Unido.

Vale destacar que a modalidade consiste no transplante de órgãos entre duas espécies diferentes. Nesse caso, seriam o porco (Sus scrofa domesticus) e o ser humano (Homo sapiens).

“Os órgãos dos suínos são muito semelhantes aos de humanos, mas seriam rejeitados se fossem transplantados hoje. A ideia é modificá-los para que se tornem compatíveis com o organismo humano”, explica Mayana Zatz, professora do Instituto de Biociências da USP (IB-USP) e pesquisadora responsável pelo estudo.

Parcerias

A coordenação científica é do IB-USP, no âmbito do Centro de Pesquisa do Genoma Humano e Células-Tronco (CEGH-CEL), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) financiados pela Fapesp, vinculada à Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico.

As outras instituições associadas são o Instituto de Estudos Avançados (IEA), da USP, e o Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (InCor). O projeto é uma parceria da farmacêutica EMS e FAPESP, no âmbito do Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE).

A ação tem coordenação do professor Silvano Raia, da Faculdade de Medicina da USP, o primeiro médico a realizar um transplante de fígado com doador cadáver na América Latina e o primeiro transplante com doador vivo no mundo.

Metodologia

Atualmente, porcos modificados para esse fim são criados em países como Alemanha e Estados Unidos, com resultados promissores de transplantes de órgãos em macacos. Segundo a geneticista Mayana Zatz, três genes que provocam a rejeição são bem conhecidos. Assim, desativando-os por meio de uma técnica de edição gênica, é possível fazer com que o sistema imunológico humano não rejeite os órgãos.

O soro do sangue dos animais será testado com o de pessoas que estão na fila de transplante de rim, de modo a verificar a presença de anticorpos que possam rejeitar os órgãos suínos na população brasileira.

As amostras integram a soroteca do Laboratório de Imunologia do InCor, dirigido pelo médico Jorge Kalil, professor da Faculdade de Medicina da USP e um dos responsáveis pelo projeto. Mais de mil amostras de soro de pacientes candidatos a transplante de rim que têm rejeição a qualquer rim humano compõem o acervo.

Simultaneamente, Jorge Kalil e a professora Maria Rita Passos-Bueno, do IB-USP e também pesquisadora do projeto, desenvolverão novos protocolos de acompanhamento de futuros pacientes transplantados, com o intuito de monitorar, no sangue, o surgimento de anticorpos que possam promover a rejeição.

O Brasil ocupa a segunda colocação em número absoluto de transplantes, atrás apenas dos Estados Unidos. No entanto, a fila de espera por órgãos ultrapassou 41 mil inscritos em 2016.

Procedimentos

O transplante de rim é o que apresenta a maior discrepância entre número de pacientes na fila de espera e procedimentos realizados: foram 5.592 transplantes para 24.914 inscritos. Em 2017, 1.716 pacientes morreram enquanto esperavam por um rim.

“Trata-se de desenvolver um produto de base biotecnológica nacional, cujo objetivo final será prover à população em fila de espera para transplantes uma alternativa terapêutica viável e definitiva, que pode encurtar o sofrimento do paciente e seus familiares”, revela a geneticista Mayana Zatz.

Hoje, mesmo transplantes entre humanos exigem que o transplantado tome medicamentos imunossupressores, alguns para o resto da vida, para o combate à rejeição. No caso dos que precisam de transplante de rim, há ainda um custo elevado em hemodiálise de quem espera por um novo órgão.

A fase inicial do projeto tem duração prevista de três anos e prevê compatibilizar aspectos éticos, religiosos e legais do xenotransplante, pela criação de uma disciplina sobre o assunto no Instituto de Estudos Avançados.

Fabricação de órgãos

Durante a palestra, Mayana Zatz apresentou os resultados mais recentes da criação de órgãos a partir de células-tronco. Fígado e artéria hepática de ratos foram criados usando células-tronco de um mesmo animal, como parte do trabalho de doutorado de Ernesto Goulart, além do pós-doutorado de Luiz Caires e de Luciano Abreu Brito, todos com bolsa da Fapesp.

Por meio de ácidos especiais, todas as células da aorta e do fígado de ratos foram removidas, restando somente um suporte formado por colágeno. Células-tronco de humanos foram colocadas nesses suportes e se reprogramaram em células hepáticas e de aorta, criando novos órgãos.

Futuramente, essa pode ser uma solução para pessoas que precisam de transplante de órgãos. Por serem feitos com células do próprio paciente, estes não estariam sujeitos a rejeição pelo organismo.

A pesquisadora também apresentou o projeto 80+, que sequenciou o genoma de 1.324 pessoas com mais de 60 anos para entender como os que permanecem saudáveis depois dos 80, ou mesmo depois dos 100 anos de idade, diferem dos demais e quais desses fatores podem ser aplicados para a população como um todo. Estima-se que existem cerca de 500 mil pessoas centenárias no mundo.