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Folha do ABC

Supercomputador revoluciona a meteorologia

Publicado em 27 setembro 2008

Por Ethevaldo Siqueira

A cada noite, milhões de brasileiros vêem na TV a previsão do tempo, com as imagens virtuais do globo terrestre, o mapa do Brasil em destaque, temperaturas máximas e mínimas, áreas de alta pressão, frentes frias, direção dos ventos, tudo com animação e simulação de deslocamento de nuvens. A importância dessas informações ultrapassa largamente a sofisticação de suas imagens, por seu valor para a agropecuária, para a indústria, para as empresas de transporte e para o dia-a-dia de cada um. A rigor, não há nada mais próximo do ser humano que a atmosfera que o envolve, 24 horas por dia, sete dias por semana.

A maioria das pessoas, contudo, não tem idéia da sofisticação tecnológica e dos recursos humanos que estão por trás de uma previsão do tempo. Nem do expressivo avanço da meteorologia e da climatologia no Brasil nos últimos anos.

A confiabilidade das previsões do tempo depende hoje do trabalho de centenas de cientistas no Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos (CPTEC), departamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), com sede em São José dos Campos. Nesse centro, trabalham alguns dos mais experientes especialistas da América Latina em Meteorologia, Climatologia e Espaço.

Esses pesquisadores contam com os recursos tecnológicos mais avançados, que incluem modelos matemáticos processados em supercomputador, softwares avançados, dados de todo o planeta e milhares fotos feitas por satélites meteorológicos.

O resultado são previsões cuja confiabilidade está bem próxima das melhores previsões feitas pelas nações mais desenvolvidas. O Brasil dispõe hoje de previsões com confiabilidade próxima de 95% para o período de 48 horas.

Segmentos especiais da população já contam com previsões para uma semana, 30 dias, seis meses e até mesmo um ano. É claro que, à medida que crescem os prazos, reduz-se confiabilidade das previsões - mas elas sempre poderão servir de orientação como tendência.

MAIS QUE PREVISÃO

Além da previsão do tempo, o Inpe cuida da vigilância sobre as queimadas, da identificação da qualidade do ar e da formulação de cenários climáticos. Com modelos matemáticos sempre mais sofisticados, os pesquisadores identificam literalmente todos os focos de queimadas do País, a partir dos satélites, sejam na Amazônia, no Nordeste ou nos canaviais do interior de São Paulo.

O Inpe faz também a análise dos compostos químicos das queimadas e de sua combinação com outros poluentes das regiões metropolitanas, podendo, assim, prever até as conseqüências negativas dessas substâncias para a saúde humana.

Outra área de atividade científica de grande importância é a elaboração de cenários climáticos por períodos que podem chegar até o ano 2300.

Hoje, esses cenários de muito longo prazo cobrem apenas a América do Sul.

O Earth Simulator

O Inpe precisa de um novo supercomputador, com capacidade de processamento de 50 a 60 vezes superior ao atual Earth Simulator, para avançar em seus projetos e elaborar cenários globais de longo prazo.

A aquisição será feita em concorrência internacional com recursos já aprovados pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), da ordem de R$ 50 milhões. Com o novo supercomputador, será possível ampliar o alcance das pesquisas, fazer a integração dos dados meteorológicos em âmbito mundial e acompanhar os eventos ligados às mudanças climáticas e ao aquecimento global. Mais ainda: com a nova supermáquina, o instituto poderá elaborar estudos e simulações de toda a Terra e identificar com razoável precisão os fatores que interferem no clima.

"Atualmente - diz o pesquisador Carlos Nobre, do Inpe - o supercomputador Earth Simulator é utilizado predominantemente em previsão do tempo, com modelos matemáticos da atmosfera. As previsões utilizáveis podem cobrir até 7 dias. O CPTEC já faz previsões com até 15 dias de antecedência, mas elas ainda não alcançam os melhores níveis de confiabilidade. Outras simulações entre o oceano e a atmosfera, feitas desde 1995, podem dar uma noção bastante precisa do clima nos próximos 6 meses. São essas simulações que têm permitido ao Inpe fazer previsões sobre secas no Nordeste ou na Amazônia, com muito sucesso. Na área de tendências climáticas, o Inpe usa os mesmos métodos internacionais avançados e obtém resultados equivalentes aos dos países mais avançados, como Estados Unidos, Japão e da Europa."

Esses cenários de longo prazo mostrarão com muito maior precisão as tendências meteorológicas, não apenas para os próximos meses ou anos, mas até para as próximas décadas ou para o ano 2300.

O Inpe tem 45 anos de existência. Nascido em 1963, com o nome de Comissão Nacional de Atividades Espaciais (CNAE), o instituto tem sido responsável pela criação e ampliação constante da competência brasileira, hoje comparável à de muitos países desenvolvidos, nas áreas de meteorologia, climatologia, satélites científicos e sensoriamento remoto, entre outras.