Notícia

A Tribuna (Santos, SP)

Taturana coloca mineiros em alerta

Publicado em 25 abril 2005

Até 2003, segundo a médica Mariana Dias, plantonista do setor de toxicologia do Hospital João 23, de Belo Horizonte (MG), nenhum caso de acidentes envolvendo a perigosa lagarta Lonomia obliqua havia sido registrado na região urbana da capital mineira.
Porém, desde então, essa taturana, cujos espinhos venenosos são capazes de levar à morte, vem se transformando num caso de saúde pública. Nas três últimas semanas os casos explodiram, e as autoridades médicas locais já falam até em risco de epidemia.
No País, os acidentes com a Lonomia se intensificaram a partir de 1989. Até hoje já são mais de 3 mil casos registrados, cerca de 20 deles fatais. Para os especialistas, o desmatamento e a diminuição dos inimigos naturais da taturana são as principais causas para o recrudescimento das ocorrências.
No Brasil, um soro contra esse veneno é produzido no Instituto Butantan, em São Paulo. E é de lá, também, que se pesquisa uma alternativa que pode redimir um pouco a imagem dessa exuberante lagarta.
Graças a pesquisas desenvolvidas em parceria com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), uma substância denominada Lopap, presente nas cerdas que agem como sistema de defesa desse animal, poderão se transformar em um remédio contra o entupimento de vasos sanguíneos por coágulos (trombose).
Saliva de carrapato
A Lopap não é a única proteína animal conhecida com efeitos benéficos ao ser humano. Do veneno da jararaca (Bothrops jararaca) se desenvolvem testes para futuros anti-hipertensivos. Uma outra proteína com poder analgésico 600 vezes mais potente que a morfina é obtida do veneno da cascavel (Crotalus terrificus) e outra ainda é extraída da saliva do carrapato-estrela (Amblyomma cajennense), capaz de agir em vários tipos de tumores, sem atingir as células normais.
Agora, graças a uma parceria entre laboratórios farmacêuticos, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o Governo Federal e o Instituto Butantan, R$ 10 milhões serão investidos nos próximos dois anos para que essas descobertas deixem os centros de pesquisa e cheguem o mais rápido possível aos hospitais e farmácias do País.
Não se pode prever quando isso irá ocorrer. Os testes são demorados e muitos deles sequer tiveram início com cobaias. Porém, pela primeira vez, o Brasil une a indústria com os centros de pesquisa, um caminho que pode evitar situações como a do Catopril, um medicamento derivado do veneno da jararaca, que gera bilhões de dólares no mercado, mas que acabou patenteado por uma empresa multinacional.