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Táxis e Ubers: qual é o sentido de brigar por uma profissão em extinção?

Publicado em 19 agosto 2015

Por Bruno Ferrari

Nas últimas semanas, motoristas de táxi e do aplicativo de transportes Uber estiveram envolvidos em diversas cenas de selvageria. Taxistas foram flagrados atacando carros do Uber e até expulsando usuários de dentro dos carros pretos. Cenas lamentáveis de uma guerra que, pensando em médio prazo, não faz o menor sentido.

Para os taxistas brigões, uma dica: vocês estão errando o alvo. Especialmente se o inimigo de vocês for de carne e osso. Para os motoristas do Uber, outra dica: dentro de 10 ou 15 anos, vocês provavelmente estarão unidos aos taxistas para protestar contra um “inimigo” maior, mais poderoso, frio e calculista: os carros autônomos.

Vai por mim: a profissão motorista (seja de táxi, de Uber ou de qualquer veículo similar) será extinta. O desafio é apenas saber quando.

Não é uma provocação barata (ok, talvez seja). Quem levantou essa bola foi o próprio fundador do Uber, Travis Kalanick, numa conferência que aconteceu no ano passado. Kalanick afirmou que a migração tecnológica para carros autônomos é inevitável, para o azar dos humanos que pretendem explorar esse tipo de serviço por muito tempo. “Entendam. É por esse caminho que o mundo está indo”, disse. “Se a Uber não for nesse sentido deixará de existir de qualquer maneira”. Vendo a repercussão não muito positiva entre os motoristas do Uber, Kalanick foi ao Twitter se justificar. Escreveu que era um processo que iria levar mais de uma década, ali por 2035. Que até lá muita coisa ainda poderia conhecer. Certo...

Para o Google, a extinção dos táxis pode estar ainda mais próxima. A companhia diz acreditar que até 2020 os carros autônomos serão ubíquos - ou seja, estarão onipresentes em nossas vidas. Um grande investidor de risco dos Estados Unidos, chamado Steve Jurvetson, disse recentemente em um evento da agência Bloomberg que o serviço já tem até nome. Irá se chamar Free ride (Corrida grátis, na tradução). Ele seguiria a lógica de outros produtos do Google: pagaria por seu deslocamento em troca de suas informações pessoais. O Google não confirmou a história, mas dá para sonhar com um aplicativo do Google Maps oferecendo este recurso.

Não precisamos ir até os Estados Unidos para saber de projetos que oferecem um panorama de como será o futuro para a profissão motorista. Ou melhor, de como ele não será. Na USP de São Carlos, há um projeto de táxi autônomo chamado Carina (Carro Robótico Inteligente para Navegação Autônoma). Ele foi desenvolvido com o apoio da Fapesp e do CNPq.

Caminho sem volta

Tecnologias chamadas disruptivas - como são os carros autônomos - têm o poder de criar e destruir mercados num espaço curto de tempo. Nesse processo, conflitos entre "o velho" e "o novo" são naturais. Mas a experiência da inovação mostra que dificilmente é possível evitá-la. Por uma simples razão: o grande responsável pelo avanço de novas tecnologias é o usuário. Pessoas estão interessadas no que é melhor para elas. Basta ver o apoio que os motoristas do Uber têm dos usuários nessa briga com os motoristas de táxi.

Há diversos exemplos que mostram isso. Se os drones que entregam produtos vingarem, o que será da profissão entregador? Se o Facebook desenvolver um algoritmo inteligente o suficiente para escrever um texto como esse que você está lendo, o que será da profissão jornalista? Isso não necessariamente é ruim. A história da automação e da robótica mostra que, quase sempre, a extinção de alguns tipos de profissões também abre espaço para o surgimento de muitas outras. Fora o ganho enorme de produtividade na economia global.

Os smartphones dizimaram indústrias que vão da telefonia fixa às editoras de mapas de papel. Muita gente deve ter perdido emprego por causa disso. Mas a tecnologia também serviu para introduzir uma série de novas cadeias de empregos, incluindo a de aplicativos. O Uber abriu caminho para milhares de novos empregos. Pelo menos até 2035.

Bônus: sobre o conflito entre robôs e seres humanos, há uma ótima dupla de músicos humoristas neozelandeses que até já se dedica a este "mercado do futuro".

https://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=Jt3PJ8I7TII