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Supercâmera com participação brasileira investigará energia escura

Publicado em 02 setembro 2010

Astrônomos brasileiros estão construindo a maior câmera do mundo para investigar sinais deixados por ondas sonoras produzidas logo após o Big Bang, o evento inicial do Universo, há 13,7 bilhões de anos atrás.

Nessas ondas podem estar algumas das respostas sobre o enigma da energia escura, uma estranha força antigravitacional que está provocando a aceleração da expansão do Universo.

O projeto J-PAS (sigla para Pesquisa da Física do Universo em Aceleração de Javalambre) é uma parceria com a Espanha e envolve diversas instituições nacionais. O custo do equipamento a ser fornecido pelo Brasil é de cerca de US$ 5 milhões, pagos com financiamentos de Finep, Fapesp e Faperj.

NA SERRA

A câmera será acoplada a um telescópio com abertura de 2,5 metros, que está sendo construído pelos espanhóis em conjunto com outro menor, de 0,8 metro. Ambos serão instalados num novo observatório, na serra de Javalambre (daí o nome), perto de Teruel, na Espanha.

"As medidas que temos do sítio, em termos de qualidade do céu noturno, é que ele é muito competitivo, o que é raro na Europa", disse à Folha Laerte Sodré Júnior, pesquisador do IAG (Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas), na USP, e coordenador científico pelo lado brasileiro.

A finalidade principal desse equipamento é varrer o céu do hemisfério Norte, para determinar com precisão onde estão e para onde vão todas as galáxias.

Para que isso seja possível, é preciso que as imagens produzidas pelo sistema sejam as mais amplas possíveis. Daí a necessidade de uma supercâmera, com notáveis 1,6 gigapixel (mais de cem vezes a resolução das mais poderosas câmeras digitais comerciais). O telescópio menor começa a operar ano que vem, enquanto o maior seria inaugurado em 2013.

SONS DA CRIAÇÃO

Nos primeiros 400 mil anos de vida do Universo, o cosmos estava iniciando sua expansão rumo ao gigante que é hoje. A matéria estava tão condensada que não havia vastidões de vácuo salpicadas de objetos com massa, como hoje. As partículas estavam todas dissolvidas e próximas entre si, num estado conhecido como plasma.

Qualquer mínima perturbação desse plasma geraria o que os cientistas chamam de "oscilações acústicas de bárions", o equivalente a ondas sonoras. Elas se propagariam até o momento em que o Cosmos estivesse suficientemente expandido para permitir que ao menos as partículas de luz viajassem sem freio.

Como essas ondas sonoras teriam influenciado a distribuição de matéria e energia até esse ponto, é razoável supor que sinais de sua atuação surgiriam na atual disposição das galáxias.

Foi o que se observou, de forma muito sutil, nos dados da SDSS (Pesquisa Digital do Céu Sloan), um trabalho anterior. "Mas eles tinham muito menos precisão, pois o levantamento foi feito com apenas 5 filtros na câmera. Nós vamos trabalhar agora com 42", diz Sodré Junior.

Graças a isso, os cientistas esperam não só detectar os padrões das ondas sonoras mas também identificar o papel da energia escura na composição cósmica. Poderiam, então, dizer se a energia escura sempre esteve em ação na história do Universo e também se ela está igualmente distribuída no espaço.