Notícia

Jornal do Comércio (AM)

Superplásticos "verdes"

Publicado em 13 maio 2011

Com a onda verde que varre o planeta, a procura de plásticos "verdes" tem crescido significativamente. De resíduos agroindustriais saem fibras que poderão dar origem a uma nova geração de superplásticos. Mais leves, resistentes e mais ecologicamente corretos do que os polímeros convencionais utilizados industrialmente, as alternativas vêm sendo pesquisadas pelo grupo coordenado pelo professor Alcides Lopes Leão na Faculdade de Ciências Agronômicas da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), em Botucatu. Obtidas de resíduos de cultivares como o curauá (Ananas erectifolius) - planta amazônica da mesma família do abacaxi -, banana, casca de coco, sisal, o próprio abacaxi, madeira e resíduos da fabricação de celulose, as fibras naturais começaram a ser estudadas pelo professor Lopes Leão e colegas no início da década de 1990. Ao testá-las nos últimos dois anos em escala nanométrica (da bilioné-sima parte do metro), os pesquisadores descobriram cpie as fibras apresentam resistência similar às fibras de carbono e de vidro. E, por isso, podem substituí-las como matérias-primas para a fabricação de plásticos. O resultado são materiais mais fortes e duráveis e com a vantagem de, diferentemente dos plásticos convencionais originados do petróleo e gás natural, serem totalmente renováveis. "As propriedades mecânicas dessas fibras em escala nanométrica aumentam enormemente. A peça feita com esse tipo de material se torna 30 vezes mais leve e entre três e quatro vezes mais resistente", disse Lopes Leão.

Em testes realizados pelo grupo por meio de um acordo de pesquisa com a Braskem, em que foi adicionado 0,2% de nanofibra ao polipropileno fabricado pela empresa, o material apresentou aumento de resistência de mais de 50%. Já em ensaios realizados com plástico injetável utilizado na fabricação de para-choques, painéis internos e laterais e protetor de cárter de automóveis, em que foi adicionado entre 0,2% e 1,2% de nanofibras, as peças apresentaram maior resistência e leveza do que as encontradas no mercado atualmente, segundo o cientista. "Em todas as peças utilizadas pela indústria automobilística à base de polipropileno injetado nós substituímos a fibra de vidro pela nanocelulose e obtivemos melhora das propriedades", afirmou Lopes Leão. Além do aumento na segurança, os plásticos feitos de nanofibras possibilitam reduzir o peso dos veículos e aumentar a economia de combustível. Também apresentam maior resistência a danos causados pelo calor e por derramamento de líquidos, como a gasolina.

"Por enquanto, estamos focando a aplicação das nanofibras na substituição dos plásticos automotivos. Mas, no futuro, poderemos substituir peças que hoje são feitas de aço ou alumínio por esses materiais", diz Lopes Leão. Por meio de um projeto apoiado pelo Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE) da FAPESP, a fibra de curauá passou a. ser utilizada no teto, na parte interna das portas e na tampa de compartimento da bagagem dos automóveis Fox e Polo, fabricados pela Volkswagen.

Outras fábricas de automóveis já manifestaram interesse pela tecnologia, segundo o pesquisador. Entre elas, está uma empresa indiana, cujo nome não foi revelado, que tomou conhecimento da pesquisa após ela ser apresentada no 241 -Encontro e Exposição Nacional da Sociedade Norte-Americana de Química (ACS, na sigla em inglês), que ocorreu no final de março em Anaheim, nos Estados Unidos. Segundo o coordenador da pesquisa, além da indústria automobilística as nanofibras podem ser aplicadas em outros setores, como o de materiais médicos e odontológicos.

Em um projeto realizado em parceria com a Faculdade de Odontologia da Unesp de Araraquara, os pesquisadores pretendem substituir o titânio utilizado na fabricação de pinos metálicos para implantes dentários pelas nanofibras. Em outro projeto desenvolvido com a Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Unesp de Botucatu, o grupo utiliza as nanofibras para desenvolver membranas de celulose bacteriana vegetal. Em testes de biocompatibilida-de "in vivo" realizados com ratos, os animais sobreviveram por seis meses com o material. Segundo Lopes Leão, "Nenhuma pesquisa do tipo tinha conseguido atingir, até então, esse resultado". Com essas pesquisas, projeta-se um cenário imprevisível para utilização de matérias primas vegetais.

Por meio de outros projetos financiados pela FAPESP, o grupo da Unesp também está estudando a utilização de fibras naturais para o desenvolvimento de compósitos reforçados e para o tratamento de águas poluídas por óleo. De acordo com o coordenador da pesquisa, entre as libras vegetais, as do abacaxi são as que apresentam maior resistência e vocação para serem utilizadas na fabricação de bioplásticos.

Dentre os materiais que estão sendo estudados, o mais promissor é o lodo da celulose de papel, um resíduo do processo de fabricação que as plantas industriais costumam descartar, em enormes quantidades e com grandes custos financeiros e ambientais, em aterros sanitários. Para utilizar esse resíduo como fonte de nanofibras, Lopes Leão pretende iniciar um projeto de pesquisa com a fabricante de papel Fibria em que o lodo da celulose produzido pela empresa seria transformado em produto comercial. "E muito mais simples extrair as nanofibras desse material do que da madeira, porque eleja está limpo e tratado pelas fábricas de papel", disse.

Se nossos dirigentes tivessem tido competência para propiciar a acumulação de capital intelectual de boa qualidade - centrado em ciências exatas -, usando de modo eficaz os recursos gerados pelo motor de crescimento da ZFM nos últimos 44 anos, pesquisas semelhantes a essas poderiam estar sendo realizadas localmente, haja vista que a Amazônia possui uma excepcional riqueza em biodiversidade. Mais uma vez vem a lição: a posse de capital humano qualificado é mais importante do que a dotação de recursos naturais.

Esta coluna é publicada às quartas, quintas e sextas-feiras e é elaborada sob a coordenação do economista, Ronaldo Bomfim. cieam@cieam.com.br