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Correio do Povo (Porto Alegre, RS) online

Tadeu Jorge é o indicado da Unicamp à reitoria

Publicado em 19 março 2005

O engenheiro de alimentos José Tadeu Jorge, de 52 anos, venceu, no primeiro turno, com 82,59% dos votos válidos, a consulta acadêmica para a escolha do próximo reitor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Tadeu Jorge disse ontem que vai trabalhar para firmar posição contrária à reforma universitária que está sendo proposta pelo governo e que, internamente, suas energias serão dedicadas ao aumento de oferta de vagas e de cursos na graduação, além de intensificar as atividades culturais da Unicamp.
O Conselho Universitário irá agora elaborar a lista tríplice que será enviada ao governador Geraldo Alckimin (PSDB). Tradicionalmente o governo escolhe o primeiro colocado na consulta popular. A posse do novo reitor deverá acontecer no dia 19 de abril. O escolhido irá suceder a Carlos Henrique de Brito Cruz, que renunciou ao cargo um ano antes do final do mandato de quatro anos para assumir a diretoria científica da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).
A apuração dos votos, que aconteceu no Ginásio da Unicamp, terminou às 23h40 de quinta-feira. Além de Tadeu Jorge, submeteram-se à consulta da comunidade acadêmica o engenheiro mecânico Celso Arruda e o engenheiro eletrônico Edson Moschim. Arruda teve 12,67% e Moschim 4,74% dos votos válidos.
Tadeu Jorge, atual vice-reitor e coordenador geral da universidade, vai governar a Unicamp junto com o médico Fernando Costa, atual pró-reitor de Pesquisa e futuro vice-reitor. Os novos pró-reitores só serão definidos, disse Tadeu Jorge, após sua nomeação pelo governador.
O futuro reitor é professor na Faculdade de Engenharia Agrícola. É graduado em Engenharia de Alimentos na Unicamp, mestre em Tecnologia de Alimentos e doutor em Ciências de Alimentos. Suas pesquisas estão concentradas na área de tecnologia pós-colheita, onde estuda produtos minimamente processados, armazenamento de produtos agrícolas e propriedades físicas de materiais biológicos. Tadeu Jorge foi diretor da Faculdade de Engenharia Agrícola (Feagri) de 1987 a 1991, diretor-executivo da Fundação de Desenvolvimento da Unicamp (Funcamp) de 1990 a 1992, chefe de gabinete da Reitoria de 1992 a 1994, pró-reitor de Desenvolvimento Universitário de 1994 a 1998. De 1999 a 2002 foi novamente diretor da Feagri, quando deixou o cargo para assumir a vice-reitoria. A seguir, os principais trechos da entrevista feita com o mais votado.

Agência Anhangüera de Notícias (AAN) — Assim que for nomeado pelo governador, quais devem ser suas primeiras ações?
José Tadeu Jorge — Uma será posição institucional da universidade em relação à questão da reforma universitária. A Unicamp fez uma reunião do Conselho Universitário (Consu) na terça, acho que vai precisar fazer ainda outra para posicionamento institucional e tentar influenciar fortemente para que a reforma não saia como está proposta, pelo risco da questão da autonomia.

Como a reforma coloca em risco a autonomia?
A reforma tenta definir autonomia, que é um principio que está na Constituição, no artigo 207 e que não pede regulamentação. Se quiser definir autonomia, vai acabar colocando limites e, se isso acontecer, pode cercear a liberdade que a universidade tem hoje de definir por exemplo, suas linhas de pesquisa, seus projetos prioritários, que cursos ela entende mais adequado criar. A reforma pretende também colocar alguns controles externos, com o pretenso argumento de fazer a universidade ter mais sintonia com a sociedade. Com isso, você passa a colocar pessoas que, embora possam ser ótimas e excelentes nas suas áreas de atuação, não conhecem o funcionamento da universidade. Não é assim que funciona. A universidade é o lugar de todo o conhecimento e não do conhecimento de determinado setor, uma determinada categoria, ideologia. A universidade não trabalha em uma área só porque alguém quer. Daqui a pouco a universidade não tem mais como determinar seus próprios rumos.

Depois disso, ou simultaneamente a isso, qual será sua ação dentro da universidade?
A construção dos projetos de ampliação de vagas na graduação. Teremos um grupo de trabalho para identificar novos cursos que possam ser criados, eventualmente vagas que possam ser criadas nos cursos existentes, a elaboração dos projetos do que é necessário para a gente responder a essa demanda de criação de oportunidades de acesso e a busca das condições para que isso possa acontecer.

Dentro do orçamento da universidade cabem novos cursos ou será preciso buscar mais recursos?
Vamos ter que encontrar recursos. O que estamos avaliando é que é possível, se a gente tiver um projeto qualificado que mostre quais são os cursos, a quantidade de vagas, o que a gente tem e o que precisa para complementar, isso viabilizaria a ofertas dessas vagas. Essa é uma estratégia que pode funcionar, porque o Governo do Estado já deu mostras de que está interessado em planejar a expansão de vagas no ensino superior público de São Paulo. O Conselho de Ciência e Tecnologia (Condit) está estudando isso. Então, a gente pode estar em sintonia com esse planejamento. E além disso, colocar para a Assembléia Legislativa, na aprovação do Orçamento, algumas dessas oportunidades de oferecer mais vagas com projetos concretos.

Há projetos para aumentar a visibilidade cultural da Unicamp?
Estamos nos propondo a organizar a nossa produção cultural interna e criar os mecanismos que possam levar essa produção cultural, que é muito rica, às cidades. Existem ações importantes na viabilização da Estação Guanabara...

A Unicamp já conseguiu os recursos para construir o Centro Cultural na estação?
O projeto está credenciado pela Lei Rouanet e a gente está tentando intensificar a captação de recursos. Essa é uma ação importante logo no começo, porque aquele espaço é importante e será catalisador para a questão da política cultural. A idéia é começar a mexer em alguns espaços que permitam atividades mais intensas ali, mesmo que não seja a recuperação definitiva do espaço, para poder ter vida cultural acontecendo ali. Fazer com que a gente possa ter atividade no campus, com atração de pessoas da cidade para participar disso. A gente tem algumas idéias que precisam ser mais detalhadas, de eventos na Unicamp, no final de semana, por exemplo, que coloque essa produção cultural com possibilidade de ser assistida, visitada, vista pela população.