Notícia

Gazeta Mercantil

Superávit para a pesquisa médica

Publicado em 22 abril 1999

Por Gary S. Becker*
No debate em curso sobre o que fazer com o estimado superávit federal nos Estados Unidos, tanto republicanos quanto democratas perderam a oportunidade de aumentar a importância destinada à pesquisa médica básica. Estudos mostram que de modestos progressos alcançados no combate às doenças derivam imensos benefícios, visto que as pessoas prezam muito uma vida mais longa e saudável. Dois economistas da Universidade de Chicago, Kevin M. Murphy e Robert H. Topei, estimaram recentemente o valor que os norte-americanos dão para a queda aguda nas taxas de mortalidade por doenças do coração e outras enfermidades de 1970 a 1990. Seus cálculos mostram que a redução da possibilidade de morrer de doenças do coração produziu benefícios muitas vezes maiores que o total despendido em pesquisa médica no decorrer daquele período. Menos mortes e casos de in-farto, câncer e outras aflições produzirão benefícios adicionais. Os autores concluem que uma queda de 1% nas taxas de mortalidade em todas as faixas etárias, causada pelo câncer ou por doenças do coração, vale quase meio trilhão de dólares para os norte-americanos. Ou seja, eles estão dispostos a pagar essa quantia para ter uma vida mais longa e de melhor qualidade. Os autores chegaram a essas estimativas de benefício em parte porque a maioria dos jovens se mostra disposta a pagar bastante, mesmo em troca de apenas uma pequena redução na chance de morrer de alguma doença durante a meia ou a terceira idade. Os benefícios agregados provenientes de taxas mais baixas de mortalidade serão imensos, mesmo se o indivíduo típico estiver disposto a pagar bem menos do que os números presumidos nos cálculos dos autores. O motivo é que muitas pessoas nos Estados Unidos tirarão proveitos imediatos ou quando estiverem mais velhos e mais vulneráveis a câncer, ataques do coração, infartos e outras doenças. Mais ainda, os benefícios de taxas menores de mortalidade para homens e mulheres na Europa, Ásia e em outras partes devem exceder aqueles para a pequena fração da população mundial que vive nos Estados Unidos. Embora os Estados Unidos financiem boa parte do gasto mundial em pesquisa médica, o governo federal destina apenas em torno de US$ 50 por pessoa para esse tipo de pesquisa, comparado aos gastos com todos os programas federais, de cerca de US$ 5 mil para cada cidadão. Quanto a gastar adicionalmente em pesquisa médica depende obviamente da dificuldade de produzir avanços no conhecimento médico. Mas os benefícios potenciais são tão extensos, especialmente comparados às somas despendidas em pesquisa médica básica, que gastos muito maiores em pesquisa se justificariam mesmo se apenas promovessem pequena redução nas taxas de mortalidade. Durante a década passada, a pesquisa da Aids recebeu recursos mais generosos do governo federal do que a pesquisa do câncer nos seios e na próstata e de outras doenças que matam muito mais gente. A compensação substancial derivada dos generosos recursos dedicados à pesquisa da Aids, vista no notável progresso da redução de mortes causadas pela doença, sugere que os recursos ampliados dirigidos a outras doenças conduzirão a descobertas importantes. As empresas farmacêuticas assumiram em parte o que os limitados recursos do governo deixaram para trás: elas agora gastam em pesquisa aplicada no mínimo o mesmo valor que o governo federal destina para a pesquisa básica. Mas empresas privadas concentram seus gastos em vacinas, drogas e outros produtos que possam ser patenteados e oferecer mercados protegidos que gerem lucros para pagar suas pesquisas. Em contraste, os frutos da pesquisa básica, como entender as causas do câncer, não são patenteáveis e estão disponíveis para todos os médicos e companhias privadas. De fato, a ampliação dos recursos federais para pesquisa básica de uma doença específica geralmente aumenta, em vez de diminuir, as despesas das empresas privadas com essa doença, uma vez que elas pegam carona nos avanços no conhecimento básico. É por isso que os economistas concordam que os governos devem dar suporte à pesquisa básica, mas não à aplicada. As empresas privadas investem em pesquisas aplicadas promissoras, mas relutam em investir na aquisição de conhecimentos que ficarão disponíveis também para outras empresas. Infelizmente, recursos generosos na forma de subsídios agrícolas e urbanos e outros programas tendem a excluir outras formas desejáveis de gastos do governo. O apoio inadequado à pesquisa médica básica é uma das mais perturbadoras conseqüências de um governo inflado que serve a poderosos grupos dê interesse. Dobrar os gastos anuais do governo em pesquisa médica exerceria apenas um pequeno efeito sobre o orçamento federal total. Mas a expansão da pesquisa básica poderá trazer enormes compensações. - Prêmio Nobel de Economia em 1992, professor na Universidade de Chicago e membro da Hoover Institution