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Diário da Saúde

Superdose única de vitamina D não melhorou evolução de covid-19

Publicado em 22 fevereiro 2021

Vitamina D e covid

Poderia uma alta dose de vitamina D administrada no momento da internação hospitalar melhorar a evolução de pacientes com covid-19 moderada ou grave?

A resposta é não, de acordo com um estudo brasileiro publicado pelo jornal da Associação Médica Norte-Americana.

"Estudos anteriores in vitro ou com animais mostraram que a vitamina D e seus metabólitos, em determinadas situações, podem ter efeito anti-inflamatório, antimicrobiano e modulador da resposta imune. Decidimos então investigar se uma dose alta da substância poderia ter efeito protetor no contexto de uma infecção viral aguda, seja reduzindo a inflamação ou diminuindo a carga viral," explicou a pesquisadora Rosa Pereira, coordenadora do projeto.

O ensaio clínico randomizado, duplo-cego e placebo-controlado - modelo considerado padrão-ouro para avaliar a eficácia de medicamentos - foi conduzido por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), contando com 240 pacientes atendidos no Hospital das Clínicas e no Hospital de Campanha do Ibirapuera, entre junho e agosto de 2020.

Os voluntários foram divididos aleatoriamente em dois grupos: parte recebeu uma única dose de 200 mil unidades (UI) de vitamina D3 diluída em óleo de amendoim e, os demais, apenas o óleo de amendoim. Todos os participantes foram tratados com o protocolo hospitalar padrão, que envolvia antibióticos e anti-inflamatórios.

Os principais objetivos foram avaliar se a suplementação aguda teria impacto no tempo de internação dos doentes e se haveria redução do risco de internação em Unidade de Terapia Intensiva (UTI), intubação e morte.

Níveis ideais de vitamina D

Para nenhum dos desfechos clínicos avaliados foi observada diferença significativa entre os grupos. Pereira ressalta que o ensaio foi desenhado para avaliar principalmente o impacto no tempo de internação e que, para mensurar o efeito sobre a mortalidade de forma adequada, seria necessário um número maior de voluntários

"Até este momento, podemos dizer que não há indicação para ministrar vitamina D a pacientes que chegam ao hospital com a forma grave da covid-19," afirma a pesquisadora.

"Isso não significa, contudo, que o uso continuado de vitamina D não possa exercer alguma ação benéfica", ressalta o pesquisador Bruno Gualano, uma vez que este ensaio não avaliou o uso mais prolongado da vitamina D ou seu uso prévio à infecção com o vírus.

A equipe já está trabalhando em outro estudo que tem como objetivo avaliar se indivíduos com níveis suficientes de vitamina D circulantes no sangue lidam melhor com a infecção pelo SARS-CoV-2 do que aqueles com níveis insuficientes do nutriente.

O nível ideal de vitamina D no sangue e a dose diária que deve ser suplementada varia de acordo com a idade e as condições de saúde de cada indivíduo. Idosos e pacientes com doenças crônicas, entre elas a osteoporose, devem ter valores circulantes acima de 30 nanogramas por mililitro de sangue (ng/mL). Já para adultos saudáveis, valores acima de 20 ng/mL seriam aceitáveis.

"O ideal é analisar caso a caso, se necessário dosar periodicamente a substância por meio de exames de sangue e, se for o caso, repor o que falta", orienta.

Checagem com artigo científico:

Artigo: Effect of a Single High Dose of Vitamin D3 on Hospital Length of Stay in Patients With Moderate to Severe covid-19

Autores: Igor H. Murai, Alan L. Fernandes, Lucas P. Sales, Ana J. Pinto, Karla F. Goessler, Camila S. C. Duran, Carla B. R. Silva, André S. Franco, Marina B. Macedo, Henrique H. H. Dalmolin, Janaina Baggio, Guilherme G. M. Balbi, Bruna Z. Reis, Leila Antonangelo, Valeria F. Caparbo, Bruno Gualano, Rosa M. R. Pereira

Publicação: JAMA - Journal of the American Medical Association

DOI: 10.1001/jama.2020.26848

Com informações da Agência Fapesp