Notícia

Jornal do Commercio (RJ)

Surpresa no estudo dos processos inflamatórios

Publicado em 11 julho 2005

Enzimas

O já conhecido complexo enzimático IKK (I-kapaB quinase) pregou uma peça nos cientistas. Trabalho realizado pelo pesquisador brasileiro Ricardo Corrêa no Instituto Salk, nos Estados Unidos, mostra que, ao contrário de ativar processos inflamatórios e tumorais, parte dessas enzimas já inibe, de forma natural, os níveis inflamatórios e tumorais.
"Conseguimos mostrar, em vertebrados inferiores, no caso peixes "paulistinhas", que dentro desse complexo existe uma subunidade, a IKK1, que age de forma adversa do que se imaginava até agora", diz Corrêa.
Antiinflamatórios como o Vioxx e o Celebra partiam de um raciocínio simples. Como o complexo está envolvido na ativação da proteína NF-KapaB - ao menos era o que se pensava até agora -, que, por sua vez, auxilia no controle da morte celular e, ao mesmo tempo, estimula processos inflamatórios e tumorais, tudo estava resolvido. Bastava desenvolver medicamentos que inibissem a ação do IKK para que a inflamação e o tumor fossem controlados.

Subunidades
"As companhias farmacêuticas têm gerado inibidores que podem reagir tanto com o IKK1 como com o IKK2 (a outra subunidade do complexo). Essa falta de especificidade pode causar efeitos contrários ao esperado. Pelo que se descobriu agora, a inibição de IKK1 via medicamento poderá ativar, e não inibir, as proteínas responsáveis por estimular a inflamação", explica Corrêa. Isso porque na prática, como foi visto nos peixes pelo estudo, a presença do IKK1 já inibe, de forma natural, o processo inflamatório e o tumoral.
As duas subunidades investigadas, e isso já era sabido, são ao menos 50% idênticas. É isso que levou os cientistas a imaginar que desempenhavam atividades semelhantes. "Isso não é verdade. Nosso trabalho mostra que as subunidades têm funções antagônicas na regulação da proteína NF-KapaB", explica o pesquisador. Os resultados serão publicados na revista "Current Biology".

Desenvolvimento
Além de alertar para a necessidade de um desenvolvimento mais racional de medicamentos voltados para os tumores e as inflamações, o estudo também tem relevância em termos da chamada pesquisa básica. Os resultados obtidos nos EUA mostram novas vias de controle da evolução embrionária dos vertebrados. "O bloqueio da mesma proteína (NF-KapaB) em fases mais precoces da embriogênese causa deformidades na notocorda (eixo de sustentação e de estímulo para a formação da coluna vertebral)", explica Corrêa.
A conseqüência desse processo é que o peixe nasce com deformações no eixo que liga a cabeça à cauda. O que se vê normalmente nesses casos são animais que nascem sem a cauda. "Os nossos dados mostram que uma via tipicamente envolvida com a proteção celular tem também um papel vital na embriogênese dos seres humanos."

Agência Fapesp