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O Liberal (Americana, SP) online

Surdez precoce é cada vez mais comum

Publicado em 04 julho 2016

Os fones de ouvido já fazem parte do cotidiano das pessoas. Nas ruas, no transporte público, fazendo atividades físicas ou em filas de espera. Difícil encontrar alguém sem o acessório. Por isso, é impossível dizer que não devem ser usados. Por outro lado, não é novidade que podem ser muito prejudiciais à audição.

Estudo realizado por pesquisadores da Apidiz (Associação de Pesquisa Interdisciplinar e Divulgação do Zumbido), em São Paulo, constatou que o hábito de usar diariamente os fones para escutar música e de frequentar ambientes muito barulhentos, como shows e casas noturnas, tem elevado a quantidade de zumbidos nos ouvidos dos adolescentes, considerado um sintoma de perda auditiva.

O hábito de usar fone de ouvido diariamente e por muito tempo, afeta a capacidade auditiva de crianças e adolescentes, provocando sérios danos

O trabalho é resultado do projeto “Prevalência e causas de zumbido em adolescentes de classe média/alta”, realizado com apoio da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). “Se essa geração de adolescentes continuar se expondo a níveis muito elevados de ruído, provavelmente apresentará perda de audição entre 30 e 40 anos”, estimou Tanit Ganz Sanches, professora de otorrinolaringologia da FM-USP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) e coordenadora do estudo.

A pesquisa envolveu 170 alunos de 11 a 17 anos de um colégio particular de São Paulo. Eles fizeram o exame de ouvido (otoscopia) e responderam um questionário. Mais da metade (54,7%) disse que tinha sentido zumbido nos ouvidos nos últimos 12 meses.

ALARMANTE

“A prevalência de zumbido nos ouvidos em adolescentes é alarmante. Havia a ideia pré-concebida de que zumbido nos ouvidos era um problema da terceira idade. No entanto, o problema tem se tornado mais prevalente em outros grupos etários, como crianças e adolescentes, pela exposição cada vez maior a níveis elevados de ruído, entre outros fatores”, afirmou Tanit, presidente da Apidiz. Os adolescentes que responderam ter percebido zumbido nos ouvidos foram submetidos a testes, realizados dentro de uma câmara acústica.

Foram avaliadas a audição por audiometria convencional e de alta frequência – entre 250 e 16 mil hertz (Hz) –, nível de frequência e intensidade do zumbido nos ouvidos e limiar de desconforto a sons.

Os resultados revelaram que 28,8% dos estudantes ouviram zumbido nos ouvidos dentro da cabine acústica em níveis comparados aos de adultos.

“Identificamos que os adolescentes têm sentido zumbido nos ouvidos com muita frequência, mas, diferentemente dos adultos, eles não se incomodam e não se queixam para os pais e professores, por exemplo. Com isso, deixam de contar com ajuda médica e o problema pode se tornar crônico”, disse a coordenadora.

Dos 54,7% dos adolescentes que afirmaram ter sentido zumbido nos últimos 12 meses, 51% disseram ter percebido o problema logo depois de usar fone de ouvido por muito tempo ou após sair de um ambiente barulhento.

Efeitos e dicas para evitar problemas

O zumbido nos ouvidos é causado pela lesão temporária ou definitiva das células ciliadas. Localizadas na parte interna do ouvido, essas células alongam e encurtam repetidamente quando estimuladas por vibrações sonoras. O barulho de uma explosão, fogos de artifícios, som alto de um fone de ouvido ou em um show, por exemplo, sobrecarregam essas células, provocando lesões passageiras ou definitiva.

Para compensar a perda de função das células lesionadas ou mortas, as regiões vizinhas passam a trabalhar em um ritmo mais acelerado do que o normal, o que dá origem ao zumbido nos ouvidos, explicou Tanit Ganz Sanches, professora de otorrinolaringologia da FM-USP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo). A boa notícia é que o zumbido é tratável e passível de prevenção. Algumas das formas de evitar o problema é usar protetor auricular e fazer intervalos de dez minutos a cada hora de exposição a ambientes barulhentos, disse a pesquisadora.

“Ao fazer esse intervalo é possível aumentar a chance de os ouvidos se recuperarem e não terem lesões definitivas”, afirmou Tanit. Segundo ela, além da exposição a altos níveis de ruído, outras causas de zumbido nos ouvidos identificadas em adolescentes são jejum prolongado, abuso no consumo de doces – principalmente chocolate – e de cafeína.

Fonte: Agência Fapesp